sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Como Celebrar o Ano Novo




            O ano de 2018 está se acabando e mais um ano novo está prestes a despontar. Essas mudanças são apenas modos artificiais de se contar a passagem do tempo para assim nos organizarmos melhor e planejar melhor nossas vidas. Quando 31 de dezembro acaba e 1 de janeiro começa nada demais está realmente acontecendo, porém algo pode acontecer de muito importante, mas no mundo interno.
            Damos tanta atenção às festas de réveillon, às queimas de fogos, às comemorações ao redor do mundo que, muitas vezes, nos esquecemos de observar como anda nosso mundo interno nessa época. Aliás, são poucas as pessoas que realmente prestam atenção em suas mentes de forma geral. Vivemos, infelizmente, como se não tivéssemos que cuidar de um mundo interno e por isso mesmo dá para entender porque tão pouca gente vive com qualidade. Sem se voltar para si mesmo ninguém tem a menor chance de viver bem.
            Nas festas de passagem de ano esperamos que uma mágica ocorra. Que quando os ponteiros dos relógios e os marcadores dos calendários trocarem de posição algo milagroso vá acontecer e nossas vidas se transformar. Deixaremos o passado e seus problemas para trás e o futuro se abrirá cheio de maravilhas. Deste modo ficamos na expectativa de que algo ocorra fora de nós, no mundo externo, sem que tenhamos qualquer coisa a ver com isso. Fazemos desejos e esperamos que o que desejamos nos seja dado, se possível, rapidamente. Nos excluímos de nossas vidas à espera de que algo fora venha a se realizar.
            Claro que viver assim só leva mesmo à frustração. Não teria como ser diferente. Precisamos aprender a viver o ano novo dentro de nós e não apenas celebrá-lo fora. Que muito do que vamos viver são desdobramentos de nossas escolhas, de nossas atitudes. Tendemos a acreditar que quase tudo na vida é acaso ou destino, mas somos muito mais autores do que pensamos. O problema é que vamos escrevendo nossas vidas de maneira inconsciente, sem prestar atenção ao que escolhemos de fato.
            Muitos querem um relacionamento amoroso, mas será que se preparam em ser pessoas melhores, que vai favorecer o surgimento de bons relacionamentos? Querem fazer tal viagem, mas se organizam para isso? Vão atrás do que é necessário para realizar a viagem dos sonhos e se disponibilizam para os sacrifícios necessários? Desejam viver com mais saúde, mas fazem o que têm que fazer para que a saúde se instale em suas vidas? Enfim, sem mudanças em nossa atitude, sem espírito diligente e sem estado de mente paciente, nada de bom pode ocorrer de fato.
            Não precisamos que o calendário mude de um ano para o outro para essa mudança. Ela pode e deve acontecer todos os dias de nossas vidas. Cada dia é sempre uma possibilidade para fazermos escolhas que nos favoreçam e nos enriqueçam. Algumas escolhas já foram feitas no passado com consequências ruins, mas e agora em diante? Como vamos escolher daqui para a frente? Isso que nos possibilita viver e celebrar mais do que um ano novo, mas dias novos. Isso nos coloca no papel principal na história de nossas vidas e não como meros espectadores. Esse é meu desejo para todos nós: Que fiquemos mais conscientes.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Pergunta de Leitora - Sacrifício sem Mérito




Não consigo viver bem sabendo de tantas desgraças no mundo. Como posso comer sossegadamente se há tanta gente sem nada para comer? Me sinto mal e culpada por ter oportunidades que outros não têm. Não consigo tirar férias porque como vou me permitir gastar dinheiro quando tantas pessoas nada possuem? Não compro nada que seja mais caro e de marca, só os produtos mais baratos e intragáveis no supermercado porque não posso gastar enquanto outros nada podem. Me enraivece que muitas pessoas não sintam isso e gastam comprando tudo do bom e melhor como se não se sentissem culpados. O mundo e as pessoas são muito egoístas e eu não quero compactuar com isso. Só que eu sofro com o egoísmo desse mundo. Já me disseram que sou delicada demais para esse mundo, que sofro nesse plano de existência porque sou boa demais.

