segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Mal da Ausência



            Está todo mundo chocado com o tal do desafio da baleia azul que está rondando os jovens através da internet. Nesse desafio os jovens são instigados a completar determinadas “tarefas” para prosseguir para a próxima etapa. Quem completa todos os desafios ganha “sucesso” e o “respeito” dos colegas. O problema, contudo, é que os desafios são autodestrutivos e vão, à medida que se passa de fase, tornando-se mais perigosos até chegar o desafio final que é o suicídio. Como um jogo desses pode fazer tanto sucesso e constituir uma ameaça que está dando o que falar?
            Diga-se de passagem que desafios assim não são novidades. Isso existe há séculos. A roleta russa, por exemplo, sempre foi um jogo perigoso que ceifou a vida de muita gente. Até mesmo antes de existir armas de fogo existiam jogos com espadas e facas que atentavam contra a vida e o bem estar. Portanto, esses jogos não são novos, apenas mudam de forma e com a facilidade da internet propaga-se com muito mais rapidez. O que assusta, porém, é o aumento de número de jovens que estão se engajando nesses tipos de desafios.
            Muitos perguntam-se por que jovens que têm condições de vida boas, com bom nível sócio-enconômico e acesso a cultura arriscam suas vidas em uma atividade autodestrutiva. O erro é olhar apenas as condições externas das vidas desses jovens. Por fora parece que têm tudo e nada falta, mas uma espiadela por dentro mostra um cenário diferente. A perspectiva com que olhamos o problema pode mudar completamente todo o sentido dele. E eles estão com falta de algo muito importante.
            O que falta de fato na vida desses jovens são relacionamentos humanos de qualidade. Existe uma família, pessoas que moram juntas e é assim na maioria das casas, porém faltam elementos que unam essas pessoas. Relacionamento de qualidade é raro. Enquanto isso não for visto e transformado existirão cada vez mais desafios malucos.
            Muita gente culpa os pais trabalharem tanto, que a família acabou e que até o feminismo que põe as mulheres no mercado de trabalho está destruindo valores. Bobagem! Não vamos voltar atrás no tempo e ficar saudosos de coisas que também não funcionavam muito bem. A questão não são os pais trabalharem e nem muita coisa na estrutura da família estar mudando atualmente, mas a qualidade dos relacionamentos entre as pessoas. Não se trata e nunca se tratou de quantidade de tempo e de manter tradição conservadora, mas de qualidade nas formas de se lidar um com o outro.
            O problema é a ausência de contato. Só nos tornamos humanos quando nos relacionamos com os outros. Não nos tornamos humanos sozinhos. Aprendemos a nos cuidar quando primeiramente somos cuidados. Aprendemos a nos comunicar quando há gente que se comunica conosco. Sem contato humano nos tornamos vulneráveis. Se não nos tornamos humanos teremos um corpo, sensações, mas não saberemos como preservar esse corpo, não teremos construídos uma identidade e ficaremos como bobos, pois não teremos consciência de nós mesmos.
            Quando há relacionamento de qualidade aprendemos a nos preservar e a entender que temos uma responsabilidade por nós mesmos e por isso não aceitaremos qualquer convite. Na ausência de relações que nos ajudam a criar identidade só sobra mesmo a busca por sensações, mesmo que estas nos coloquem em perigo. Apenas combater esses desafios não adiantará. É preciso um passo além e mais profundo. Sem repensar como nos relacionamos conosco e com os outros, sem desenvolver consciência, ficará aberto o ambiente para que loucuras desse tipo surjam. Que tal o desafio de nos tornarmos humanos melhores? Esse desafio vale a pena.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Pergunta de Leitora - Rumo à Independência




