segunda-feira, 4 de maio de 2026

Antes da morte existe a vida

 


A ideia da morte, e sobretudo do que viria depois dela, costuma mobilizar uma angústia persistente para muitas pessoas. Não sabemos o que há depois da morte. E, talvez mais inquietante do que isso, sabemos que não há como saber.

Diante desse desconhecido, o psiquismo humano frequentemente se movimenta no sentido de construir narrativas que preencham esse vazio. Ao longo da história, religiões, filosofias e sistemas de crença ofereceram respostas diversas. Algumas reconfortantes, prometendo continuidade, reencontros e justiça; outras ameaçadoras, baseadas em punições e julgamentos. Essas construções não devem ser tomadas apenas como tentativas de explicação da realidade, mas como formas de lidar com a angústia de não saber.

Tolerar o não saber é uma tarefa psíquica exigente. Implica abrir mão de uma certa onipotência, reconhecer limites, aceitar que há dimensões da existência que escapam à nossa compreensão. Para muitos, isso é vivido como insuportável. Surge então a tentação de aderir a certezas prontas, ainda que frágeis, pois elas oferecem algo que a dúvida não oferece: alívio.

Nesse sentido, criar teorias sobre o “depois” pode funcionar como uma defesa contra a angústia do “não sabemos”. Não se trata de julgar essas crenças como certas ou erradas, mas de compreender a função que elas desempenham. Muitas vezes, elas organizam a experiência emocional, dão sentido à vida e ajudam a suportar perdas. No entanto, também podem operar como formas de afastamento da realidade mais imediata: a própria vida em curso.

Há algo irônico nisso. Enquanto se investe energia psíquica tentando decifrar o que viria após a morte, frequentemente se deixa em segundo plano aquilo que está dado: a experiência de estar vivo. E viver, de fato, não é simples. Exige lidar com frustrações,  escolhas, perdas, desejos contraditórios. Talvez seja mais fácil se ocupar com o mistério da morte do que com a complexidade da vida.

O ser humano não sofre apenas pelo que ignora, mas também pelo que evita conhecer de si mesmo. A angústia diante da morte pode, em muitos casos, encobrir outras angústias: medo de viver plenamente, de assumir responsabilidades, de enfrentar conflitos internos. O desconhecido absoluto do “depois” acaba funcionando como um campo onde se projetam inquietações que pertencem ao “aqui e agora”.

Aprender a viver implica, entre outras coisas, desenvolver a capacidade de sustentar perguntas sem respostas definitivas. Isso não elimina a angústia, mas a torna mais pensável. Em vez de buscar certezas que tranquilizam momentaneamente, abre-se espaço para uma relação mais honesta com a própria existência.

A questão não é descobrir o que acontece depois da morte, mas o que fazemos com o tempo que nos é dado antes dela. A vida se apresenta, ainda que de forma imperfeita e incompleta, como um campo de possibilidades. E, curiosamente, é nesse campo, tão conhecido e ao mesmo tempo tão pouco explorado, que reside o maior desafio: viver de modo mais verdadeiro, mais responsável, mais implicado consigo mesmo e com o outro.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Quando o sonho não é seu: a frustração de perseguir ideais alheios


Vivemos em uma sociedade que cultua perseguir sonhos a qualquer custo. “Corra atrás dos seus sonhos”, escutamos desde cedo, como se bastasse isso para ser feliz. No entanto, há muitos sujeitos adoecidos não pela ausência de sonhos, mas por terem realizado aquilo que acreditavam desejar — e, ao alcançarem o tão esperado “sucesso”, deparam-se com um vazio difícil de nomear. A conquista se torna sem sentido. A vitória, sem sabor. O sonho, por fim, se mostra estranho: nunca foi deles, de fato.

A pergunta que se impõe é: de onde vem esse sonho que tanto nos move? A resposta jamais é simples. A construção do desejo passa por caminhos tortuosos, marcados pelas identificações infantis, pelas expectativas dos pais, pela cultura e pelas defesas que organizam o psiquismo. Muitas vezes, aquilo que um sujeito persegue com tanto afinco — uma carreira específica, uma imagem de sucesso, um tipo de vida — é, na verdade, uma tentativa inconsciente de atender a um ideal que não lhe pertence, mas que se infiltrou silenciosamente em seu mundo interno como um mandamento. “Se eu for isso, serei amado.” “Se eu conquistar aquilo, serei visto.” “Se eu tiver aquilo outro, finalmente serei alguém.”

A idealização é algo potente na mente humana. Ela é necessária em certos momentos do desenvolvimento psíquico, mas pode também aprisionar o sujeito em roteiros rígidos, distantes de sua verdade mais profunda. O que se revela, com o tempo — muitas vezes por meio de sintomas, crises existenciais, ansiedades difusas ou até mesmo estados depressivos — é que houve um desencontro entre a trajetória vivida e o desejo verdadeiro. Como dizemos na psicanálise, o sujeito foi levado por um falso self, uma versão adaptada de si mesmo que se molda às exigências externas, mas que não é sustentada por uma experiência viva de autenticidade.

Essa distância entre o sonho idealizado e o desejo genuíno cobra seu preço. Ela rouba tempo e vitalidade. Deixa o sujeito exausto, ressentido, confuso. A frustração não é apenas com o mundo, mas consigo mesmo. Há o luto pelas oportunidades perdidas, pelas escolhas que não foram feitas, pelas portas que se fecharam em nome de um projeto que, ao final, não sustentou a alma. E, talvez o mais difícil: há a necessidade de reconhecer que parte da vida foi vivida como encenação — e que será preciso começar de novo, desta vez a partir de uma escuta mais honesta e menos idealizada de si.

A análise oferece exatamente esse espaço. Um lugar onde é possível desmontar o ideal, suspender os roteiros herdados, e perguntar: o que, afinal, eu quero? Mas essa pergunta só pode ser feita quando há coragem para se desapegar das falsas certezas e disposição para se aproximar das zonas de sombra, onde mora o desejo ainda não nomeado. Muitas vezes, é apenas no fracasso do sonho idealizado que o verdadeiro desejo começa a se esboçar.

Como disse o psicanalista inglês Winnicott, “é um alívio ser verdadeiro, embora possa ser extremamente doloroso descobrir que fomos falsos.” A dor do autoengano não é pequena. Mas a possibilidade de reconstrução é imensa. Ao reconhecer que aquele sonho não era seu, o sujeito pode, enfim, deixar de atuar papéis e começar a viver — não mais para corresponder às expectativas do outro, mas para habitar a própria existência de forma mais livre e criativa.

Porque viver o sonho do outro é sobreviver. Mas viver o próprio desejo é, enfim, existir.


quinta-feira, 27 de março de 2025

Corpos fragmentados

 


Um jovem relata que se sente “errado” quando não treina diariamente, como se seu valor pessoal estivesse diretamente atrelado ao número de séries que realiza na academia. Outra paciente diz que só consegue dormir após longos e intermináveis rituais de skincare, como se precisasse organizar a superfície da pele para tentar apaziguar algo caótico por dentro. Um terceiro descreve seu incômodo com o próprio tronco, dizendo que “parece que minha parte de cima não pertence ao meu resto”. O que emerge dessas falas não é apenas uma preocupação estética ou vaidade, mas uma tentativa de lidar, por vias concretas, com experiências emocionais ainda não simbolizadas.

É cada vez mais comum, na clínica, observarmos uma forma de sofrimento que não se expressa prioritariamente pela via do pensamento simbólico, mas sim pelo corpo – ou melhor, por um corpo que não se deixa representar como sujeito. Trata-se de pacientes que chegam ao consultório tomados por um mal-estar indefinido, atravessados por angústias difíceis de nomear, mas que se anunciam, muitas vezes, por meio de queixas ligadas ao corpo: seja pela busca exaustiva de moldá-lo, seja pelo desconforto persistente com ele, seja ainda pela sensação de fragmentação corporal.