            Ao contrário do que você imagina não penso que você seja boa, mas acredito que seja egoísta. Egoísta consigo própria. O seu sofrimento vem justamente desse egoísmo ao qual você se apega. Não estou dizendo, que fique claro, que você seja má pessoa. Claro que você deve ter suas boas e louváveis características, mas se engana e torna a sua vida intolerável.
            Realmente há muitas pessoas necessitadas nesse mundo afora, mas o que você está fazendo sobre isto? Deixar de viver não vai melhorar a vida de ninguém e você nem vai ganhar mérito por isso. Portanto, o seu sofrimento é estéril e de nada adianta. Não se permitir viver com mais naturalidade, tranquilidade e prazer não a torna uma pessoa boa, mas a torna uma pessoa boba. Boba porque deixa de aproveitar o que muitos não têm a chance.
            Se sua abdicação ainda resolvesse algo, vá lá...mas parece que você se abnega de sentir prazer e cuidar da sua vida e joga toda a culpa no mundo. Se você pode fazer algo para mitigar tanto sofrimento no mundo, mesmo que seja apenas uma pequena gota, ótimo, faça! No entanto, não espere que o mundo seja perfeito para só assim você começar a viver. Por isso eu disse que você é egoísta, já que o seu egoísmo não a permite viver, mas apenas sobreviver.
            Outra coisa que deve te atrapalhar muito é querer ser boa. Isso faz com que você construa o papel da mulher boa e se dedique a cumprir este papel, e não a viver de fato. Ser boa, no seu caso, parece estar muito ligado a uma questão narcísica, ou seja, algo da dimensão da vaidade, e não da verdade. Hoje você se esmera e se sacrifica, mas isso não a deixa feliz e satisfeita, sendo o oposto: você está amarga pela raiva de não se permitir viver. Será que não está na hora de rever como vem se relacionando consigo e com o mundo?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Reclamar da escuridão ou aprender a acender a Luz




            Reclamar da escuridão é a coisa mais fácil que tem. Todos sabem sobre os sofrimentos, as dificuldades e os percalços da vida e não há ninguém que uma hora ou outra não reclame ou lamente sobre tudo isso. Tudo aquilo que é ruim ou nos traz dor é tido como uma área bastante obscura em nossas vidas e queremos nos livrar dela o mais rápido possível. Quem nunca ouviu pessoas reclamando dos relacionamentos insatisfatórios que vivem, das frustrações que teimam em aparecer e das dificuldades que precisam enfrentar? Aliás, você mesmo caro leitor ou leitora, já deve ter reclamado ou até está reclamando agora. Lamentar a escuridão, contudo, de nada adianta. Ela só existe porque falta luz.
            Quando entramos num quarto escuro sem poder ver nada vamos ficar assustados ou irritados e vamos maldizer aquela escuridão que tanto bloqueia nossa visão nos deixando cegos. Porém, enfurecer-se contra a escuridão é inútil. Por mais que manifestamos nosso desagrado frente a ela, por mais que a xinguemos ou gritemos, ela continuará lá, imóvel, zombando de nosso desagrado. Não há ação direta sobre a escuridão, ou seja, nada que você faça contra a escuridão terá alguma eficácia. Isso ocorre porque ela é uma ausência e não algo em si, ela apenas significa ausência de luz. Tenha luz e a escuridão naturalmente não terá mais lugar e nem como existir.
            Com tudo isso quero chamar atenção para o fato de que grande parte do nosso sofrimento mental ao longo da vida tem a ver com essa “falta de luz” internamente que, ás vezes, nós mesmos escolhemos e alimentamos. Obviamente que há sofrimentos que não escolhemos, que a própria vida trata de nos proporcionar, mas há muitos outros que, até mesmo sem perceber, nós mesmo criamos e vamos carregando com grande custo ao longo da vida. Entrar em relacionamentos doentios, por exemplo, é uma escolha que podemos evitar. Desejar o impossível também é algo que só nos faz mal e que temos a chance de aprender a escolher diferente. Quando caímos sempre nas mesmas angústias repetidas vezes pode ser algo que também não estamos vendo, mas que poderíamos aprender a ver para não mais repetir. Todos esses sofrimentos são como escuridão em nossas vidas.
            Todavia de nada adiantar apenas reclamar do que nos acontece. Precisamos entender que “escuridão” é essa e daí acender a luz, ou seja, criar consciência. Quando nos abrimos à possibilidade de compreender o que estamos fazendo conosco nós acendemos uma luz e podemos ver mais claramente. Diante da presença da luz nenhuma escuridão pode existir. Ela simplesmente desaparece. A psicanálise vem nos ensinando que quanto mais consciência temos de nossos atos e razões que nos dirigem mais claro as coisas ficam e mais saudavelmente podemos escolher como vamos viver. Não só a psicanálise fala isso, mas muitos pensamentos orientais já afirmaram a importância da “iluminação” como vital para a vida. Sabendo disso fica a questão: vamos reclamar da escuridão ou vamos aprender como acender a luz?