Hoje tenho 23 anos e sempre tive problemas com meus pais. Meu pai largou a família quando eu tinha 12 anos e nunca mais quis saber de nós. Tem outra família e filhos. Fiquei sozinha com minha mãe e ela é uma pessoa muito para baixo. Está sempre depressiva e muitos falam, na minha família, que foi por isso que meu pai a largou. Não me dou bem com minha mãe, brigamos demais. Ainda moro com ela. Com meu pai tenho pouquíssimo contato e sei que ele é um homem bem alegre e feliz. O único problema é que a mulher dele não gosta de mim e por isso mesmo, para não causar problemas para meu pai eu permaneço longe dele. Só que estou perdida com minha mãe. Ela se intromete muito na minha vida, não me deixa ter amigos e sair e não sei se vou ser feliz com ela. Mas o que devo fazer? Ela é completamente sozinha.

            Você se sente responsável pela sua mãe. Com a saída do seu pai da família e com a atitude mais passiva de sua mãe você se encontrou na posição de ter que cuidar dela. Entretanto, isso vem te pesando e agora não sabe o que fazer. Desde uma idade muito precoce você foi jogada para se virar sozinha com seus conteúdos e com os da sua mãe.
            Sua mãe, pelo que você diz, é uma pessoa depressiva. Provavelmente já o era antes da separação e continuou ou até mesmo se agravou após o fim do casamento. Você ficou com uma mãe que demandava e ainda demanda grandes cuidados e que se coloca como não capaz de cuidar de si mesma. Uma mãe que nunca pôde ter lhe servido como modelo de uma pessoa que pudesse se refazer e continuar procurando pela vida. Pelo contrário, tem o modelo de uma mulher enfraquecida e que não consegue reagir. Ter ficado com sua mãe, sem ninguém para te mostrar outro lado da vida, deve ter sido demais para você digerir.
            Já seu pai lhe abandonou. Ele é feliz, alegre, o que indica certa capacidade para poder viver melhor, mas o que ele lhe fez foi te abandonar. Arrumou uma mulher que não gosta de você e nunca se fez presente na sua vida. Seu pai tem todo o direito de viver bem e se o casamento com sua mãe não estava mais funcionando ele poderia ter se separado, mas isso não implica em abandonar a filha e o que ele lhe fez foi egoísta. Tão egoísta que talvez ele lhe permite pensar que é melhor você deixa-lo em paz para não atrapalhar a vida dele. Ele não abandonou só a sua mãe, mas você também.
            Hoje o que você necessita é criar modelos novos internamente. Modelos estes que lhe permitam viver a sua vida. Ajudar a sua mãe é uma coisa, carrega-la é outra e você necessita conseguir diferenciar entre essas duas coisas. Porque sem essa distinção fica fadada à impotência, que é justamente o modelo da sua mãe. Não se trata de abandoná-la, que é o modelo do seu pai, mas de poder viver a sua vida de forma mais justa, sem que você tenha que carregar tanto peso. Sua mãe terá que entender e aprender a aceitar uma filha independente. Enfim, é você se tornar uma pessoa adulta, o que nenhum dos seus pais realmente são. Eles fogem de suas reponsabilidades, que é eles cuidarem de suas escolhas e consequências. Você pode e deve pegar outro rumo. Já considerou fazer análise para descobrir e desenvolver sua força?