É cada vez mais comum, na clínica, observarmos uma forma de sofrimento que não se expressa prioritariamente pela via do pensamento simbólico, mas sim pelo corpo – ou melhor, por um corpo que não se deixa representar como sujeito. Trata-se de pacientes que chegam ao consultório tomados por um mal-estar indefinido, atravessados por angústias difíceis de nomear, mas que se anunciam, muitas vezes, por meio de queixas ligadas ao corpo: seja pela busca exaustiva de moldá-lo, seja pelo desconforto persistente com ele, seja ainda pela sensação de fragmentação corporal.

O corpo, nesses casos, torna-se não apenas objeto de cuidado ou investimento, mas o principal veículo de expressão de estados mentais arcaicos. Investido como uma linguagem de urgência, ele grita o que a mente ainda não consegue pensar. Diante de uma identidade psíquica fragilmente constituída, o corpo passa a ser convocado como uma superfície onde se inscrevem traços de uma tentativa de ser alguém, de existir com forma, contorno e força. 

Não é raro que essas pessoas se mostrem especialmente atraídas pelas sensações físicas e pelo impacto visual de suas transformações corporais, mas sintam grande dificuldade em associar essas mudanças a uma experiência subjetiva mais profunda. O que se vê é uma divisão entre corpo e mente. Nessas condições, o corpo musculoso, moldado com afinco ou a pele perfeita, pode adquirir a função de armadura contra um sentimento interno de desamparo. Uma carapaça onde a força ou perfeição aparente encobre a fragilidade estrutural.

Trata-se de um corpo que existe e atua, mas que não é sentido como morada psíquica. É habitado por sensações, mas não por um sujeito que as elabora. É um corpo em partes, desabitado, desconectado da mente e, por vezes, também da própria história. Um corpo vivido como estranho, como coisa, como objeto que se manipula, e não como expressão viva de um eu integrado.

Nesses momentos, o corpo pode se tornar palco de manifestações primitivas: dores, sintomas difusos, compulsões motoras ou regimes alimentares extremos. São tentativas de lidar com aquilo que não pôde ainda ser pensado.  O desafio do trabalho analítico com esses pacientes é oferecer, no espaço da escuta, uma possibilidade de tradução simbólica das experiências corporais. Mais do que interpretar, trata-se de estar com, de sustentar uma presença que acolha o que não tem forma, e que, pouco a pouco, permita que o corpo deixe de ser apenas campo de batalha para tornar-se também continente de vida psíquica.

O analista, nesses casos, é chamado a funcionar como um espaço vivo, onde as experiências arcaicas possam ser recebidas, transformadas e simbolizadas. Um lugar onde, enfim, corpo e mente possam começar a se encontrar, não como partes isoladas, mas como expressão de uma mesma subjetividade em construção.

A clínica com esses pacientes nos lembra que, por trás da obsessão pela força, pela forma ou pela performance, muitas vezes há um apelo silencioso por reconhecimento, acolhimento e integração. Escutá-los é também escutar a dor de existir em pedaços – e oferecer, na escuta, a possibilidade de se tornar inteiro.




quarta-feira, 7 de agosto de 2024

As armaduras que vestimos

 


O livro “O Cavaleiro Preso na Armadura”, de Robert Fisher, apresenta uma narrativa que, à primeira vista, pode parecer uma simples fábula infantil. No entanto, por trás de sua leveza aparente, reside uma profundidade psicológica sobre as complexidades da mente humana e suas armadilhas.

O cavaleiro, envolto em sua armadura, simboliza a construção de um self defensivo, erguido para proteger-se das vulnerabilidades e expectativas externas. Esta armadura representa as defesas psíquicas que todos nós erguemos ao longo da vida, um mecanismo de proteção que, ao mesmo tempo que nos preserva, nos isola. A armadura do cavaleiro, portanto, é uma metáfora para as barreiras que criamos em torno de nosso verdadeiro eu, na tentativa de manter uma imagem idealizada de nós mesmos.

Quando o cavaleiro decide iniciar sua jornada para remover a armadura, ele embarca em um processo análogo ao da análise psicanalítica. Este movimento implica um olhar profundo para dentro de si, confrontando as partes reprimidas e as fantasias que sustentam sua identidade idealizada. Para se livrar da armadura que o prende e não o permite sentir nada na vida, nem o toque de sua mulher e seu filho, é preciso abandonar as ilusões.

 A fala do rei: "A maioria de nós está aprisionada no interior de uma armadura" reflete a universalidade da experiência de alienação do verdadeiro self. A armadura, que inicialmente serve para proteger, transforma-se em uma prisão, aprisionando o indivíduo em uma identidade rígida e desconectada de sua essência. Este dilema é amplamente explorado na psicanálise, onde o processo terapêutico visa desvelar as defesas inconscientes que impedem o sujeito de viver de forma autêntica.

O dilema do cavaleiro – manter ou não sua armadura – é, na verdade, um dilema existencial. Escolher desfazer-se das defesas e encarar a vulnerabilidade é uma decisão que exige coragem e disposição para olhar a si próprio. Em termos psicanalíticos, é um convite ao encontro com o inconsciente, com os aspectos sombrios e reprimidos da mente. A jornada do cavaleiro é uma peregrinação para além das ilusões, rumo à integração psíquica.

Durante esta jornada, o cavaleiro enfrenta suas fragilidades, medos e inseguranças. Este confronto é indispensável para o crescimento psíquico e o caminho para a integração, passa necessariamente pela aceitação das partes desconhecidas e fragmentadas da mente. É neste confronto com o que há de mais assustador e desconhecido em si mesmo que o cavaleiro encontra a verdadeira coragem e ousadia, afastando-se das defesas ilusórias, sedutoras, mas aprisionadoras.

Ademais, o cavaleiro não trilha este caminho sozinho. Ele conta com a ajuda de figuras que o auxiliam e estas figuras funcionam como a "presença terapêutica" na análise, lembrando-nos de que, embora o trabalho analítico seja profundamente pessoal, ele não precisa ser solitário. A presença do analista, assim como as figuras de apoio na jornada do cavaleiro, oferece um espaço seguro para o sujeito reconstruir sua identidade.

A história do livro nos convoca a uma reflexão profunda sobre nossas próprias defesas. A jornada do cavaleiro é uma alegoria rica que ilustra a importância da coragem para enfrentar o desconhecido e da necessidade de desmantelar as ilusões que nos afastam de nossa verdade mais profunda. Ao final, a verdade, mais poderosa que a espada, emerge como a grande revelação que liberta o cavaleiro – e a todos nós – da prisão de nossas próprias armaduras.




domingo, 21 de julho de 2024

Sobre o vício da pornografia

 



A intensa disseminação da pornografia é um fenômeno que revela muito sobre as dinâmicas do desejo e da pulsão. Vivemos numa era onde o acesso à pornografia é quase instantâneo e ilimitado, com consequências profundas no psiquismo, especialmente entre os jovens, que estão em fases formativas de seu desenvolvimento psicossexual.

Do ponto de vista psicanalítico, a compulsão pela pornografia pode ser vista como uma manifestação de repetição traumática. Freud, em suas investigações sobre o trauma, destacou a compulsão à repetição como um mecanismo pelo qual o sujeito tenta dominar uma experiência dolorosa ou incompreensível. Na pornografia, essa repetição se manifesta pela busca incessante de novos estímulos, cada vez mais intensos, numa tentativa de preencher um vazio interno ou de evitar o confronto com uma falta.

