sexta-feira, 20 de abril de 2018

Pergunta de Leitora - Peso na Vida




Tenho muito medo de mudar. Já tive muitas experiências nada boas em minha vida e hoje eu prefiro sempre me apegar ao que já sei e conheço, para não correr riscos. Já tive um relacionamento que a pessoa por quem estava apaixonada me enganou de maneira torpe e agora não consigo me relacionar com ninguém mais de maneira aberta. Até tenho um caso aqui e outro lá, mas nunca mais me entreguei como antes. Não sei quando vai vir o golpe. Alguns amigos me dizem que isso é besteira e que eu posso confiar mais. Mas como confiar se as pessoas são tão perigosas e o que você pensa que é seguro na verdade não é?

            Buda costumava contar uma história: uma pessoa precisava atravessar um rio com forte correnteza para chegar à outra margem. Como não sabia nadar pensou então em construir uma jangada que lhe auxiliasse na travessia. Juntou madeira, cordas e se dedicou a fabricar a jangada e com isso teve sucesso em chegar ao outro lado. Ao descer da jangada pensou consigo “Que bom instrumento essa jangada, que me serviu muito bem para atravessar o rio. Devo levá-la comigo para quando eu precisar de algo que me ajude nos momentos difíceis.” E assim seguiu caminho por uma pradaria carregando nos ombros uma jangada.
            A jangada foi boa para aquele momento, mas para outros certamente não servia. Mas como se desapegar daquilo que acreditamos que seja a resposta para tudo? Parece-me que você vive justamente essa questão. Você vive hoje, outro momento em sua vida, outro relacionamento, mas como se tratasse ainda daquele primeiro. Assim fica muito pesado.
            Ao vivermos passaremos, com toda a certeza, por experiências desagradáveis e dolorosas. Mesmo assim essas experiências podem ser usadas para aprendermos, para ficarmos mais calejados e sábios. Se as experiências de vida são usadas desta forma elas se tornam matéria prima para o nosso crescimento e faremos um bom uso do que nos aconteceu.
            Entretanto, se o que passamos é usado para nos fecharmos, deixamos de crescer. A dor que você teme já aconteceu, está situada no passado e não quer dizer com isso que precisa se repetir, ou pelo menos não precisa se repetir da mesma maneira. Para cada situação precisará aprender a desenvolver novos recursos para lidar com o que sente. Infrutífero é usar sempre o mesmo recurso para todos os momentos. Viver assim é ineficiente.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Máscaras




            Usamos tantas máscaras ao longo da vida que esquecemos como é nossa verdadeira face. Ás vezes nem mesmo conhecemos nossa face porque só usamos máscaras, uma atrás da outra, e cada uma maior e mais pesada que a primeira. O que são essas máscaras? São nossas “certezas”, nossas definições e nossas imposições. O resultado é que terminamos conhecendo mais a pessoa que achamos que devemos ser e não conhecemos nada a pessoas que de fato somos.
            Quantas pessoas não falam grosso por aí, cheias de pose, esbanjando arrogância, quando no fundo estão inseguras e cheias de medo? No entanto, vestem a máscara da confiança mesmo que esta máscara seja uma bela mentira. O problema disso é que não conhecer os próprios temores impede que eles sejam devidamente elaborados e superados. Ficamos frágeis e vulneráveis e vamos gastar nossas energias em constantes trocas de máscaras para mantermos nossa ilusão de segurança. Conhecemos nossas máscaras e não nossa pessoa.
            Quem nunca se deparou com aqueles que estão sempre contando vantagens e diminuindo os outros? Vestem essa máscara porque temem o vazio interno que sentem e que não sabem lidar. Fingir, acreditar no fingimento e fazerem os outros acreditarem tornou-se, infelizmente, uma arte que inúmeras pessoas praticam com cada vez mais maestria. A arte do fingimento é a arte do engano para não se deparar com a verdade. Tememos quem somos e nos cobrimos com máscaras muito rebuscadas. Viver assim é viver num baile de máscaras onde ninguém se relaciona com ninguém, mas se relaciona com as fantasias que cada máscara carrega. Entretanto, embaixo da máscara há sempre um rosto a ser descoberto.
            Quando tiramos a máscara podemos delinear o contorno de nossa verdadeira face. Esses contornos são feitos com nossos sonhos, nossas possibilidades, nossas forças, bem como também com nossas fraquezas que quando acolhidas nos tornam humanos. Achamos que aquilo que chamamos de fraqueza nos torna feios, porém é justamente o oposto, nossas fraquezas são humanas e por isso mesmo carregam uma beleza muito mais pura e verdadeira do que as máscaras nos dão. Quando nos relacionamos com os outros e conosco mesmo temos que olhar embaixo das máscaras e não ficar imobilizados pela superfície que está sempre tentando nos enganar.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Pergunta de Leitora - Medo de Amar