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sucesso e Fracasso



            As pessoas sempre almejam ao sucesso e temem o fracasso, pelo menos é assim que diz o senso comum. A psicanálise nem sempre concorda com o senso comum, pois entende que o senso comum está, muitas vezes, a serviço de se ocultar a verdade. É que a verdade é sempre menos aceita porque nunca é tão bonita como nossas ilusões e é um fato que nos apegamos mais às nossas ilusões do que à realidade. Sabendo disso e usando da psicanálise podemos ver que nem sempre almejamos ao sucesso quanto pensamos. Na realidade tememos muito o nosso próprio sucesso.
            Existe em nós algo como o “medo da felicidade”, por incrível que pareça. Isso se dá porque a nossa felicidade demanda de nós muito mais do que demanda os medos e fracassos ao longo da vida. Quando vamos acumulando sucessos na vida, tememos inconscientemente que uma tragédia possa aparecer e destruir o sentimento de realização, de perdermos tudo. Não é à toa que há tantos rituais para afastar a má sorte e mau olhado, como bater na madeira, sal grosso, olho grego, etc. Esses rituais nada mais são do que formas de nos proteger da nossa destrutividade e da certeza de que vamos, um hora ou outra, sabotar nossa felicidade
            É como se dentro de nós existisse alguém que pusesse em dúvida nossa possibilidade de ser feliz. Duvidamos que mereçamos coisas boas porque em algum nível acreditamos sempre que precisamos sofrer. Isso tudo não tem a menor lógica, mas quem disse que nossas mentes funcionam através da lógica? A psicanálise nos mostra que a lógica própria da mente é o que nos mais influencia e dá o tom de como vivemos e acolhemos nossas experiências de vida e o que vemos é que tememos a felicidade e acreditamos que merecemos a infelicidade por mais incrível que isso possa soar.
            A verdade é que apesar de temermos os fracassos eles nos são conhecidos e tendemos sempre a agarrar o conhecido. O sucesso e aqui me refiro aos verdadeiros sucessos na vida, não àqueles superficiais, mas que criam um sentimento de realização, requer nossa responsabilidade. Sucesso exige o máximo de nós continuamente enquanto o fracasso não. Por isso que há tanta gente que sabota a própria vida já que temem, sem nem saber que temem, quais as responsabilidades que terão para manter uma vida de sucesso e satisfatória. Somente com um verdadeiro trabalho interno de desenvolvermos uma autoestima é que podemos acolher melhor os sucessos e abandonarmos os fracassos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O Gozo pela Dor do Outro




            Já repararam como vende muito aqueles jornais dedicados às notícias de truculência? E aqueles programas de televisão que mostram a desgraça alheia que têm sempre telespectadores fieis? Pois é, é fato que a maior parte das pessoas adoram uma notícia sensacionalista e quanto mais detalhes bizarros e grotescos melhor. Por que será assim?
            A vida é dura, cheia de muitas frustrações e sofrimentos. É assim para todos e para grande parte das pessoas é ruim imaginar que a vida do outro é melhor, pois é verdadeiro que quando comparamos nossas dificuldades com outras pessoas tendemos a achar que as nossas são sempre piores e mais dolorosas. Então, se temos o hábito de dar mais peso às nossas dores criamos a fantasia de que a vida dos outros é tudo muito mais fácil e agradável. Nessas horas esquecemos a realidade e imaginamos que nossos vizinhos têm a vida que pedimos aos céus e ao fazer isso agravamos ainda mais nossos sofrimentos já que nos sentimos em desvantagem. Portanto, para quem está sofrendo é sempre prazeroso ver que muitas outras pessoas também estão mal ou até pior.
            Assim, diante da abundância de notícias trágicas e sensacionalistas a pessoa que sofre no seu dia a dia encontra certo alívio. Afinal, essa pessoa pode pensar, se a vida está dura para mim poderia ser bem pior como a dessas pessoas noticiadas. Por incrível que pareça muita gente sente prazer observando a dor e sofrimento dos outros. O ser humano é mesmo assombroso!
            Veja, por exemplo, quando uma pessoa é atropelada. Muitos rodeiam o acidentado com o objetivo único e simples de observar a cena e nada mais. Não podem ajudar a vítima, nem prestar socorros uteis, porém não arredam pé da cena e a admiram com certo gozo no olhar e nos comentários. É justamente isso, esse alívio que as pessoas estão procurando, já que assim se sentem sortudas por não estar naquela situação. O problema de se depender apenas das tragédias e dores para encontrar alívio é que a pessoa pode se tornar insensível. Torna-se fria e descrente de que possa haver generosidade e atos de amor nesse mundo e isso leva a um processo de desumanização. Chega uma hora que é preciso sair desse gozo primitivo para alçar voos bem mais favoráveis ou em outras palavras é necessário se humanizar para que assim a vida possa se enriquecer. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pergunta de Leitora - A experiência da Análise



Recebi de uma leitora as seguintes perguntas sobre psicanálise que tentei responder o melhor e mais simples possível. Há muitas questões técnicas que demandaria uma aula sobre fundamentos da psicanálise, mas isso não seria interessante e levaria muito tempo. Essas questões, contudo, são as de muitas pessoas.