A pornografia, com suas representações idealizadas e muitas vezes desumanizadas do ato sexual, cria uma dissociação entre a realidade e o que se imagina que é real. A pornografia oferece uma satisfação imediata, mas efêmera, que não consegue sustentar uma verdade de maneira significativa. O indivíduo, então, se vê preso numa repetição incessante, buscando incessantemente a excitação momentânea sem nunca alcançar uma satisfação autêntica.

Os jovens, por estarem em fases cruciais de desenvolvimento, são particularmente vulneráveis a essas dinâmicas. A exposição precoce à pornografia pode distorcer suas percepções sobre a sexualidade e o relacionamento. Ao invés de explorarem e desenvolverem uma sexualidade integrada e saudável, muitos jovens acabam internalizando padrões de objetificação e de performance que não correspondem à realidade de suas experiências afetivas.

Ademais, a pornografia na internet é um fenômeno que se alimenta de uma estrutura de gratificação instantânea que caracteriza a era digital. A disponibilidade imediata de estímulos visuais e a facilidade de acesso criam um ambiente propício para o desenvolvimento de comportamentos aditivos. A compulsão pelo consumo de pornografia se assemelha a outras formas de vício, onde o sujeito busca um alívio temporário de suas ansiedades e angústias, apenas para se ver preso numa espiral de dependência e frustração. Só para se ter uma ideia o conteúdo que está mais presente na internet é a pornografia. Alguns calculam que 75% do trafego na web está ligado à pornografia.

É essencial ajudar o sujeito a reconhecer e a confrontar a falta que tenta preencher através do consumo compulsivo de pornografia. Através da análise, o sujeito pode começar a reintegrar seu desejo de maneira mais saudável, construindo uma relação mais autêntica e menos alienada com sua própria sexualidade. Isso não se trata de moralismo contra a pornografia, de dizer o que é certo ou errado, mas de saúde mental.

A disseminação da pornografia na internet e o vício que dela resulta são sintomas de uma sociedade e de pessoas que valorizam a gratificação instantânea e a superficialidade das relações. O desafio psicanalítico é ajudar  a navegar essas águas turbulentas, oferecendo um espaço de reflexão e de construção de uma sexualidade mais integrada e menos dependente de estímulos externos. A cura, no sentido psicanalítico, passa pela reconexão com o próprio desejo e pela capacidade de sustentar a falta sem sucumbir à compulsão.


domingo, 7 de julho de 2024

A Felicidade é a Ausência da Busca pela Felicidade

 

                                                   Le Moulin de La Gallete – 1876



A felicidade, em sua essência, pode ser concebida como um estado de ser que emerge naturalmente quando o sujeito se despoja da incessante busca por ela. Tal concepção pode ser ilustrada pela máxima de Lao Tsé: "Quando você deixa de procurar, você encontra". Essa ideia ressoa profundamente no campo psicanalítico, onde a busca incessante pela felicidade pode ser vista como aquilo que a impede de existir.

 A felicidade, enquanto conceito, frequentemente se coloca como uma promessa de completude e satisfação plena. No entanto, essa busca por um estado idealizado muitas vezes se revela uma miragem, uma construção ilusória que sustenta a angústia e o desassossego. Na perspectiva psicanalítica, a busca incessante pela felicidade pode ser entendida como uma forma de resistência ao confronto com a realidade e com os próprios limites da condição humana.

Freud, em seus escritos, postula que a vida psíquica é governada pelo princípio do prazer, que busca evitar o desprazer e alcançar a satisfação. Contudo, essa busca é marcada por uma mistura de frustração e gratificação, onde o sujeito está continuamente movido por desejos que, uma vez satisfeitos, logo são substituídos por outros. Assim, a felicidade como um estado permanente torna-se uma impossibilidade, uma vez que o desejo é estruturalmente insaciável.

Lembro-me de quando eu era uma criança pequena e via o pôr do sol no horizonte, eu acreditava que existia ali uma espécie de abismo por onde o sol ‘caía’ e se escondia. Pedia a minha mãe para me levar lá para eu poder ver o sol ‘descendo’ por esse abismo. Todos davam risada e eu não entendia por que, mas só depois vim a compreender que por mais que eu chegasse lá no horizonte sempre haveria outro horizonte. Os horizontes não terminam, sempre abrindo a novos cenários, de modo que não teria como eu chegar na beira do abismo que eu supunha para ver o sol ‘sumindo’. A busca pela felicidade pode ser, assim, uma tentativa de alcançar um gozo absoluto, mas essa tentativa inevitavelmente conduz a uma impossibilidade de tal realização.

É nesse contexto que a felicidade pode ser entendida como a ausência da busca por ela. Quando o sujeito abandona a ilusão de um estado de felicidade absoluta e permanente, ele se abre para uma experiência de ser mais autêntica, onde a aceitação das limitações e imperfeições da vida permite um estado de serenidade e bem-estar. A felicidade, portanto, não é um objeto a ser conquistado, mas um estado de ser que emerge quando o sujeito se reconcilia com a incompletude e a transitoriedade da existência. 

Winnicott, psicanalista inglês, oferece uma perspectiva valiosa ao considerar o brincar como uma atividade que permite ao sujeito experimentar a vida de forma criativa e plena. No espaço potencial do brincar, o indivíduo pode vivenciar momentos de felicidade genuína, não porque está em busca dela, mas porque está imerso na experiência do presente, no fluxo espontâneo da vida psíquica.

Em resumo, a felicidade, na visão psicanalítica, pode ser alcançada paradoxalmente pela renúncia à sua busca incessante. É na aceitação da imperfeição, na reconciliação com os próprios desejos e na capacidade de viver o momento presente que o sujeito pode encontrar um estado de bem-estar autêntico. A felicidade, assim, deixa de ser um fim a ser alcançado e se torna uma consequência natural de um modo de ser mais genuíno e integrado.


domingo, 9 de junho de 2024

Um pouco sobre a vida e sobre a psicanálise

 



A vida, em sua essência, é um processo dinâmico, uma dança contínua entre desintegração e reintegração. Este movimento incessante exige de nós uma disposição para a tolerância às frustrações, um desenvolvimento da paciência e uma maturidade emocional que nos permita navegar pelas águas turbulentas da mudança. O crescimento, portanto, não é uma linha reta; ele se manifesta através de oscilações, avanços e recuos que nos convidam a um engajamento constante com o desconhecido.

Dentro do processo psicanalítico, essas dinâmicas de transformação e resistência se fazem particularmente evidentes. O par analítico, constituído pelo analista e pelo paciente, muitas vezes se encontra diante de movimentos que evocam medos profundos de mudança. A mudança, com sua promessa de novidade e perturbação, pode ser experimentada como uma ameaça ao status quo. Ambos, analista e paciente, podem se ver tentados a refugiar-se na rigidez de padrões conhecidos, evitando assim a angústia do novo.

Para o analista, há uma tendência a proteger-se através da teoria, utilizando interpretações que se encaixam confortavelmente em moldes preestabelecidos. Esta abordagem pode fornecer uma sensação ilusória de controle e previsibilidade, ao mesmo tempo que impede a verdadeira transformação que surge do contato genuíno com a experiência do paciente. Ao manter-se rigidamente preso ao conhecido, o analista não só evita suas próprias ansiedades, mas também falha em oferecer ao paciente a oportunidade de explorar novas maneiras de ser e de perceber a si mesmo.

