sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Pergunta de Leitora - O Porco e a Vaca




Sou uma pessoa com posses e minha família tinha pouco dinheiro. Sou sozinha, não tenho filhos de modo que quando eu morrer ficará tudo para meus sobrinhos. Eles vão fazer a festa com meu dinheiro, eu sei. No entanto, eles não gostam de mim. Não me convidam para nada e percebo que acham minha presença um tanto quanto aborrecedora. Isso tudo é porque eu não os ajudo agora com nada e nem no passado. Nunca os presenteie, nunca os ajudei. Com isso quero que eles cresçam por si só e que reforcem o próprio caráter. Não facilito mesmo para eles porque sei que se eu facilitar eles vão ficar indolentes. Hoje eles estão bem e não precisam de ajuda. Só que eles não entendem isso que eu fiz com eles de ser dura e que minha dureza é para o bem deles. Acho que eles só querem que eu morra para fazer a festa. Estou sozinha e queria que eles se aproximassem de mim, mas acho que eles são ruins.


            A relação que você vive com seus familiares é de baixa qualidade. Parece que na verdade você criou uma barreira. Apesar de você justificar que suas atitudes são na verdade uma benção disfarçada, parece mais que é uma forma de controle e também de mesquinharia. Há um medo intenso em dar a quem está próximo. Você está pobre mesmo sendo financeiramente rica.
            Você coloca no dinheiro a sua pobreza, ou seja, você não presenteia, não usa seu dinheiro com os outros porque acha que vai criar um bando de pessoas indolentes. Na verdade pode ter mesmo é medo de se doar, de mostrar um lado generoso, de se abrir. Controla tudo com medo do que poderia acontecer caso se abrisse. Porém, hoje está sozinha. Não permitiu se aproximar e nem deixar que se aproximassem de você o que acabou por solidificar a posição de estar sempre só e inacessível. Está cheia de dinheiro, mas falta relações de qualidade. Colocou o dinheiro onde deveria ter outras coisas como o afeto.
            Isso não significa que você precisava dar tudo e acabar com seu patrimônio. Isso seria estupidez e temerário. Não se trata de não dar nada ou então dar tudo, mas de poder ser amorosa. Seu medo é de ser amorosa. E exige hoje dos outros o que você mesma não deu: afeto. Quando presenteamos alguém ou ajudamos alguém não se trata só de dinheiro, mas também de afetos. De apostar no outro, de abrir possibilidades. Hoje ninguém parece querer estar perto de você, mas isso não aconteceu à toa. A parábola a seguir pode te ajudar a pensar. 
             Um dia um porco foi até a vaca reclamar que ninguém lhe dava valor. Segundo ele, só recebia menosprezo das pessoas. “Afinal –disse ele – eu doo tudo o que tenho aos homens. Eles consomem minha carne, usam meus pelos para fazer pinceis e aproveitam até os meus ossos. Mesmo assim sou um animal desconsiderado. O mesmo não acontece com você, vaca, que dá apenas o leite e é reverenciada pelas pessoas.” A vaca que ouvia a reclamação do suíno disse “Talvez seja porque eu doo um pouco de mim todos os dias, enquanto estou viva, e você só tem utilidade depois de morto.” Vale a pena pensar um pouquinho que tipo de relações você vem cultivando.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Sexualidade e Independência