1- Existe um valor médio para a sessão? Sei que muitos psicanalistas acordam com o paciente o valor das sessões, mas existe um mínimo e máximo? Por exemplo, um valor aproximado... Pra ter uma noção antes de começar.

Não existe valor fixo. Cada um pratica o que quer ou o que pode. Só mesmo conversando com o profissional para saber ou chegar a um acordo. Varia também o local. Cidades como São Paulo acabam tendo um valor maior, afinal o custo de vida lá é mais alto. Portanto os honorários de cada psicanalista são matéria de cada um. Para saber vai ser necessário entrar em contato com o profissional.

2- Uma vez li um texto que dizia que para a análise iniciar de fato, é necessária a transferência e o analista precisa ter aceito aquele paciente em análise. O que seria aceitar o paciente em análise?

Significa o analista sentir que o analisando pode se beneficiar do processo da análise. Que, em algum grau, o analisando entende que há uma responsabilidade sua pela vida que leva, que seja um indivíduo que sofra e que tenha curiosidade sobre si mesmo, sobre seu mundo interno. Há muitas questões envolvidas para se tomar alguém em análise, mas esses três fatores são muito levados em consideração. Sem estas condições fica difícil um analisando levar em frente um processo que demanda entrar em contato com dores antigas e poderosas. Sem consciência do sofrimento, sem presença da curiosidade sobre si e sem responsabilidade por si mesmo não há como uma análise acontecer e aí desistir do tratamento no meio do caminho é muito frequente. O analista para aceitar alguém deve olhar para essas questões.

3- As primeiras entrevistas são feitas numa poltrona geralmente, analisando e analistas ficam de frente um para o outro. Em que momento o analista leva o paciente ao divã? O que demarca, exatamente, esse momento? Existe um tempo médio pra que isso aconteça?

Ah, o divã! Como isso gera dúvidas. Essa peça do mobiliário de um consultório analítico é algo que deixa muita gente curiosa. A análise, que fique entendido, não depende do divã. Ela pode acontecer frente a frente, com o paciente sentado na poltrona. Portanto, é um erro, que até muitos psicanalistas cometem, crer que a análise necessita do divã invariavelmente. Frente a frente a análise pode acontecer, porém quando um analisando passa ao divã pode ter um contato maior com seu mundo interno. Nesse momento o analista e analisando ficam “livres” dos olhares um do outro para “sonhar” a sessão. Cada um fica entregue às suas associações livres para cada vez mais dar um sentido ao que se fala e se escuta. O analista pode convidar o analisando a ir para o divã quando acredita que podem sonhar mais nesse encontro que vivenciam juntos, mas ir para o divã jamais deve ser uma imposição. É um convite que pode ser aceito ou não. Ao estar deitado faz com que o analisando também saia de uma formalidade e possa ser ele mesmo, mais informal e espontâneo. A análise não se trata de um encontro formal ou social, mas um encontro de descoberta onde possamos nos colocar em novas posições em nossas vidas.

4- O que você acha do contato físico entre paciente e analista? Dois beijos ao cumprimentar, aperto de mão e até mesmo um abraço? Partindo do paciente esse ato, o que o analista pode fazer diante disso?

