segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Miopia da Mente




            Uma história conta sobre um discípulo que vivia aprendendo importantes fatos na companhia de um grande mestre. Um dia estavam os dois descansando perto de uma cidade; o mestre em meditação e o discípulo procurando pedras que achava pelo caminho e que gostava de colecionar quando foi tomado por uma questão que levou ao mestre.
            - Mestre, por que as pessoas desperdiçam tanto as suas vidas em coisas tão insignificantes. Como vícios, relacionamentos doentios, valores errados?
            - Simples. Elas são incapazes de ver o quanto as suas vidas são valiosas.
            - Mas mestre – surpreendeu-se o discípulo – é claro que as pessoas sabem que suas vidas são valiosas.
            - Sabem, é? – depois de pensar um pouco o mestre disse – Pegue essa pedra que você acabou de achar perto do rio e leve ao mercado e veja o que consegue em troca dela.
            Intrigado o discípulo foi à cidade e lá, na primeira barraca do mercado, tentou trocar a pedra. O vendedor, tomado de fúria, mandou-o embora dizendo-lhe para não fazê-lo perder tempo. O segundo vendedor daria uma cebola e justificou seu ato afirmando que assim fazia porque queria se livrar do jovem impertinente. Já numa terceira barraca o vendedor arregalou os olhos quando viu a pedra e disse: - Não tenho dinheiro suficiente para lhe pagar por essa gema preciosa que ainda não foi trabalhada para se transformar numa joia rara.
            O discípulo voltou correndo até o mestre e lhe contou o ocorrido. O mestre disse: Vê? Nem todos sabem reconhecer aquilo que é realmente valioso.

            A gente troca, com frequência, nossas vidas por coisas sem o menor valor. Isso ocorre porque não sabemos valorizar nossas vidas como elas devem ser valorizadas. Fazemos maus negócios e desperdiçamos nosso bem mais precioso.
            A nossa miopia não permite enxergar o valor da vida. Para podermos ver de fato esse valor é necessário desenvolver uma mente. Só com ela podemos pensar sobre o que vamos fazer conosco, que arranjos vamos construir no decorrer do tempo. Desenvolver uma mente não se trata de intelectualidade ou se encher de conhecimentos, mas de um aparelho psíquico que permite considerar com mais propriedade como vivemos e que escolhas fazemos. A mente é como uma lente que permite ver com maior clareza e nitidez que nem tudo que fazemos e valorizamos é realmente importante. Quem não desenvolve a própria mente fica cego e faz trocas, consigo mesmo e com o mundo, muito ineficientes.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - Liberdade Sempre




Tenho 35 anos e sou casada há dois. Não posso ter filho, tive menopausa precoce. Eu já desconfiava, mas só confirmamos depois do casamento. A única opção seria inseminação artificial, mas não temos dinheiro pra isso, ou adoção. Na verdade eu não sinto muita vontade de ser mãe. Acho que não tenho o tal instinto materno. Mas meu marido sempre quis ter filho, ele falava desde solteiro e parou de falar para não me chatear, tenho certeza. Não sei como lidar com essa situação porque tenho medo de falar pra ele que não quero mesmo e acabar com o casamento. Ao mesmo tempo sinto que sou egoísta por não falar e dar a oportunidade dele procurar alguém que queira e possa. O que eu faço??


            A verdade é que você já sabe o que acredita que deve fazer, mas tem medo. Você gostaria que houvesse uma saída fácil e que lhe isentasse de ter que lidar com emoções dolorosas e que podem abrir portas para o desconhecido. Em muitos momentos em nossas vidas não há mesmo saídas alternativas e o único caminho possível é encarar a realidade e os fatos.
            Você não sente o desejo por ser mãe e ao que parece não tem problemas com isso. Até porque nenhuma mulher é obrigada ao exercício da maternidade. Ser mãe jamais pode ser uma imposição. Seu não desejo pela maternidade só lhe representa um problema quando você entende que isso contraria o desejo do seu marido por ser pai. Aí é que nasce o conflito. Seu marido tem o direito à paternidade.
            Você diz que tem certeza que ele só não fala disso para não te chatear. Como você tem essa certeza? Vocês já conversaram sobre isso? Se não não se trata de certeza mas do que você fantasia. Pode haver inúmeras razões para ele não falar, mas ao invés de tentar conjecturar sobre elas você pode conversar. Só assim o relacionamento pode sobreviver. Tanto você quanto ele merecem a verdade um do outro.
            O problema é que isso pode significar o fim do casamento. Se o desejo dele pelo filho for algo que ele não possa abrir mão e que você não possa mudar de opinião é recomendável mesmo que o relacionamento termine. Haverá dor, mas também haverá liberdade para vocês dois viverem como querem e podem. Melhor assim do que alguém viver frustrado (seja ele ou você) para o resto da vida. Isso só serviria para um culpar o outro e abrir a possiblidade de se viver um inferno. Contudo, pode ser que ele possa abrir mão desse desejo, que não seja tão vital assim para ele quanto você imagina. Ou você descobrir que há um desejo oculto em você por ser mãe. Porém, essas coisas só poderão vir a ser conhecidas se vocês forem honestos um com o outro. Dá mesmo medo encarar todas essas coisas, mas é a única maneira de se viver livre e bem com ele e consigo mesma.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Coragem