            Numa famosa feira de tecnologia nos EUA foi apresentado um produto novo feito por uma turma de engenheiras que deu o que falar. O produto era um vibrador para mulheres cheio de características inovadoras que, segundo se dizia, podia substituir um homem. O prazer proporcionado por essa engenhoca tecnológica era garantido, o que nem sempre acontece quando se trata de um acompanhante masculino. Inicialmente, o vibrador foi saudado como revolucionário e aplaudido, mas depois de um tempo foi retirado da feira e considerado obsceno e profano. Na verdade, foi um grupo de homens que esteve por detrás dessa reviravolta fazendo a engenhoca cair do Olimpo para o inferno.
            A sexualidade feminina ainda não é bem aceita. O fato é que de forma geral a sexualidade não é bem aceita, tanto a masculina quanto a feminina. Os homens, apesar de parecer gozar de uma sexualidade mais direta e livre, vivem tantos conflitos e inseguranças que não dá para dizer que estão resolvidos nessa área. Homens e mulheres se desencontram no campo sexual e vivem com muita pouca qualidade aquilo que é tão importante para a vida.
            Tradicionalmente, ficou vinculado que a sexualidade masculina é dominante, agressiva, que os homens são mais sexuais e vão atrás do que querem. Já às mulheres ficou reservado o papel de submissas, passivas, não tão sexuais (até porque aquelas mulheres mais sexualizadas eram consideradas como devassas) e que ficam sempre à espera dos homens. Só que sexualidade não é isso. Aliás, isso tudo é uma limitação muito grande da dimensão sexual que temos disponível em nossas vidas. Vivemos pobres quanto à sexualidade.
            No caso do vibrador acima ficou escancarado o quanto os homens ficaram inseguros. Um aparelho que promete prazer ao público feminino e até ser mais satisfatório que os próprios homens fez com que muitos deles se movimentassem para condenar o produto e qualifica-lo como algo ruim. Ora, se as mulheres se tornam mais satisfeitas, mais realizadas, elas ficam cada vez menos submissas e isso representa toda uma mudança no que tradicionalmente se fez valer. Homens e até mulheres temem muito mudar a atual condição em que vivemos.
            Em vários lugares no mundo mulheres têm o clitóris extirpado. Alguns querem acreditar que isso é cultural, mas na verdade não. É que mulheres mutiladas, humilhadas, acabam por ficar mais submissas, não lutam por seus direitos e nem procuram mudanças na vida. Em outras palavras, tornam-se sujeitas ao outro, tornam-se objetos e como tal podem ser usadas. Tanto as religiões quanto a política no decorrer da história sempre apresentaram fortes condenações à sexualidade. Um povo que não se conhece (e viver plenamente a própria sexualidade é se conhecer mais) é facilmente manipulado e em vez de serem pessoas livres ficam crianças assustadas e dependentes.
            A revolução sexual que se diz que ocorreu na década de 60 não foi uma verdadeira revolução. Trouxe imensos benefícios como métodos contraceptivos e maior liberdade, mas ainda há muito por fazer. Ainda carecemos de uma verdadeira revolução na maneira que vivemos a dimensão da sexualidade. Enquanto esta não acontecer vamos continuar sofrendo muito e desnecessariamente. Homens e mulheres.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pergunta de Leitora - Preparação




Sou casada, tenho 44 anos e estou infeliz no meu casamento. Tenho dois filhos, um de 20 e outro de 18 anos. Desde que casei sempre fui a perfeita dona de casa. Fui criada com a ideia de que mulher sem marido é infeliz e que tem que se dedicar para o seu lar. Assim fiz, mas hoje vivo um inferno. Meu marido me trai com várias mulheres e nem mesmo esconde os seus casos. Está ali no celular as conversas que ele tem com suas amantes. Quando eu descobri a primeira traição há anos eu o perdoei até porque eu não tinha o que fazer. Não trabalho, não tenho como me sustentar. Só que ele foi piorando e agora está impossível. Sou humilhada frequentemente. Sei que a separação depende só de mim, mas como não tenho meios fica impossível eu pedir o divórcio. Não tenho a quem pedir socorro. Estou sozinha. Até já pensei em me matar.