Do lado do paciente, a resistência pode manifestar-se como uma relutância em se envolver plenamente no processo terapêutico. Medo de confrontar aspectos dolorosos de sua mente, de revisitar traumas passados ou de enfrentar a possibilidade de mudança real, pode levar o paciente a uma postura de defesa, escondendo-se atrás de narrativas superficiais ou atitudes conformistas. Esse mecanismo de proteção, embora compreensível, perpetua um estado de paralisia, onde o verdadeiro crescimento é impedido.

Assim, estabelece-se um conluio não verbal entre analista e paciente. Ambos, em sua aversão ao risco e ao desconhecido, mantêm-se numa posição estática, evitando as turbulências que são essenciais para a transformação. Este conluio não promove o crescimento; ao contrário, cristaliza a estagnação. A dinâmica analítica, então, transforma-se num espaço de proteção mútua contra a mudança, onde a potencialidade de vida e movimento é sacrificada em prol de uma estabilidade ilusória.

Reconhecer este conluio é o primeiro passo para romper com este ciclo de paralisia. O analista deve cultivar uma disposição para a própria vulnerabilidade, permitindo-se ser afetado pelas nuances e complexidades da experiência do paciente. Deve estar disposto a abandonar as seguranças teóricas em favor de uma escuta atenta e ativa, que acolhe o novo e o incerto. O paciente, por sua vez, precisa encontrar coragem para se expor verdadeiramente, para entrar em contato com suas partes mais ocultas e dolorosas, permitindo que o processo analítico opere sua magia transformadora.

A vida em sua plenitude se desenrola na aceitação dessas oscilações. O movimento é vida; e é através das turbulências e das mudanças que crescemos e nos tornamos mais inteiros. O processo analítico, quando verdadeiramente vivo e dinâmico, reflete essa realidade, proporcionando um espaço onde o crescimento não só é possível, mas inevitável.



domingo, 12 de maio de 2024

Uma mente que pensa

 


Longe de sugerir uma negação dos afetos dolorosos que existem na vida, a abordagem psicanalítica reconhece a coexistência de emoções diversas e contraditórias no interior de todos nós. Tomemos o exemplo de alguém que busca ajuda psicoterapêutica em meio a um turbilhão emocional desencadeado pelo fim de um relacionamento significativo.


A pessoa chega ao consultório inundada por uma mistura de tristeza, raiva e confusão. Sente-se perdida, incapaz de enxergar além da dor que a consome. No entanto, ao longo do processo psicoterapêutico que pode ser desenvolvido, emerge um insight revelador: a percepção de que, mesmo nos momentos mais sombrios, há espaço para algo bom ser reconhecido ou até visto pela primeira vez. Aprende-se a acolher e valorizar a alegria fugaz que surge nos intervalos da angústia, reconhecendo que a dor e o prazer podem coexistir em sua experiência emocional ao mesmo tempo. O que antes parecia tudo apenas sem luz, cor e sabor abre espaço para alguma coisa valiosa.


Assim como essa pessoa hipotética acima, muitos indivíduos encontram-se imersos em um mar de emoções conflitantes, buscando desesperadamente um porto seguro ou um escape. Entrar num processo psicoterapêutico para essas pessoas não se trata de negar a realidade dolorosa, nem de buscar distrações, mas sim de expandir a percepção para além do sofrimento imediato. É um convite para direcionar o olhar para as pequenas sementes de esperança que brotam mesmo nos terrenos mais áridos da mente.


À medida que o processo psicoterapêutico avança, o paciente é convidado a cultivar uma nova relação consigo mesmo e com o mundo ao seu redor. Assim, um novo estado de espírito ou mente pode ser desenvolvido, sendo não apenas um estado de espírito passageiro, mas sim uma atitude mais firme e perene diante da vida, uma disposição para reconhecer as coisas boas que juntamente com as mais difíceis também existem. 


Desenvolver uma mente não significa descartar a tristeza, a raiva, o medo ou a confusão. Em vez disso, oferece-nos a oportunidade de ver que muitas vezes experimentamos vários sentimentos ao mesmo tempo; acolher a alegria nos mesmos lugares onde guardamos a dor; voltar nossa atenção para o que cresce silenciosamente e respira dia após dia, o que, para nossa possível surpresa, inclui nós mesmos.


Criar uma mente refere-se ao processo pelo qual o indivíduo constrói sua identidade psíquica ao longo da vida, a partir das experiências vivenciadas desde a infância até a idade adulta. Essas experiências moldam a maneira como o sujeito percebe a si mesmo, aos outros e ao mundo ao seu redor. 


Muitos acreditam, erroneamente, que uma mente minimamente desenvolvida se trata de não sentir emoções e sentimentos difíceis ou visto como negativos, supera-los como se eles nada fossem, mas isso não é verdade. Implica em poder pensar sobre as coisas que nos acontecem e decidir como vamos viver daqui para frente. Parece muito simples, e o é, mas as coisas mais simples é que são as mais desafiadoras. 



domingo, 28 de abril de 2024

O que são relações tóxicas?


 

A série "Bebê Rena" (2024), sucesso atual da Netflix, oferece uma janela  para se olhar para a complexidade dos relacionamentos, especialmente aqueles marcados por dinâmicas tóxicas. Da perspectiva da psicanálise, essas relações são frequentemente impulsionadas por conflitos inconscientes e padrões de comportamento repetitivos dos quais as pessoas envolvidas não se dão conta, ou seja, vão agindo de maneira meio que autônoma, sem perceber no que estão realmente se metendo e sem perceber também os desdobramentos que se seguirão em suas vidas e na dos outros.

Os personagens de "Bebê Rena", não só os dois principais, exemplificam diversas manifestações de relações tóxicas e abusivas. Por exemplo, a dependência emocional entre os diversos personagens reflete a busca por preencher lacunas internas através do outro, uma dinâmica comum em relacionamentos onde um parceiro assume um papel de cuidador ou protetor. Essa dinâmica pode ser observada em muitos casais na vida real, onde um indivíduo busca constantemente a validação e segurança do outro para sustentar sua própria autoestima frágil e precária.

Além disso, a manipulação emocional explicitamente vivenciada entre os personagens da série evidencia a presença de padrões de controle e poder na relação. Um exerce domínio sobre o outro, minando sua autoconfiança e reforçando uma dinâmica de submissão. Essa dinâmica pode ser encontrada em diversos contextos, desde relacionamentos amorosos até relações familiares ou profissionais, onde um indivíduo busca controlar o outro para satisfazer suas próprias necessidades emocionais e perversas.

O sadismo e o masoquismo, muito presente na série, são conceitos fundamentais na psicanálise, introduzidos por Freud como formas de descrever certos padrões de funcionamento e dinâmicas de relacionamento. Ambos os termos têm suas raízes na obra do Marquês de Sade, mas foram reinterpretados por Freud em um contexto psíquico.

O sadismo refere-se à obtenção de prazer ou gratificação através da dominação, controle, humilhação ou causando sofrimento físico ou psicológico a outra pessoa. O indivíduo que exibe comportamentos sádicos pode sentir uma sensação de poder ou superioridade ao infligir dor ou submeter outros a sua vontade. Esse impulso pode surgir de uma variedade de fontes, incluindo experiências traumáticas passadas, conflitos internos não resolvidos ou um desejo de compensar sentimentos de inadequação ou impotência.

Por outro lado, o masoquismo envolve a obtenção de prazer ou satisfação através da submissão, da dor física ou emocional, ou da entrega ao controle de outro. Esse comportamento pode ser resultado de uma variedade de fatores, incluindo experiências de abuso, negligência ou trauma, bem como conflitos psicológicos relacionados à autoestima, culpa ou necessidade de punição.

É importante ressaltar que o sadismo e o masoquismo não são necessariamente patológicos em si. No entanto, quando esses impulsos são excessivos, causam sofrimento significativo ou interferem no funcionamento saudável do indivíduo ou de seus relacionamentos, podem ser considerados problemas psicológicos.