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Pergunta de Leitora - Cartas na Mesa




Meu marido não entende os sinais que eu mando para ele. Queria que ele fosse mais romântico, que fosse mais atento às datas, mas ele é esquecido. Não queria falar nada, pedir nada porque acho que aí eu seria a chata da história, mas estou sempre mandando indiretas. Ele é um bom marido, mas ele não é muito sutil. Parece que para ele tenho que falar sempre tudo muito claro senão ele não se dá conta. Como posso fazer meu marido entender que precisa ser mais sutil?


            Seu email me lembra a história de um homem muito ranzinza que ia comer sempre no mesmo restaurante, dia após dia, e pedia sempre os mesmos pratos. Começava com uma sopa de abóbora, depois comia filé com batatas e terminava com sorvete. Bebia água com a comida e após a sobremesa tomava um xícara de café. Esse foi o seu hábito por mais de vinte anos. Nunca mudava. Até que um belo dia o homem chama o garçom e pede para ele experimentar a sopa. O garçom fica preocupado. “Nossa, meu senhor. Há algo errado com a sopa?” o homem nada responde e novamente pede para o garçom experimentar. “Fico até constrangido, senhor, que após 20 anos erramos sua sopa. Vou experimentar. Mas onde está a colher para experimentar a sopa?” “Aha!!”  exclamou o homem ranzinza.
            O que o velho queria dizer ao garçom era que este havia se esquecido de lhe trazer uma colher para tomar a sopa. Ao invés de dizer isso diretamente fez todo um caminho tortuoso para chegar ao mesmo resultado. Seria muito mais prático, rápido e até educado falar abertamente sobre o que se passava. Contudo, o homem esperava que o garçom entendesse os sinais que ele estava mandando e perdeu tempo e até causou constrangimento ao não falar francamente. Será que você não está agindo assim?
            Você espera que seu marido entenda os sinais, que seja mais sutil, porém o que impede de você ser mais direta e conversar com ele sobre o que te incomoda? Claro que não conheço o seu marido e não sei até que grau vai essa “desatenção” dele, mas não seria muito mais fácil se abrir e falar com ele diretamente? Se você escolhe caminhos tortuosos terá também apenas resultados tortuosos.
            Precisamos aprender a simplificar as coisas e não a criar mais e mais obstáculos. Quando não simplificamos vivemos de uma maneira muito mais custosa. Se você acha que a atitude do seu marido vem lhe aborrecendo e até tirando vitalidade do relacionamento de vocês tem mesmo é que conversar seriamente. Para isso é preciso colocar todas as cartas na mesa e não esperar que ele venha a saber o que se passa dentro de você. Relacionamento não deve ser um jogo onde um espera do outro um comportamento especifico, mas é conversar aberta e francamente sobre o que se passa.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Felicidade não se faz com Esmolas