            A gente, para casar, deve se preparar. O casamento não deve ser uma coisa que acontece repentinamente e de maneira imprudente. É preciso primeiro conhecer o outro, perceber como é estar com o outro e decidir a partir daí se há um desejo verdadeiro de se estreitar mais a relação. Não fazer assim pode trazer inúmeros enganos que produzirão infelicidade. Assim como para casar é necessário uma preparação, para se separar também é.
            Ainda mais no seu caso que nunca cuidou de si própria. Apesar de ter cuidado da família e da casa, como você mesma disse, faltou aprender a cuidar de você. Hoje você está numa posição de dependência extrema. Em outras palavras está nas mãos de seu marido, que ainda por cima te humilha. Na verdade, com a primeira traição dele você não o perdoou de fato, mas parece que apenas ensaiou um perdão porque temia se separar e ficar só. Ao que tudo indica ele notou esse seu medo e sua dependência e foi abusando mais e mais até que virou esse relacionamento abusivo que você vive e do qual não sabe como sair.
            Não tem resposta fácil para o que você vive. Porém, antes de pensar numa solução é necessário que você resolva questões básicas da sua vida, muito anteriores a que vê no seu relacionamento hoje. Por exemplo, começar a cuidar de si. Precisa entender o que te levou a abandonar a si mesma para que retome ou inicie esse caminho. Sem essa compreensão nada mudará.
            Talvez você precise morrer mesmo, mas não concretamente, mas para essa vida que leva. A morte não precisa ser levada ao pé da letra, mas pode ser uma imagem para se pensar em morrer para a vida antiga e criar uma vida nova, com mais prazer e possibilidades. Que tal o recurso da análise? Nela você poderá “morrer” para aquilo tudo que não te serve nem te favorece e aprender a desenvolver novos recursos para lidar com sua vida de maneira mais eficiente. É você quem vai escolher o que vai fazer com a sua vida. Já está na hora de aprender isso.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Uma Visão Psicanalítica da Tragédia de Brumadinho




            Como não poderia ser diferente essa última semana só se falou na terrível tragédia de Brumadinho que levou muitas vidas, destruiu famílias e o meio ambiente. O poder de destruição desta tragédia é muito maior e mais amplo do que o número de mortos e desaparecidos ou dos aspectos econômicos que já vêm sendo contabilizados, mas atinge fundo em todos nós, na nossa condição humana. Para aqueles que sobreviveram, o rompimento da barreira criará uma marca que carregarão para sempre dentro de si. A vida nunca mais será a mesma. Alguns cairão num estado de mente sem volta de depressão. Podem estar vivos, mas por dentro estarão destruídos. Outros poderão se transformar e tal como a fênix dos mitos que sempre ressuscita das cinzas poderão refazer suas vidas.
            Para aqueles que tiveram a sorte de estar longe da tragédia ou que não tiveram amigos, conhecidos ou parentes dizimados, o acontecimento também traz dor. Menor, com certeza, mas também um sentimento de impotência e espanto. É o nosso país, são os nossos vizinhos e mais uma vez não aprendemos com os erros do passado. Não aprender com o passado sempre leva a repeti-lo, como nos ensina a psicanálise.
            Freud, criador da psicanálise, no famoso artigo de 1914 Recordar, Repetir e Elaborar nos mostra que quando “esquecemos” conteúdos importantes e marcantes de nossas vidas eles não deixam de existir, mas continuam influenciando a vida mental sem que percebamos. Acabamos repetindo os mesmos padrões e obtendo os mesmos resultados trágicos do passado. Assim, não crescemos e não desenvolvemos novos recursos para nos preservamos na vida. Isso tudo, é claro, estou colocando de uma maneira bem simplória e se refere ao funcionamento mental individual. Porém, a sociedade também tem uma mente que, infelizmente, vem repetindo os mesmos erros, sem aprender nada.
            Numa análise o analisando aprende a reconhecer quais “barragens” internas de seu psiquismo está para romper e pode com isso criar novos instrumentos para lidar com esse rompimento. Aprende a se preservar de novas tragédias, desenvolve recursos que antes não existiam, mas que agora o deixam mais fortalecido para viver e enfrentar a vida mental. Com as experiências passadas aprende a ser criativo, em direção ao novo, para que se viva outros resultados e pare de se repetir.
            Como não podemos colocar toda a sociedade, formada pelos políticos e cidadãos, no divã de um analista só resta mesmo cada um de nós, individualmente, se comprometer com o próprio desenvolvimento. Infelizmente, esperamos sempre que o outro, lá fora, seja desenvolvido, que faça o seu melhor, enquanto nós ficamos sempre a postergar o nosso crescimento. Enquanto persistirmos que o problema está apenas no mundo externo e nos outros a sociedade não tem o menor meio de se transformar para melhor. Continuaremos a chorar e sofrer. Concretamente, o “acidente” de Brumadinho poderia ser evitado, mas para isso todos precisamos desenvolver uma mente que crie recursos para nos protegermos dos rompimentos. Primeiro, cada um com os seus rompimentos internos, para depois isso se ampliar para toda a sociedade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Pergunta de Leitor - O Coração também precisa Falar