A série também aborda questões como o ressentimento acumulado, que são ingredientes comuns em relações tóxicas. A incapacidade dos personagens de expressar suas emoções de forma saudável leva a conflitos latentes e ressentimentos não resolvidos, alimentando um ciclo de sofrimento sem fim.

Na vida cotidiana, muitas pessoas vivenciam dinâmicas semelhantes às apresentadas em "Bebê Rena", mesmo que em diferentes graus. Relacionamentos marcados por dependência emocional, manipulação e ressentimento são comuns e podem ter raízes profundas na história pessoal de cada indivíduo. A psicanálise oferece um olhar atento a esses padrões, buscando compreender suas origens e promover um olhar novo e mais compreensível para o que vivemos no nosso dia a dia e que nos traz tanto dissabor.


quarta-feira, 24 de abril de 2024

Ansiedade sobre o que o futuro nos reserva

 


No mundo há uma verdadeira crise global, incluindo guerras na Europa e no Oriente Médio, mudanças climáticas extremas, desigualdade social crescente e ainda vivemos o impacto da pandemia. Há uma preocupação generalizada com o futuro da vida no planeta, chamada hoje de ecoansiedade, evidenciada por um estudo que revela altos níveis de ansiedade sobretudo entre os mais jovens sobre o futuro que nos aguarda. O termo "antropoceno" é utilizado para descrever o período atual, onde as atividades humanas têm impactos significativos no meio ambiente e no desenvolvimento da civilização. Isso quer dizer que não dá mais para ignorar e fechar os olhos para a nossa responsabilidade sobre o que fazemos em escala mundial.

Apesar do clima sombrio, algumas perspectivas otimistas são apresentadas, proposta pelo neurocientista Sidarta Ribeiro. Ele sugere que a solução para a crise ambiental e social em que vivemos pode estar no retorno aos conhecimentos dos povos originários e na promoção de cuidados mútuos. Isso quer dizer se voltar para o lado humano que todos carregamos em potencial, mas que na maior parte das vezes não colocamos em prática.

Sidarta destaca como os seres humanos têm uma natureza peculiar e contraditória, sendo ao mesmo tempo capazes de violência e de altruismo. Eles tendem a cuidar especialmente daqueles próximos a eles, enquanto competem com os outros sentidos como distantes. Sidarta sugere que a solução está em cultivar nossos melhores instintos e corrigir aspectos problemáticos, como o preconceito, assim cuidamos um dos outros de maneira mais eficiente.

Desde tempos antigos, nossos ancestrais desenvolveram uma ética de cuidado baseada em valores como atenção, responsabilidade, competência e confiança. Sem isso a humanidade não teria sobrevivido para contar história. Essa base biocultural, embora também tenha aspectos violentos e assustadores, é caracterizada pela amorosidade, generosidade e cuidado parental. Isso é que precisa ser cada vez mais nutrido.

Outro tema que precisamos também abordar e que influencia o nosso futuro é o uso cada vez mais intenso e descontrolado da tecnologia digital que, embora tenha inúmeros benefícios e veio para ficar, também pode trazer efeitos perturbadores. A constante inundação de informações e imagens na tela dificultam a reflexão e o desenvolvimento do pensamento crítico que precisamos para viver com qualidade.

Na era digital perdemos muito a capacidade de análise crítica e decisão ponderada. Além disso, a dependência dos algoritmos para tomar decisões e guiar nossas ações podem levar ao emburrecimento e ter consequências negativas no mercado de trabalho.

Se não ficarmos atentos a inteligência artificial, no futuro isso pode afetar nossa capacidade de pensar e decidir por nós mesmos. A tecnologia pode oferecer um alívio temporário da dor, mas também nos priva do prazer e da verdadeira experiência de existir.

A conclusão, se é que há alguma, questiona se a atual realidade caótica poderia ser uma oportunidade para repensar e mudar a forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo e com os outros.


domingo, 6 de agosto de 2023

O vampiro que existe

 

                                           Amor e Dor, de Edvard Munch


Li um relato de uma jovem de Goiás que contou sobre uma experiência desagradável quando começava seu trabalho de fazer bolos para festas. Ela criou páginas nas redes sociais para anunciar os seus serviços e foi procurada por uma mulher que se mostrou interessada em um bolo de 3 quilos para o dia seguinte. Era algo em cima da hora, mas como ela estava iniciando e dispunha de tempo aceitou e perguntou como a cliente queria o bolo, se havia um tema, recheio ou alguma requisição especial. A cliente especificou tudo com detalhes e quando a boleira calculou e disse o valor aí a coisa desandou. 

A cliente começou a expressar que ela, a boleira, ainda estava iniciando seu trabalho, que não tinha muita experiência e que deveria fazer o bolo de graça. Afirmou que assim que tivesse o bolo em mãos tiraria fotos e as colocaria em suas redes sociais que continham muito seguidores e que isso seria o pagamento. Aludiu até que a boleira deveria se sentir grata por ter sido procurada por ela. A boleira se sentiu explorada e segundo o seu relato não aceitou tal condição respondendo que não podia fazer desse jeito e achou que a história acabaria aí, mas ledo engano. A cliente, que não era cliente, mas apenas uma aproveitadora, começou a xingar a boleira com palavras de baixo calão e ameaças de que iria difamá-la. Enfim, uma situação lamentável, ainda assim que ocorre com muitas pessoas e mostra um lado perverso que muita gente pode ter.

Há pessoas que tentam tirar vantagem de tudo e de todos sem ligar para consequência alguma. Para pessoas assim quanto mais elas conseguem obter vantagem, quanto mais elas recebem, sem ter que pagar por isso, melhor. É um cenário que não ocorre apenas nos negócios envolvendo dinheiro, mas nos relacionamentos interpessoais também. 

É que há gente que só funciona se for explorando os demais, que não reconhece quando extrapola, nunca se responsabiliza por nada e ainda fica se sentindo vítima quando alguém não se submete aos seus desejos e comandos. Pessoas assim têm sempre que se sentir por cima de todos os outros, acham que estão sempre certas e acreditam que tudo na vida tenha que lhe ser dado de mão beijada. 

Os antigos mitos de vampiros, aqueles seres que sugam o sangue de suas vítimas até leva-las à morte numa tortura infindável deve ter nascido ao se observar essas pessoas aproveitadoras. As lendas antigas são verdadeiras, carregam algo real de fato, mas não literalmente. Elas são metáforas, simbolizam uma história que vai passando entre as gerações para se falar de algo de nossa experiência humana. Todo vampiro precisa de uma vítima para tirar o sangue que ele mesmo não consegue produzir. O aproveitador, por sua vez, precisa de sua vítima para tirar dela o que ele não consegue criar em sua vida.

Mas tal como na lenda dos vampiros para este entrar na vida de alguém precisa ser convidado. Vampiros não entram sem convites. A boleira percebeu que não era uma cliente, mas uma vampira e tratou de não permitir que ela entrasse em sua vida e negócio. O que precisamos sempre nos perguntar é se não estamos convidando vampiros a entrar em nossas vidas.


terça-feira, 1 de agosto de 2023

Por que a psicanálise é tão odiada?

 




De tempos em tempos sempre aparece na mídia alguém decretando o fim da psicanálise ou afirmando que esta não se trata de uma prática séria. Algumas décadas atrás uma importante revista do país estampou na capa uma fotografia de Freud, criador da psicanálise, meio rasgada com os dizeres de que a psicanálise já era. A verdade é que desde que foi criada a psicanálise sempre esteve sob os mais severos ataques dos mais variados tipos e origens, mas mesmo assim ela sempre encontrou lugar no mundo ajudando muitos a lidarem com seus sofrimentos que muito arrasam a qualidade de vida. No entanto, fica-se a questão do por que tanto ataques à psicanálise.