Não há problema algum, em princípio. A questão não é o beijo, o aperto de mão ou o abraço, mas qual o sentido deles. Há beijos que não são beijos, mas mordidas disfarçadas de beijos. Há abraços que são prisão e apertos de mãos que são apenas hábitos corriqueiros formais. E também há beijos que são beijos e nada mais. O que importa é qual o clima desse contato físico, qual o sentido que pode ser apreendido deles. Algo que tem que ser trabalhado, conversado? Algo que o próprio analisando não percebeu? Depende muito. Psicanálise não é ciência exata que se enfia o que acontece numa equação. O que se precisa numa sessão é haver disponibilidade para olhar as coisas com novos olhos. E também muito respeito entre os envolvidos. Nenhum paciente precisa se sentir mal porque cumprimentou o analista.

5- E sobre possíveis encontros na rua? Por exemplo, encontrar com o analista num restaurante ou shopping. Como agir? Cumprimentar ou não? E por que muitos analistas consideram que o "simples" fato de encontrar um paciente fora do consultório pode ser devastador para a análise chegando a ponto de interromper o tratamento?

Ora essa! A gente encontra pacientes na rua, no supermercado, em restaurantes, em todos os lugares. Qual é o problema? Se o paciente quiser cumprimentar, cumprimente. O que tem demais? Se um analisando sente alguma coisa ao encontrar o analista em algum lugar publico, pode levar isso para a análise. Isso pode ser matéria importante e interessante para se entender o que se passa. Se alguém interrompe a análise por causa disso está vivendo sob a ditadura de uma fantasia muito forte e isso vale tanto para o analisando quanto para o analista. O analista não deixa de ser uma pessoa comum que come, anda, passeia e por aí vai. Encontrar-se e cumprimentar-se não significa que tenham que sair juntos, trocarem figurinhas e terem uma vida social conjunta. Ninguém vai derreter se analista e analisando se esbarrarem por aí. A análise acontece no consultório e não fora dele e fantasias que venham a surgir devem ser analisadas.


Apesar de ter respondido às essas questões quero dar ênfase que a análise é acima de tudo uma experiência emocional única e intransferível. Ela não pode ser colocada de maneira intelectual, pois isso mata o sentido. Quando tentamos explicar demasiadamente algo, morre-se o sentido. Um poema, por exemplo, não foi feito para ser explicado ou racionalizado, mas sentido. É impossível explicar aquilo que não foi feito para ser justificado. A análise é uma experiência emocional entre duas pessoas que provoca e gera transformações. É uma experiência transformadora onde passamos a nos relacionar conosco e com a vida de uma nova maneira. Ao viver um processo analítico temos a chance de descobrir quem somos e como podemos viver cada vez melhor. Melhor do que perguntar sobre psicanálise é se colocar disponível para a análise e viver uma experiência que pode ser impactante na vida. Nada substitui a experiência pessoal.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vacas Imaginárias


                Uma história budista conta sobre um mestre que foi ao mercado com seus discípulos. Esse mestre era conhecido por ser um sábio e por usar corriqueiras situações como matéria para aprendizagem. Vendo um homem arrastando uma vaca ele o parou e chamou todos os discípulos ao redor e lhes fez a seguinte pergunta “Quem está amarrado a quem? O homem à vaca ou a vaca ao homem?” Os discípulos pensaram e disseram que era claro a vaca estar atada ao homem, pois ele a arrastava, ele era o mestre e a vaca a escrava. O mestre sorriu, pegou uma tesoura, e cortou a corda entre o homem e a vaca. Nesse momento a vaca saiu em disparada fazendo com que o homem saísse correndo atrás dela. O mestre disse: Agora a situação se inverteu e a vaca se tornou mestre. Vejam, o mesmo acontece com vocês e suas mentes. A vaca é as ilusões que vocês carregam aí dentro, mas são vocês que estão interessados nela, vocês se prendem a ela e quando ela se afasta vocês correm atrás dela. Isso causa doenças e deixa o espírito pesado. Porém, se vocês se desinteressarem de tudo aquilo que não precisa vocês serão livres e não precisarão ficar presos a nada.
            É uma verdade dolorosa de se ouvir e de saber que muitas vezes nós ficamos presos e criamos muitas situações que nos adoecem por responsabilidade (ou falta dela) nossa. Frequentemente desenhamos cenários internos catastróficos e nos atamos a tantas coisas inúteis e irreais que passamos a viver as nossas criações e não a realidade. Estar constantemente ansioso, por exemplo, é ficar correndo atrás de várias vacas imaginárias.
            O problema é quando passamos a tratar as vacas imaginadas como reais e nos distanciamos daquilo que realmente importa. A grande maioria das adversidades que padecemos é por nos envolvermos com nossas alucinações. Uma pessoa que sofre é uma pessoa aprisionada. A saúde mental requer liberdade e esta não vem gratuitamente, mas precisa ser conquistada. É um processo longo se livrar de algumas “vacas” e necessitamos de paciência, persistência e tolerância. O caminho para ser livre é árduo, contudo é o único que vale a pena trilhar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Pergunta de Leitora - Colo