Sou uma mulher independente que sempre ganhou o próprio sustento. Já trabalho desde muito cedo e hoje tenho 45 anos. Nesse tempo todo ganhando a vida esqueci do amor, só tive casos isolados e sem nenhum significado, mas nada que fosse um relacionamento. Hoje conheci já faz uns seis meses um rapaz pela internet e estou apaixonada. O problema é que ele tem 24 anos e acabou a faculdade recentemente. Ele é muito menino, mas me inspira.  Nós nunca nos encontramos pessoalmente e ele não sabe minha idade real. Ele pensa que eu tenho 32 anos, pois pareço mesmo mais nova. Só vivemos esse amor de forma virtual, mas ele e eu também queremos nos encontrar enfim. Mas tenho medo de que ele não se anime quando me conhecer, de sofrer, de ser largada. Sou muito mais velha. Ele nunca vai querer se casar comigo. O que faço? Será que é melhor manter esse amor apenas pelo computador?

            Você tem medo de sofrer, porém você já sofre quando não dá uma chance de viver esse amor. Se já sofre talvez possa pensar que fosse melhor sofrer por algo real e não por um medo que, no momento, é pura fantasia. O que é difícil para você é encarar a realidade e pagar para ver o que de fato é esse amor que você sente. No entanto, muitas vezes, a fantasia não tem como substituir a realidade.
            Ora, essa história de diferença de idade talvez não seja tão impeditiva quanto você imagina. Só vai saber se ousar viver. E quem falou em casar? Provavelmente é coisa da sua cabeça que acha que precisa trocar alianças, já ir por esse caminho, como se fosse tão simples assim. Antes de um casamento é preciso haver um namoro e namorar requer tempo.
            Outra coisa a ter em mente é que nem todo namoro precisa acabar em casamento. Namorar é uma oportunidade para conhecer o outro e a si mesmo com o outro, perceber se essa parceria é boa e ir deixando ver onde as coisas podem ir. Será que você não está querendo viver tudo rápido demais? Como se estivesse compensando pelo tempo que se dedicou à sua vida profissional? O amor não impõe pressa e tem seu tempo próprio. Que tal se abrir ao amor e não às convenções?
            Entretanto, para viver o amor é preciso pisar na realidade. A amor virtual é seguro, mas é limitado e limitante. Como vai ser a realidade desse encontro, caso você se decida por ele, não temos como saber. Assim é a vida. Ela nunca nos dá garantia de nada e não temos como fazer seguro para nos precaver de suas frustrações e dores. Porém, ao mesmo tempo que a vida pode nos dar sofrimentos ela também pode oferecer uma satisfação que mundo virtual nenhum tem como chegar perto. Mas para isso é preciso coragem e pagar o preço que for. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Pergunta de Leitora - Não é Natural




Nasci em uma família tranquila. Claro que houve brigas e desentendimento e até mágoas, mas de forma geral éramos bem estruturados. Quando entrei na faculdade, cheguei virgem e sem experiência nenhuma com relacionamentos amorosos. Mas desde que comecei minha vida amorosa ficou tudo um inferno. Meu primeiro namorado, que durou três anos era alcoólatra e chegou a ameaçar me bater. Mesmo assim esse relacionamento durou três anos. Despois que nos separamos me encantei por um homem com quem acabei me casando. Nosso relacionamento durou dois anos e ele também era alcoólatra e chegou a me bater e humilhar. Depois de separada casei com outro homem que não bebia, mas que me humilhava diariamente e até publicamente. Toda a sua agressividade era despejada em cima de mim. Qual é afinal o meu problema? Por que só homens que não prestam se aproximam de mim?