            Saiu recentemente um livro de uma microbiologista brasileira com presença nos Estados Unidos difamando a psicanálise e técnicas milenares tais como a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que cria base para práticas como a acupuntura, por exemplo. Infelizmente, há muitas pessoas que se dizem psicanalistas e acupunturistas por aí que não tiveram uma formação séria e que por isso mesmo, realmente, causam prejuízos nas vidas de inúmeras pessoas. Contudo, caluniar esses saberes sem discriminação alguma, como se tudo se tratasse de besteira, é algo imprudente e inconsequente.

            A psicanálise foi criada entre o fim do século XIX e início do século XX por Freud para tratar justamente aqueles casos em que a medicina não conseguia nenhum sucesso e nenhuma compreensão. É que eram pessoas que sofriam de algo que não podia ser quantificado e identificado organicamente, mas a fonte de seu sofrimento se encontrava em sua subjetividade, ou seja, na mente. Porém, a mente não está num lugar especifico do corpo, ela não pode ser localizada fisicamente, não podemos tirar uma tomografia dela e apontar onde está o problema. Não há máquina que encontre a mente de uma pessoa, mas para isso necessita-se de outra mente. Só outra mente consegue captar, entender e se solidarizar com outra mente. O fator humano é fundamental.

            Como já escreveu no belíssimo texto “A função da psicanálise; a psicanálise e a ciência – a incontornável presença da subjetividade” o psicanalista Claudio Castelo Filho diz: “É possível cheirar, ver, medir, pesar, ouvir a ansiedade? Dá para fotografar a inveja? Radiografar o amor, o ciúme, a inveja, o ódio, a rivalidade? Na prática o que podemos observar são condutas, atitudes, falas, reações químicas e fisiológicas das quais um bom observador pode inferir esses sentimentos, essas emoções. Eles, propriamente, não estão no campo observável sensorialmente”.


Portanto, apesar de nossas emoções e sentimentos não serem mensurados são elementos que afetam nossas vidas, nossos relacionamentos e podem nos fazer adoecer seriamente a ponto da vida ficar insuportável ou nos permitir viver com alegria e expansão.


            Desde Freud houve e há um grande desenvolvimento dentro da psicanálise com contribuições de excelentes psicanalistas que expandiram esse saber que tanto faz falta hoje em dia. Faz falta porque se não há saúde mental isso vai se refletir em toda a sociedade e acredito que não há ninguém que discorde o quanto nossa sociedade é enferma mentalmente.


            Agora, numa tentativa de responder a razão pela qual a psicanálise é tão atacada é que ela coloca o ser humano como responsável pela própria vida e não como vítima. Convida a pessoa que sofre a (re)pensar como se coloca no mundo e que se ela quiser outro tipo de vida não basta reclamar, mas precisará empreender mudanças. Compreender que muito dos nossos sofrimentos são causados por nós mesmos, mesmo que inconscientemente, dói demais e nos põe a se responsabilizar pela própria vida. Pelo fato da psicanálise nos colocar diante da nossa responsabilidade ou irresponsabilidade sobre o que fazemos conosco e com os outros, muitos a atacam como crianças mimadas e birrentas que não toleram se responsabilizar pelas próprias atitudes e dissabores que encontram e criam pela vida afora.


domingo, 16 de julho de 2023

Esquizofrenia no lar: uma vida digna para todos


                                  Reprodução Instagram @

awkwardapostrophe

Pergunta do leitor: Tenho uma parente esquizofrênica e parece que ela "suga" todos os familiares que moram com ela. Todos estão com a saúde mental abalada como a própria doente. O que fazer nesses casos?

A esquizofrenia é um distúrbio que faz com que pensamentos e comportamentos da pessoa não tenham contato com a realidade. Ela fica desorganizada, limitando muito a sua vida e trazendo imensa dor e confusão tanto para ela quanto para quem está em volta. É como se fosse uma ‘fratura’ mental, ou seja, a pessoa se sente ‘quebrada’ na maneira que sente e percebe o mundo interno e externo. Geralmente, necessita de uma combinação de remédios apropriados, psicoterapia e cuidados especializados para toda a vida.

Tendemos a pensar sempre, e é natural que assim seja, na qualidade de vida do paciente, em como ajudá-lo a ter melhores condições que permitam a viver com dignidade e com o menor sofrimento possível. O paciente acaba sendo sempre o centro da atenção do todos os profissionais quando se veem envolvidos nos cuidados de alguém esquizofrênico. No entanto, os parentes próximos ou as pessoas em torno do paciente muitas vezes são desconsiderados e não recebem a atenção que se faria necessária.

Quando temos em nossa família ou dentro do nosso círculo social alguém padecendo de algo grave e que não tem alívio fácil o sofrimento se expande alcançando muitas pessoas. É porque não é só o doente que sofre, mas todos aqueles inseridos no contexto da doença. Como se diz popularmente o buraco é sempre mais embaixo, às vezes onde nem mesmo conseguimos ver.

O filme “Meu Pai” (2020) com a brilhante atuação de Anthony Hopkins mostra um caso em que o pai já com idade avançada sofre de demência. Não pode ficar mais sozinho e precisa de cuidados especiais. Sua filha cuida dele, mas ela também tem uma vida própria a viver e não pode ficar todo o tempo disponível para o pai. Ela também tem o direito a buscar seus desejos e realizações na vida. É uma daquelas situações em que a filha precisa ver como ajudar o pai, proporcionar a ele uma vida digna sem precisar com isso abdicar da sua.

Não há respostas fáceis e prontas nesses casos. Não sei qual o grau da esquizofrenia da parente em questão nem quantas pessoas estão envolvidas na situação e nem se há recursos materiais o suficiente para lidar com esse evento tais como medicação, terapias, internações e cuidados paliativos. Entretanto, só podemos trabalhar com o que temos e não com a situação que gostaríamos que fosse.

Ao contrário da esquizofrenia que rompe com a realidade é necessário aqui que aqueles que estão envolvidos tenham os pés bem plantados na realidade para se pensar em como conduzir a situação com a parente de forma mais justa para todos e menos custosa possível. Não é mesmo fácil, mas quando podemos pensar realisticamente alguma alternativa poderá surgir no horizonte. Não só a parente precisa de cuidados, mas todos os demais também.

Quer mandar sua pergunta? Ficarei feliz em respondê-la. Envie no blogmundovivo@gmail.com. 


domingo, 4 de junho de 2023

Legião dos esgotados rumo ao caixão

 


Uma das coisas que mais ouço das pessoas e também percebo é o excesso de esgotamento que estamos vivendo. Está todo o mundo cansado, esgotado, exaurido, correndo que nem loucos para dar conta de tantas obrigações e deveres. É isso e aquilo e parece que o tempo voa sem nem nos darmos conta. Queremos tantas coisas, precisamos trabalhar tanto, precisamos bater metas não só no ambiente de trabalho como também as que impomos a nós mesmos que fica a sensação de não sobrar tempo para desfrutarmos verdadeiramente a vida.

Talvez, não seja apenas uma sensação, mas um fato que um imenso número de pessoas não aproveitam a vida. Entram numa corrida louca cujo destino é simplesmente o caixão, a cova. Buscamos muito e degustamos pouco, despendendo tanto tempo em conseguir conquistar a vida que não sobra mais tempo para apreciá-la. O que está acontecendo é que muita gente está numa corrida para chegar ao caixão. Um dia vamos chegar lá de qualquer maneira, porém não precisamos passar pela vida sem aproveitar umas coisas ou outra.