Não me entendo. Tenho 45 anos e sou casada. Sempre gostei de transar com homens. Mas ultimamente venho sentindo atração por uma amiga minha que é lésbica. Não sei por que isso tem que me acontecer. Eu ando sonhando e imaginando como seria ficar com minha amiga. Tenho vergonha desse desejo e queria que não estivesse acontecendo. Será que sou lésbica, então? Está certo que a relação com meu marido não vai bem. Descobri que ele me traiu e quase nos separamos, fiquei muito humilhada e revoltada com ele, mas o que não entra na minha cabeça é por que então não me senti atraída por outro homem? Nunca tive desejos homossexuais antes. Pensei que isso de ser homossexual fosse bem mais comum nos homens do que nas mulheres. O que me está acontecendo? Preciso de ajuda.

            Há um engano achar que existem mais homens homossexuais do que mulheres. Na verdade o que ocorre é que como o sexo é menos reprimido entre os homens estes acabam por exercer mais a própria sexualidade. Já com as mulheres a história é outra e muitas são educadas a não desejarem ou ao menos não manifestarem seus desejos sexuais. Mesmo na homossexualidade as mulheres são mais inibidas. Mas não há evidencias de que o número de mulheres homossexuais seja menor.
            Outro engano também que se tem com a sexualidade é achar que ela se trata exclusivamente de uma sexualidade hetero ou homossexual. Todos os psicanalistas concordam que a sexualidade humana é muito mais complexa do que gostaríamos de imaginar e que não existem padrões exclusivos, mas que somos todos sexuais, ou seja, que a bissexualidade é muito mais presente do que muitos acreditam. Portanto, não é incomum em alguma fase da vida tanto homens quanto mulheres se sentirem atraídas por e até mesmo ter experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo. Geralmente, isso acontece mais no início da juventude, mas não tem data certa.
            Muito mais importante do que saber se você é homossexual ou heterossexual é entender o que está lhe acontecendo sem se julgar e se condenar. Você menciona uma decepção com seu marido onde sua autoestima parece ter sido muito diminuída. Deve ter ficado tão humilhada, mais até do que pode ter percebido, que deve ter te levado a um sentimento de vingança para com os homens. Resultado: você renunciou aos homens.
            Tudo que lhe digo são apenas hipóteses que demandam melhor análise que não cabe nesse espaço. Porém, podem ser pontos relevantes para você refletir sobre o que vem lhe acontecendo. Mas podemos pensar que ao ser enganada por um homem é como se você voltasse ao colo da mãe para curar as feridas abertas. Talvez ao estar com uma mulher você se sinta mais segura. Muitas mulheres e homens se voltam à homossexualidade como defesa e não porque tenham necessariamente essa orientação sexual. Contudo, seja o que for se faz importante que você se trate com respeito e amor e deixe de lado os preconceitos.