            Uma parábola indiana nos conta sobre um homem simplório que andava à esmo, meio perdido, até entrar num bosque sagrado onde havia uma árvore que concedia todos os desejos. Sem saber deste fato, o homem acabou descansando embaixo desta árvore. Sentiu fome e imaginou como seria bom se comida caísse do céu. Foi só desejar que a árvore fez com que várias e fartas comidas despencassem sobre ele. Ele, como era de esperar, ficou maravilhado com sua boa sorte e pensou então que seria bom se chovesse muito dinheiro. Mais uma vez seu desejo foi atendido e ele ficou eufórico. Contudo, ele desconfiou que tudo isso não poderia ser verdade porque era bom demais e temeu que demônios estivessem brincando com ele. Rapidamente demônios surgiram em sua frente caçoando e zombando. Ele ficou com muito medo e pensou então que ia ser assassinado. E ele acabou assassinado.
            Essa história mostra muito bem o quanto não cuidar de nossa mente pode nos ser perigoso. Quantas pessoas até estão se desenvolvendo, conquistando muitas coisas boas em suas vidas, mas ficam com tanto medo e desconfiança sobre o que há de bom que começam a decair? Temem ser felizes. Aliás, felicidade é algo que todos querem, mais desejam, mas também que menos acreditam. É muito mais fácil acreditar na infelicidade que na felicidade.
            Estar mal, num estado de mente lastimável, sempre reclamando é muito bem aceito e de fácil conquista, mas viver bem nos causa estranheza. Sentimos que não temos o direito de ser feliz, que é quase um pecado, algo da dimensão do egoísmo. Infelizmente é assim que a maioria das pessoas funcionam. Sentem-se culpadas da possibilidade de ser feliz e aceitam com muita mansidão um estado de miséria e pobreza.
            Somos educados para temermos a felicidade e abraçarmos as esmolas da vida. É que gente feliz não é submissa, questiona muito e nunca aceita qualquer negócio. Gente feliz é capaz de pensar sobre a vida e escolher melhor como quer viver. O infeliz pode ser enganado com migalhas facilmente e ele ainda fica agradecido. Quem é feliz só quer o melhor dos mundos e não aceita esmola. Não teme as adversidades da vida e quem não teme não pode ser controlado. Muitas das nossas pequenas alegrias ao longo da vida são esmolas que muitas vezes agarramos e que nos faz deixar de procurar e criar a verdadeira felicidade e quando algo realmente bom ocorre ainda ficamos desconfiados e temerosos. Será que vale a pena?

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pergunta de Leitora - Amor não é Obrigação




Não gosto do meu namorado. Antigamente gostava muito, mas agora não sei explicar o que, mas algo mudou. Estamos juntos há 7 anos e já faz quase dois que estou com ele sem amar. O que me faz ficar com ele é que ele é muito bom comigo e com minha família. Minha família o adora, ele é quase um herói e considerado o melhor partido que eu poderia arrumar na opinião deles. Ele é muito atencioso, carinhoso, só que eu não quero mais. Me sinto má, sem coração. Por que não posso amá-lo? Por que não posso ficar bem com ele? Caso eu termine vou passar por vilã da história. Será que ele não se toca que eu não o amo mais? Estou com ele por dó, sei disso. O que fazer?