A consequência nefasta dessa corrida toda acaba não sendo o sucesso como muitos imaginam, mas o esgotamento cruel. E acrescento também o embotamento da vida. Ela perde a graça, o sabor e a cor. Ao invés de vida ganhamos uma não-vida. Seres zumbis só são interessantes na TV, já na vida real é triste e preocupante. Alguém constantemente esgotado e embotado entra na cova mais cedo, antes mesmo de morrer. Morre-se ainda vivo.

Obviamente, para conquistarmos nossos desejos e satisfazermos algumas necessidades na vida é necessário empenho e dedicação, nada vem de graça. Nessa vida é necessário trabalharmos muito em todos os sentidos. Sim, precisamos pagar contas, precisamos cumprir com toda uma série de tarefas e muitas delas difíceis e desagradáveis. Não são tudo flores. Há muito esterco, adubo e lama para darmos conta até chegarmos às flores ou aos frutos. Pena que muitos se esquecem de aproveitar quando chega o momento de curtir.

Está na declaração universal dos direitos humanos a necessidade do descanso e do lazer. Sabiam disso? Sustentado na lei, mas não compreendido e respeitado de fato. Apesar de haver todo um sistema financeiro-político que impõe regras desumanas, ocorre que as próprias pessoas não percebem e não sabem como tirar o melhor da vida.

Quem não consegue alcançar como desfrutar a vida com dignidade adoece mais e vive uma vida mais pesada do que é necessário. Não é à toa que hoje em dia há uma enxurrada de medicação psiquiátrica. Não que elas não sejam necessárias, elas são sim, e como!, mas vem mostrando também que não estamos sabendo como viver com qualidade. Escancara o quanto estamos esgotados até mesmo da própria vida! Quando exaustos procuramos prazeres muito passageiros e enganadores: excesso de bebidas, drogas, sexo desenfrado, consumismo, etc. o que termina por levar a um esvaziamento da alma e a muitos outros problemas. Gente esgotada não tem como cuidar da alma. Precisamos urgentemente prestar atenção nisso e isso começa conosco mesmo, cada um olhando para dentro de si mesmo. Concordam?




domingo, 14 de maio de 2023

Quem decide como você vai se sentir?

          O escritor, filósofo e cientista Johann Wolfgang von Goethe 

 Há uma frase muito interessante do escritor alemão Goethe que diz “A alegria não está nas coisas, está em nós”. Erroneamente acreditamos que precisamos disso e daquilo para sermos felizes. Nem precisa, necessariamente, ser coisas materiais, mas colocamos nossa felicidade nas coisas externas: casamento, filhos, ter esse ou aquele corpo, etc. Há também, claro, a promessa de felicidade que vem das coisas materiais que preconiza que será feliz quando você tiver aquela casa ou aquele carro, quando conseguir aquela roupa ou joia. Enfim, todas essas “coisas” estão pautadas em algo fora de quem sente e não dentro. No entanto, a alegria só pode existir realmente se estiver dentro.

É bom ter em mente que determinada condições de miséria ou falta de algo podem, sim, nos deixar infelizes e quando determinadas coisas são alcançadas contribuem para o nosso bem estar. Por exemplo, falta de comida ou de condições minimamente dignas para vivermos geram infelicidade. Obviamente, ninguém em sã consciência, diria que para essas pessoas determinadas coisas que estão em falta não vão trazer felicidade.

Me refiro, entretanto, às pessoas que têm sua sobrevivência mais ou menos já garantidas e estáveis. Se elas colocarem seu bem estar em tudo aquilo que for um ‘coisa’ externa estão fadadas à infelicidade. Quem é sábio não coloca fora de si o que necessita para estar bem, porém mantem consigo mesmo todos os instrumentos para estar de bem com a vida.

É que quando alguém tem um instrumento valioso carrega este sempre consigo e não o deixa por aí inadvertidamente nem espera que outras pessoas forneçam o que lhe falta. É muito aconselhável manter justamente tudo aquilo que for inestimável bem próximo e protegido e assim, quando se precisar eles estarão à mão. 

Pensando nisso, por que deixaríamos que coisas externas, as quais vem e vão ao sabor do vento, é que decidam nosso estado de espírito? Não seria nada prudente. Me lembro que agora pouco, antes de me sentar para escrever esse texto, aconteceu de eu estar na rua e ver um motorista buzinando loucamente para o automóvel da frente que demorou uns 3 segundos para sair quando o semáforo ficou verde. Assim que o carro saiu o motorista que buzinava e fazia gestos obscenos e dava para ver que até falava alguns xingamentos saiu a toda quase atropelando uma pessoa de idade que estava na calçada perto da rua. O motorista saiu xingando o idoso também e acelerou com tudo. Não sei, é claro, o motivo de sua imensa pressa, mas me parece que na verdade ela estava de tão mal com a vida que qualquer coisa iria lhe irritar e o tirar do sério. Se o trânsito estivesse favorável alguma outra coisa certamente iria surgir e ser fonte de aborrecimento. A alegria não estava dentro do sujeito em questão, então nada de bom que lhe ocorresse iria servir de fato. Ele estava ruim por dentro, podemos até ousar dizer que naquele momento ele estava tão estragado internamente que não haveria possibilidade alguma de alegria.

Uma pessoa que está bem consigo mesma, por sua vez, consegue ‘tolerar’ quaisquer contratempos da vida com mais leveza e não se tira do sério tão facilmente assim. Ela não dará ao outro ou a alguma coisa externa o poder de decisão de como vai se sentir. Vale a pena prestarmos atenção nisso. 






domingo, 7 de maio de 2023

Me engana que eu gosto

 

                        A morte de Marat (Jacques-Louis David)

Já ouvi relatos sobre a existência de cursos preparatórios para a morte. Nesses cursos ou ‘terapias’ se aprende a morrer em paz ou a não temer a morte como muita gente por aí teme. Não há mesmo limite para a imaginação humana quando se trata de explorar e tirar dinheiro dos outros. E também não há limites quando se trata do ser humano criar as mais mirabolantes ilusões para achar que consegue driblar a natureza da vida.

Lembro-me de uma frase espirituosa do físico Albert Einstein; “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta”. Porém, não sejamos tão duros com o bicho homem que cai na estupidez porque nunca aprendeu a lidar com a própria natureza, a natureza humana, de maneira mais inteligente. Entendo mesmo que não é fácil.

Somos seres dotados de alguma razão e criamos, através da ciência e do pensamento, muitas tecnologias que são eficientes e pródigas em lidar com muitos desafios que o mundo e a realidade nos oferecem. Em alguns momentos nos sentimos muito poderosos, arrogantes até, todavia quando olhamos mais atentamente nossa condição vemos o quão impotente somos de fato. Toda nossa tecnologia que nos auxilia e facilita a vida não nos isenta de ter que lidar com nossa condição humana, com nossas angústias, sentimentos e emoções. Sofremos e temos que tolerar o quanto somos criação e não criadores do mundo.

Para muitas situações ao longo da vida não temos respostas e tudo aquilo que está na dimensão mental sempre apresenta paradoxos dolorosos que é difícil de aceitar. Uma delas é a nossa finitude. Sabemos que vamos todos, um dia, morrer e isso nos assusta imensamente. Nos sentimos vulneráveis e desamparados frente à muitos eventos da vida e procuramos meios desesperados de tentar escaparmos, mesmo que sejam ilusórios. O famoso “me engana que eu gosto” é algo bem comum aos humanos. Daí existir esses tais cursos que prometem aplacar nossas ansiedades.