“Não receie dar um enorme passo, se assim for necessário. Você não pode cruzar um grande buraco com dois passos pequenos” (David Lloyd George)

            Para viver é preciso coragem. Sem ela titubearemos em muitas decisões importantes e ficaremos imobilizados. Porém, coragem, além de ousadia, requer sabedoria.
            Talvez a coragem seja muito mal entendida e vivida. Muitos são os que acreditam que ser corajoso é ousar irresponsavelmente e que a vida só recompensa quem se joga de cabeça em qualquer situação. Isso tem mais a ver com pouco apreço à vida do que com coragem. Para viver todo cuidado vale a pena, e pensar e repensar determinadas coisas é fundamental.
            Há momentos em que mais vale pequenos passos, que vão nos dando segurança e tempo para pensar e mudar a rota, do que grandes passadas que facilmente podem nos fazer tombar feio. Entretanto, há momentos em que não é possível dar pequenos passos, nos é exigido um compromisso maior no tamanho da passada e aí precisaremos decidir se vamos ou não realizar esse movimento.
            Casar, por exemplo, é uma dessas situações. Vejo muita gente que se casa de maneira irresponsável, sem nem conhecer direito a pessoa com quem está assumindo este relacionamento. Por outro lado, há também aqueles que só namoram por anos a fio sem nunca ter coragem de selar um compromisso, quando, na verdade, querem isso, mas têm medo.
            Seja casamento, divorciar-se, decisões sobre a carreira ou qualquer coisa importante, temos vários “buracos” que precisamos nos aventurar a saltar. Não há vida se não cruzamos alguns deles e, para isso, se faz necessário sabermos se queremos e podemos dar esse passo maior. Medos e inseguranças sempre farão parte do nosso repertório, mas chega um momento em que precisamos dar passos mais largos que nos permitam cruzar buracos que a vida sempre teima em colocar em nossa frente. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - Crianças, Emoções e Repressões




Estava em um encontro de amigos esses dias e um menino de cerca de 1 ano e meio bateu com a cabeça na quina de uma das mesas do salão de festas. Claramente doeu. Ele correu para o colo da mãe, com a carinha de choro, mas não derramou uma lágrima. Então, um dos presentes comentou 'Nossa, ele não chorou!', no que o pai respondeu: 'Ele ficou com vergonha de chorar'. Oras, uma criança de 1 ano e meio só tem vergonha de chorar se alguém lhe tiver dito que isso é vergonhoso. Como mãe de um bebê quase da mesma idade, achei muito errado. Eu não tento ensinar meu filho a conter suas emoções (seja dor ou raiva), mas a lidar com elas. Explico porque está se sentindo assim, como lidar com aquilo, etc. Penso que ensiná-lo a sublimar sentimentos pode ter efeitos negativos no futuro. Estou certa?


            Sublimar é tornar alguma emoção ou impulso que se sente originalmente em algo mais sublime e transformado. Isso pode ser muito bom. Um artista, por exemplo, sublime muito do que vive transformando-o no objeto de sua arte. Porém, o caso que você se referiu não tem a ver com sublimação, mas com repressão. Uma criança só não vai ter contato com suas emoções se for reprimida.
            A repressão sempre vem com uma reprimenda, cheia de valores morais e julgadores. Ela pretende estabelecer o que é certo e errado, o que é digno ou não. Na repressão tenta-se jogar para o fundo da consciência aqueles sentimentos e emoções que são considerados vergonhosos, mas uma coisa é certa, nada do que sentimos some ou evapora, contudo continua existindo mesmo que não se tendo conhecimento disso.
            Uma pessoa reprimida não sabe lidar com a vida, mas só sabe repreende-la. Vai exigir dos outros aquilo que foi feito com ela e pouco se abre à espontaneidade. Em outras palavras, perde muito em qualidade e sutilezas da vida que só podem ser usufruídas quando não pré-julgamos e pré-condenamos o que se passa no nosso mundo emocional. O maior problema de se julgar o que se sente é que ao não ter contato com o mundo emocional não abrirá a possibilidade de aprender a se lidar com ele de forma eficiente. Assim as emoções passam a ser temidas e a ser inimigas.
            Quando pais ou adultos responsáveis pelas crianças priorizam a repressão ao invés da compreensão prestam um enorme desserviço ao desenvolvimento psíquico dos pequenos. A vida não vem com cartilha do que é certo ou errado, mas é algo que cada criança e pessoa tem que descobrir e aprender a lidar à medida que as coisas vão acontecendo. Vergonhoso, se é que se pode dizer assim, é não viver bem e não se permitir ser humano com toda a sua gama variada de emoções e sentimentos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Consumismo e Desespero