            Pela forma que você conta sua vida amorosa fica-se a ideia de que você é uma verdadeira vítima do destino, cheia de fatalidades e azarada com os parceiros que lhe aparecem. Entretanto, quando a gente passa a conhecer mais intimamente o ser humano aprendemos que não somos tão vítimas assim e que no que concerne à vida amorosa, principalmente, somos responsáveis pelos seus desdobramentos e não é tudo fruto de um destino cruel.
            É claro que existe azar, mas o que não dá é para creditar todas as suas desventuras na sua má sorte. A verdade é que estamos constantemente escrevendo nossas histórias e por isso mesmo somos responsáveis por nossas escolhas. O grande problema é quando não temos consciência do que estamos escrevendo, quando deixamos tudo nas mãos do inconsciente. Por exemplo, no seu caso, você não se apegou a esses homens à toa, mas por alguma razão que só pode ser encontrada no seu mundo inconsciente.
            Parece-me, e isso é só uma hipótese, que você precisa ser um para-raio, ou seja, só receber choque e agressividade. Em níveis mais profundos em sua mente sua carência deve ser tão grande que aceita qualquer um, mesmo que a um custo alto. Para-raios chama raios. Você chama (inconscientemente) homens de quem nada de bom pode advir, mas apenas a humilhação, que por alguma razão que não sabemos você fica submetida. Talvez você nunca acreditou que pudesse ter coisas melhores na vida e tem medo de arriscar. Resultado: envolve-se sempre com os mesmo tipos de homem.
            Para transformar isso é necessário que se analise, que compreenda o que se passa nos recônditos escuros de sua mente. Com um analista que saiba te escutar poderá aprender a se ouvir e terá meios de criar recursos que te façam você mesma se valorizar mais. Esses homens não te respeitam porque você também não aprendeu a se respeitar. Assim você fica exposta a todo tipo de abusos e de homens. E o triste é que tanto o abusador quanto o abusado vão achando isso natural. Tenha sempre em mente que se não houver respeito não há como existir amor.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Pais & Filhos




            Uma vez ouvi uma mulher afirmar que aqueles que não tinham filhos deviam ser muito tristes porque não haveria ninguém para cuidar deles quando estivessem velhos. Ora, desde quando a função dos filhos é cuidar dos pais quando estes envelhecem? Se alguém tem filhos pensando nisso com certeza vê os filhos como uma apólice de seguro e nada mais.
            Filhos não são investimentos que fazemos para usufruir num momento futuro os rendimentos. Não são garantia de nada. Pensar o contrário é tratar os filhos como posses e não como pessoas. Ninguém possui um filho e quem tenta possuir cria uma relação doentia. Infelizmente é grande o número de pais que veem seus filhos como objetos que podem ser possuídos e deixam de viver assim uma relação humana construtiva.
            Há pais que querem decidir sobre a carreira dos filhos, com quem eles vão se casar, sobre onde devem morar e por aí vai. Se os filhos pensam diferente ou agem de forma independente cria-se uma tensão e um clima de desavença como se os filhos estivessem fazendo algo odioso aos pais. A culpa rola solta criando muitos dissabores e sofrimentos. Muitos pais quando se dão conta de que não são donos dos filhos até recorrem à chantagens emocionais para tentar fazer com que os filhos estejam sempre dentro do que eles (os pais) desejam. Como podem ver não é mesmo saudável esse tipo de relação.
            Antes de nascer os pais sonham sobre os filhos. Sobre que escola vão frequentar, para que time vão torcer, mas chega uma momento que os pais precisam abrir mão desses sonhos e permitir que os filhos sonhem os próprios sonhos. Por serem outras pessoas os filhos certamente terão outros sonhos que não irão coincidir com os dos pais, porém isso faz parte da vida. Ninguém pode tirar o sonho do outro sob o risco de criar uma vida infeliz.
            Existem filhos que queriam seguir uma determinada carreira ou casar com tal e qual pessoa, mas se sentem culpados por isso ser contra o desejo dos pais e vivem uma vida terrível de conflitos. No fim esses pais e filhos até podem ficar juntos até o fim da vida, contudo não será o amor que os une, mas sim o conflito e o sentimento de culpa. A vida assim se torna um mar de mágoas. Compreender que os filhos são outras pessoas é fundamental para uma relação sadia e baseada no amor.