Não há como morrer bem, isso aliás nem deveria ser pensado ou almejado. Por que raios alguém iria querer morrer bem ou em paz? Todo um trabalho e esforços apenas para morrer bem? Que desperdício! Deveríamos gastar nossas energias em viver bem, pois na verdade morre-se como se vive. Não dá para aprendermos a morrer, coisa que nem entendemos direito, mas podemos aprender a viver melhor, com mais alegria e prazer. Nem aprendemos a viver e queremos aprender a morrer. Não faz sentido.

Viver bem, viver o melhor possível com nossos familiares, amigos, colegas, com nossas comunidades e atividades é o que realmente importa. Só mesmo uma pessoa que vive tem condições de morrer em paz. Viver bem, entretanto, não é apenas uma questão de lidar com os aspectos concretos da vida, mas de se relacionar bem com ela. É necessária uma boa educação sentimental, coisa que falta muito, para podermos viver bem. Quem cuida de seu mundo mental com zelo tem muito mais chances de viver com qualidade e, portanto, até de morrer bem. Antes de pensarmos na morte temos que dar conta da vida. Infelizmente, deixamos isso de lado e nos enganamos.


domingo, 23 de abril de 2023

Como começam muitos vícios

 


Uma matéria do site UOL mostra os perigos das apostas esportivas virtuais que se alastram cada vez mais pelo país. Através de sites e aplicativos as pessoas apostam dinheiro para tentar ‘prever’ os resultados de determinados jogos ou embates das mais variadas modalidades esportivas. Se acertam ganham dinheiro, caso contrário perdem. É muito tentador para muitas pessoas acreditarem que poderão ganhar dinheiro fácil, porém as consequências dessas apostas são bem desalentadoras. No fim das contas quem ganha dinheiro mesmo com essas apostas são esses sites e aplicativos enquanto exploram a compulsão das pessoas viciadas em jogos.

No artigo mencionado acima há relatos de pessoas que sofreram as mais diversas complicações por entrarem nesse mundo de apostas. Dívidas com bancos, com agiotas e até mesmo roubo de dinheiro de familiares e de objetos dentro de casa acabaram destruindo muitas famílias. O esporte, que poderia ser algo a ser vivido com alegria e prazer, passou a ser ameaçador e fonte de grandes sofrimentos. E para piorar muitos desses sites de apostas usam como garotos propaganda atletas esportivos que sempre foram ídolos de muitas pessoas. É realmente um sistema perverso e uma pessoa compulsiva ou que pode entrar numa compulsão fica mesmo aprisionada podendo colocar muitas coisas de sua vida em risco. 

A compulsão pode ter múltiplas formas. Pode ser por álcool, por drogas, por comida, por compras, por sexo e por jogos. Há muitas maneiras, mas todas são, inicialmente, algo que parece começar com buscar o prazer e acaba virando um pesadelo porque aprisiona e vira angústia. Em algum momento da vida a pessoa sente emoções e sentimentos muito difíceis de tolerar e realizam determinadas ações como forma de evitar sentir a ansiedade: bebem, se drogam, comem, compram, transam ou apostam e se sentem bem como se houvessem vencido a ansiedade. O problema é que precisam cada vez mais de quantidade de estímulos maiores para se sentir aliviados e não se dão contam de que estão presas num ciclo repetitivo do qual não conseguem mais sair. Afundam-se cada vez mais e alimentam a ilusão de que na próxima vez que buscarem se aliviar vai ser definitivo. Se enganam com ilusões que jamais acontecerão e vão naufragando numa situação de extremo sofrimento.

Apesar de buscar o prazer e tentar se evadir de suas emoções aflitivas o mais rápido possível, bem como fugir da realidade, a pessoa compulsiva nunca consegue de fato uma satisfação verdadeira. Estará sempre acorrentada em seus vícios e não consegue vislumbrar dentro de si mesma outras formas de viver. Há prazeres e prazeres nessa vida, todavia como vivemos e nos relacionamos com o prazer pode ser algo que nos deixe adoecidos e sem perspectivas. Há inúmeros sites, empresas e gente sem escrúpulos que buscam lucrar com o adoecimento alheio. Ninguém é obrigado de fato a se viciar, é uma responsabilidade de cada um poder se cuidar de forma apropriada, mas é importante perceber também que há muitos anzóis por aí procurando ‘prender’ clientes. Para não ser fisgado só mesmo desenvolvendo uma mente que seja capaz de pensar e escolher com sabedoria onde vai se meter. Realmente, é muito perigoso viver a vida sem desenvolver uma mente.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Somos todos (ir)responsáveis


Não há jeito de não olhar tristemente para os acontecimentos recentes de ataques nas escolas aqui no Brasil. Aquilo que achávamos que acontecia apenas lá fora, num lugar distante, está presente em nosso país, estados e cidades. Compromete a vida de todos, tanto das crianças que sofreram o ataque, de suas famílias, funcionários e educadores como também afeta gerando medo e insegurança nas crianças, jovens, familiares, funcionários e educadores de todas as escolas por aí. Ninguém sabe se e onde ocorrerá o próximo massacre. É mesmo algo de tirar o sono.

Diante de tais atos de violência ficamos perplexos e impotentes. Já há violência demais com roubos, furtos, agressões, etc, mas agora adiciona-se mais esse que são os ataques nas escolas. Há várias explicações e razões, mas nenhuma é definitiva, ou seja, não sabemos por onde começar a evitar todo esse problema de maneira eficaz. Quando sabemos que algo ocorre por causa disso ou daquilo podemos tentar tomar algumas providencias que sejam certeiras, mas quando é tudo muito vago, sem nitidez do que está realmente ocorrendo fica-se muito mais difícil e nos sentimos vulneráveis e atordoados.

Há desde explicações sociais, econômicas e culturais que são, certamente, fatos reais e que devem ser levados em consideração, mas também há algo muito mais sutil que muitas vezes relutamos em ver que é a própria condição humana. Freud, criador da psicanálise, em 1930 escreveu o brilhante texto “O mal estar na civilização’ onde discorreu sobre a agressividade que existe dentro de cada um de nós. Ninguém de nós está isento dessa agressividade que pode irromper a qualquer momento nos transformando em verdadeiras bestas. Não somos seres angelicais, mas também não somos seres demoníacos. Somos humanos e precisamos aprender a lidar com a humanidade em nós.

Freud afirma nesse texto que só é possível haver uma civilização se houver uma contenção dos impulsos agressivos que existem dentro de nós. Dentro de cada pessoa, falando a grosso modo, há um conflito se expressando entre a pulsão de vida e a pulsão de morte e esse mesmo conflito se expressa na sociedade. A pulsão de vida se manifesta por tudo aquilo que pode ser construído, reunido e integrado enquanto a pulsão de morte é tudo aquilo que desintegra, aniquila e busca um estado de não-estímulo, de não vida. A violência é resíduo da pulsão de morte.

Quando ataques como ocorreram nas escolas são cometidos e muitas outras situações aterrorizantes que presenciamos no dia a dia são corriqueiras fica-se a impressão que estamos todos falhando na organização das sociedades como também na organização da nossa própria vida mental. Não sei se para esses ataques há uma explicação apontando para isso ou aquilo que precisaria ser melhorado ou se podemos ver isso como algo que precisamos (re)pensar como vivemos dentro de nossas famílias, nas escolas e nos lugares que frequentamos. Como estamos desenvolvendo nossos laços afetivos, como tratamos os outros e a nós mesmos? Como lidamos com nossa vida mental que embasa todos os nossos relacionamentos? Há muitas coisas a serem analisadas e avaliadas. Estamos falhando nitidamente em lidarmos de maneira eficiente com nossa humanidade. Somos todos responsáveis.