            Há um alto número de pessoas ao redor do mundo que consomem de maneira exagerada e crônica todos os dias. Isso faz surgir a indagação sobre o que leva essas pessoas a agirem dessa forma. Todos somos consumidores nessa vida: dos recursos naturais, dos produtos industrializados, dos alimentos, etc. Todos dependemos do consumo de forma que consumir não é o problema, mas torna-se um quando ele passa a ser realizado de maneira impulsiva e repetitiva trazendo prejuízos e danos tanto objetivos quando subjetivos.
            Na verdade, o consumismo compulsivo equivale às práticas como adição as drogas, álcool, sexo, jogos, comida e cigarro. É um vício e como todo vício tem relação com o indivíduo tentar preencher seus vazios existenciais com ações que supostamente venham a dar um sentido à vida. De certa forma no princípio tem-se um prazer ao comprar indiscriminadamente produtos e se “encher” de objetos que parecem que vão trazer uma felicidade. Quantas pessoas ao redor do mundo não alimentam expectativas de que quando possuírem tal ou qual coisa irão ser felizes e sossegar? O problema é que a satisfação nunca ocorre porque por maiores que sejam a quantidade de coisas que acumulam o vazio está dentro, na mente, e não pode ser preenchido dessa forma.
            O consumismo é uma tentativa infantil, ilusória e mágica de se alcançar alguma satisfação. Por isso mesmo qualquer tentativa de se obter algum sucesso através do consumismo está destinada ao fracasso e insatisfação formando um terrível ciclo vicioso que se perpetua, ás vezes, estragando toda a vida. Nada no mundo externo por mais brilhante e vistoso que seja poderá criar aquilo que falta no mundo interno. O único caminho é parar de se dirigir para o fora e se voltar para o dentro.
            Pessoas que consomem impulsivamente estão na realidade desesperadas. Nunca aprenderam a cuidar de si mesmas de forma amorosa e construtiva e que priorize o crescimento. Comprar é uma ação e essas pessoas partem rapidamente para a ação quando o que precisam é reflexão. Na reflexão podemos pensar adequadamente sobre o que desejar e esperar da vida sem recorrer a ilusões ou pensamentos mágicos. Na reflexão há chances de avaliarmos melhor nossas atitudes e perceber que tipo de vida construímos. Requer muita coragem e persistência abandonar as soluções infantis e muitas vezes precisamos de ajuda dos familiares, dos amigos e profissional. Mas só mirando essas questões internas, esse vazio, essas falhas que se formaram no decorrer da vida que podemos criar recursos psíquicos que nos possibilitem sair dos vícios a que nos prendemos. É mesmo árduo, mas sempre vale mais a pena enfrentar as dores do que ficar desesperado agindo impulsivamente.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - Ídolos, Salvadores e Mitos




Por que sempre buscamos ídolos e heróis. Não sei se os dois termos podem ser usados como sinônimos, mas isso me ocorreu durante a Copa do Mundo. Apesar da seleção ter 11 jogadores, era o "time do Neymar". O grande ídolo (que acabou por decepcionar, diga-se de passagem). Na política as pessoas também têm essa necessidade, com Lula é assim, o salvador da pátria, com Bolsonaro, o “mito”. Esta é uma necessidade humana? Não sei se faz sentido, mas é uma dúvida que tenho.