segunda-feira, 26 de março de 2018

O Corpo




            A relação que muitas pessoas desenvolvem com seu próprio corpo é bastante cruel. O corpo virou um espetáculo, um objeto para exposição. Isso é tão intenso que as vezes parece como se os corpos fossem desabitados e se tornassem peças de exibição. Não é à toa que a cirurgia plástica encontrou uma vasta oportunidade hoje em dia. Não há problema nenhum em intervenções cirúrgicas e a ciência deve mesmo estar a nosso serviço, mas quando o corpo se desumaniza isso passa a ser um problema.
            Dietas malucas, exercícios exagerados, exposições de corpos na mídia trazem a idéia de que quem não tem um corpo espetaculoso é uma pessoa descuidada e relaxada, alguém que é um fracassado. Como se sucesso fosse ter um corpo esculpido. Pouca atenção se dá aos atributos da pessoa que vive dentro do corpo. Aquilo que é interno está oculto e portanto não pode ser visto e nem exibido. Mas não custa lembrar de que somos mais do que apenas corpos.
            Claro que devemos cuidar do corpo e aliás devemos cuidar muito bem, afinal o nosso corpo é também uma realidade de nossa identidade. A questão preocupa quando o corpo passa a ser a única marca. Nesses casos o corpo deixa de ser um corpo e passa a ser uma vitrine. Tratar o corpo dessa maneira acarreta em vários problemas. Um deles muito grave é o esvaziamento da sexualidade. Com “corpos objetos” o ato sexual não é mais um encontro, uma descoberta e uma união, mas passa a ser algo vazio onde o que importa apenas é a procura por outros corpos perfeitos. A sexualidade deixa de ser algo emocional para se tornar apenas mecânico. Esse tipo de relação sexual até oferece um certo prazer momentâneo, porém percebe-se vazio e sem significado. O corpo se torna fonte de excitação, mas não de encantamento.
            O ideal de um corpo perfeito é um grande malefício, pois coloca as pessoas numa posição de insatisfação consigo próprias. Anorexia, bulimia, compulsões e uso de substâncias prejudiciais à saúde são coisas cada vez mais encontradas nos consultórios psicanalíticos e médicos. Reverter essa situação significa humanizar o corpo em vez de esvaziá-lo, ter para com o corpo uma relação saudável onde o que deve ser valorizado é a saúde e o bem estar e não uma imagem idealizada. O nosso bem estar deve ser sempre nossa prioridade.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Pergunta de Leitora - Aprovação e Rótulo




Sou mulher e sou homossexual, mas não sou tão feminina, não uso roupas femininas e sim dadas como 'masculinas'' pela sociedade. Eu gosto do meu estilo, mas parece incomodar muitas pessoas, e não sei explicar, só digo que me visto como gosto e para mim a roupa não tem gênero. Queria saber se é obrigatório eu tentar me adequar ao padrão heteronormativo? Ser mais feminina, sendo que não me sinto bem usando certas roupas ou o corte de cabelo da moda. Isso seria androginia? Tem nome para minha forma de me vestir? Conheço apenas como uma expressão de gênero, um estilo. As vezes eu não sei o que vestir numa entrevista de emprego, mesmo sendo para uma loja descolada. E a dúvida de tantas e tantas vezes explicar para as pessoas que são apenas roupas. Até mesmo no meio LGBT ouvem-se ofensas tipo 'se veste assim porque quer ser homem' fora outras coisas piores. Algumas de nós são confundidas com homens. Já aconteceu comigo, mas quando eu soltei a voz e perceberam que eu era mulher a pessoa ficou sem ação, sem graça.


            Você é mulher e é também homossexual. Fala que a sociedade não te aceita e nem aceita a sua forma de se vestir e pergunta se deveria mudar seu estilo mesmo que não se sentisse bem de outra forma. A verdade é que não existe a mulher padrão, não há um jeito único de ser mulher, o que existe são as mulheres e cada uma com seu jeito e suas peculiaridades. Mesmo assim você insiste no rótulo porque pergunta que nome dou ao seu estilo. Sem perceber você procura se enquadrar em algo.
            Não tenho nome para a forma como você se veste. O estilo é seu e você faz aquilo que você quer e pode. A procura por um nome tem a ver com o fato de que nos sentimos inseguros quando não pertencemos a um grupo. Dentro de um grupo nos sentimos protegidos pelo “rebanho”. Até mesmo dentro do LGBT pode haver pressão para se ser de um jeito ou outro, também lá pode haver preconceito. Quem disse que homossexuais também não podem ser preconceituosos até mesmo uns com os outros?
            Por ter estilo próprio diferente da maioria, com certeza, chama atenção. Haverá olhares, viradas de cara e condenações. Se for realmente seu estilo, se for algo que te expressa de fato você poderá aprender a abrir mão da aprovação. Ninguém pode ser o que não é. Terá problemas ao longo do caminho da vida, é claro, assim como todos, cada um com sua natureza, mas os suportará e lidará com eles porque entenderá que é como você tem que ser. Se obtém aprovação ou não será de pouca importância.
            No entanto, se não for o seu estilo de fato precisa buscar se conhecer para não se forçar a ser o que não é. Só procura rótulos e aprovação quem não se permite ser quem é livremente ou não sabe de si. Vale a pena refletir sobre o que se passa consigo para saber lidar com suas angústias. A aprovação que você necessita não é encontrada fora, mas dentro de você mesma. A sociedade não pode dar aquilo que cabe a cada um construir internamente. Olhe para dentro e veja quem você quer e pode ser. A verdade é que você é livre.