            Com os assuntos do coração não há como obrigar alguém amar o outro. Ou ama ou não. Não tem meio termo e nem forma de se forçar apaixonar. Se você sabe realmente que não o ama mais não adianta esperar porque nada vai mudar. Enquanto continuar insistindo nesse caminho o resultado é mesmo a infelicidade.
            Outra coisa que parece que adiciona bastante complicação no que você está vivendo é que você espera que ele perceba que você não mais o ama e termine. Você deixa esse trabalho para ele e se esquiva da sua parte. Provavelmente você teme a desaprovação da família. Mas quem o namora é você e não a sua família. Como quem paga o preço da sua vida é você mesma, vai precisar se impor mais sobre o que você quer ao invés de deixar nas mãos dos outros. Não dá para querer ir para o paraíso sem morrer.
            Ninguém vai poder assumir a responsabilidade pela sua vida e ninguém te impede de fazer as suas escolhas a não ser você mesma. Não há como tirar o corpo fora. Se você não o ama está perdendo o seu tempo e o dele e sendo injusta consigo mesma. Não adianta esperar que surja uma fada que bata com a varinha em sua cabeça e te faça se apaixonar por ele para seus problemas ficarem resolvidos. A vida necessita de realidade e não de ilusão.
            E qual o problema de não mais amá-lo? Você não é obrigada a isso. Quem impõe essa obrigação é você. Relacionamentos mudam e se desfazem porque as pessoas mudam e muitas vezes aquilo que tinha sentido em uma determinada época perde o sentido em outra. A vida é assim e não tem nenhuma tragédia nisso. Você poderia, ao invés de se martirizar, se perguntar o porquê não pode ser livre para namorar ou não namorar. E mais outra coisa para a sua reflexão é que sentimento de pena não sustenta relacionamento. Pelo contrário, só cria ressentimento e ódio com o tempo. Tem certeza de que é isso que você quer?

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Pergunta de Leitora - Muita Colher de Chá




Minha irmã é uma pessoa extremamente insegura. Dificilmente toma as próprias decisões. Sempre recorre a minha mãe, a mim ou, agora, ao marido. Mesma eu sendo mais nova me comporto como a irmã mais velha que cuida. Cresci ouvindo da minha mãe que não podia contar tudo para ela (problemas financeiros de casa, entre outras coisas) porque ela ficava muito impressionada. Sobrava pra mim. Atualmente ela está com síndrome do pânico. Enfim, a gente sofreu um acidente de carro quando ela tinha 4 anos. Eu tinha 2. A história que minha mãe conta é que ela voou do carro e ficou embaixo dele, desacordada, num buraco “que o anjo da guarda fez”, ou o carro a teria esmagado... mas conversando com minha madrinha esses dias (irmã da minha mãe) ela disse que não foi assim. Que viraram o carro e minha irmã estava acordada, de olho arregalado, totalmente em choque. Eu fiquei pensando que esse fato pode ter a ver com a personalidade dela, mesmo ela não se lembrando. Será que faz sentido? Tenho medo de contar pra ela e deixá-la ainda mais impressionada sem motivo.


            A mente precisa de alimento para se desenvolver. Qual o alimento da mente? Para o psicanalista W. Bion esse alimento é a verdade. Sem a verdade não há a menor possibilidade de haver crescimento. A verdade dói com certeza, mas sem dor também não há como crescer. Esconder a verdade, floreá-la, nunca é algo que funciona de fato. Pode, pelo contrário, gerar muita confusão.
            Obviamente que a verdade não precisa ser contada de forma fria e jogada rispidamente. Isso nada mais é que crueldade. Falar a verdade requer delicadeza e respeito. Acontece, infelizmente, que muitas vezes queremos proteger aqueles que amamos e ao invés de nos atermos à verdade a ocultamos com histórias mirabolantes. Assim, uma ocorrência ruim e perigosa vira uma coisa mística, um milagre, uma mágica, um evento fantástico ou simplesmente uma aventura. Acha-se que assim estará protegendo quando está confundindo.
            Sua irmã, por ter passado por uma experiência traumática, foi cercada de uma proteção sufocadora. Passou a ser tratada como coitada. Acreditava-se que ela não podia mais se deparar com a vida, com os problemas financeiros, com as dores, etc. Ela passou a ser vista por todos da família como uma eterna criança indefesa e assustada. Ninguém mais acreditava que ela podia crescer. E parece que ela mesma hoje não acredita em si própria.
            Sua irmã precisa de análise para que ela venha a se desenvolver de verdade. Ela precisa aprender a criar seus recursos mentais para dar conta da vida e para contar consigo mesma. Ela não precisa de anjo da guarda. Isso é o que contamos às crianças, mas como adulta ela precisa dela mesma. Sua irmã também necessita deixar de ser vista por todos como uma pobre criatura. Só vive em estado de pânico quem não aprendeu a contar consigo mesmo.