            Sua percepção captou o quanto construímos ídolos, heróis, salvadores e mitos. Isso tem origem na nossa infância. Quando crianças pequenas nos sentimos muito vulneráveis frente à vida. Os adultos parecem ser muito fortes e invencíveis, têm respostas para tudo e parecem ser capazes de fazer tudo. Alguns adultos são colocados, pela imaginação da criança, como ainda mais fortes virando verdadeiros heróis. Daí que personalidades do mundo esportivo, capazes de quebrar recordes e assombrar a todos com suas habilidades, acabam virando ídolos.  Com o tempo vemos que adultos também vivem os seus problemas, medos e inseguranças e nos decepcionamos ao nos deparar que heróis como imaginávamos não existem. Contudo nem sempre abandonamos essa idealização.
            Pessoas de todas as idades, mas principalmente entre os adolescentes e jovens, criam fã-clubes de seus artistas favoritos e esportistas. As celebridades tornam-se figuras que vão ganhando toda uma “mitologia” que os distinguem dos meros seres humanos mortais. São endeusados assim como no passado os bebês endeusaram os pais e adultos. Porém deuses só poucos podem existir senão se tornaria muito comum. Por isso num time de 11 jogadores um ou, no máximo, alguns poucos são colocados no olimpo estratosférico. 
            É normal que os jovens criem seus ídolos, faz parte do desenvolvimento. O problema passa a ser quando adultos precisam criar ídolos. Espera-se que um adulto seja capaz de lidar com a vida com mais base no princípio da realidade, sem tantas fugas ilusórias e sem recorrer à idealização. Quando um adulto cria uma figura mítica ou salvadora é a parte infantil que está atuando. Ora, um adulto sendo dirigido pela parte infantil não tem mesmo como fazer boas escolhas nem pensar apropriadamente. Fica infantilizado e recorre facilmente a seus heróis como substitutos de seus papais e mamães.
            Hoje vemos na política esse movimento de infantilização. Seja o candidato que for, de qualquer partido, mas se ele for visto e apresentado como salvador da pátria, pai do povo, mito, herói na verdade está havendo uma idealização. E perigosa. A política não é lugar para crianças que torcem por seus heróis. Não se trata de torcer para algum candidato e vaiar o oponente, mas de avaliar sobre o que nós como um povo realmente precisamos. Não se trata de dizer “Meu candidato é mais forte que o seu”. Isso são brigas infantis.
            Olhar e avaliar os candidatos e as necessidades políticas com mais pé no chão requer abandonar a infância e as idealizações. Infelizmente nem todos desejam crescer (a grande maioria) ou são capazes de crescer e daí vemos hordas de eleitores/fãs se digladiando por seus “mitos e salvadores”. Um povo é resultado da mente de cada um de seus membros e vemos o quanto o Brasil precisa amadurecer urgentemente. Temos medo de crescer e nos responsabilizar pelas nossas vidas e por isso procuramos avidamente um herói que seja nosso “adulto” que cuide de nós.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Relacionamentos Humanos




            Uma matéria no programa da Ana Maria Braga foi ao ar recentemente e causou toda uma série de diferentes opiniões da audiência. O assunto era sobre como se comportar na praça de alimentação dos shoppings e o profissional encarregado de apresentar a matéria passou dicas para uma melhor convivência nesse espaço. O que mais me chamou atenção é que muitas pessoas se sentiram ofendidas e reagiram com comentários bastante arrogantes sobre alguns pontos levantados porque acreditam que tudo podem fazer, o que mostra a dificuldade geral de se pensar no outro.
            A praça de alimentação de um shopping é um espaço onde se convive várias pessoas. Não há garçons para atender as mesas, só há faxineiros para manter a limpeza do local, mas em teoria todos são responsáveis pelo bom uso do local bem como de sua organização. No entanto não é isso o que vemos. Há pessoas que se portam como se tivessem o direito de fazer o que bem quisessem e que o próximo que se vire. Desde deixar mesas emporcalhadas e bandejas nas mesas o que encontramos é que o espaço alheio e público não é respeitado. Em certa medida isso nos mostra o quanto o outro não é considerado e isso é um assunto sério.
            Não estou falando aqui, como foi o objetivo do programa, sobre etiqueta no shopping, mas me refiro a um exercício de observação de como nos tratamos, como nos relacionamos. Não existe apenas eu no mundo, existem também muitas outras pessoas. Respeitar o outro leva a respeitar o espaço alheio seja no shopping ou em qualquer outro lugar. Nossas ruas estão cada vez mais hostis cheias de violência e de perigos. Não respeitamos leis e nem o espaço que compartilhamos. O outro e seus direitos passam a ser negados. A pobreza nos nossos relacionamentos está nítida.
            Relacionamentos pobres demonstram mentes pouco desenvolvidas. O desenvolvimento que falo aqui não é o da racionalidade ou intelectual, mas o sentimental. Não sentimos ou não nos permitimos sentir o outro e negamos a sua existência. Sentir o outro implica uma mente que se coloque no lugar do outro e que entenda que não deve fazer com o outro aquilo que não gostaria que fosse feito consigo próprio. Em outras palavras isso é compaixão e é esta que torna o mundo suportável e encantador. Não nascemos humanos, mas nos tornamos humanos através dos relacionamentos. Quanto menor é o número de relacionamentos bons que vivemos, menor é o desenvolvimento da mente e consequentemente menos humanos somos.