Como faço para ter coragem na vida? Tenho medo de tudo. De ficar pobre, de ficar doente, de perder meus pais, de ser assaltado, de não ter emprego, de bater o carro, de ser sequestrado, que o banco vá a falência e afunde minhas economias. Sério. Tenho medo de tudo isso, todos os dias. Há dias que imagino mais uma coisa e menos outra, mas é sempre nesse ritmo e não sei o que fazer para parar tudo isso. Queria ser corajoso, mas me sinto o maior covarde que conheço. O que posso fazer?

            Nos dicionários o significado de coragem é: firmeza de espírito perante perigos, riscos e situações emocionais difíceis.  A origem da palavra coragem vem do latim coraticum que deriva da palavra coração. É que antigamente acreditava-se que o coração fosse a sede da coragem. Não é à toa que o rei inglês Ricardo, tão conhecido nas lendas e histórias por sua coragem e ousadia, foi apelidado de Coração de Leão, um animal que tem fama de ser corajoso. Parece que no seu caso sobra muita mente e falta coração.
            Quando digo que sobra-lhe muita mente quero dizer que há um excesso de “pensamentos” que na verdade não são frutos de um ato de pensar, mas de um ato de alucinar. Alucinações não são tão somente para os “doentes mentais” trancados em hospícios. Uma pessoa saudável também pode alucinar, que no seu caso é se envolver intensamente com as suas fantasias e tratá-las como reais. Você sai da realidade e lida com aquilo que imagina. O medo não é da tragédia do que pode vir a acontecer, porém da tragédia que já está acontecendo quando você vê tudo o que imagina como se fosse real.
            A grande verdade é que podemos muito pouco nessa vida. Somos seres frágeis frente à um mundo perigoso e até hostil. A cada segundo corremos inúmeros riscos dos quais não temos como controlar. Tudo aquilo que você cita que tem medo pode, sim, acontecer, mas ainda não aconteceu e você nem tem ideia se vai acontecer. Fica tão envolvido e apaixonado pelas possibilidades do fim do mundo que deixa de viver o que pode ser vivido agora. Você está mais apegado à imagem do fim do mundo que a vida à sua frente.
            O porquê você vive assim não faço ideia. Aliás, viver não é bem a melhor palavra porque isso não é vida. Ter coragem não significa não ter medos. O “coração” sabe que há perigos e riscos, mas mesmo assim vai em frente e faz o melhor que pode. Ser corajoso é ter medos, como qualquer pessoa, mas é também não ficar imobilizado pelos medos. Que tal investigar a razão de você se envolver mais com suas alucinações do que com sua vida? Para descobrir essas razões precisará do saber que a análise pode te proporcionar para assim poder abandonar as suas alucinações e viver verdadeiramente.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Análise de Filme - Bird Box




            O filme Bird Box da Netflix (2018) ganhou bastante popularidade movimentando as conversas nas redes sociais. Basedo no livro homônimo conta a história assustadora de seres, que não se sabe o que são, que espalham puro terror entre as pessoas levando-as ao suicídio. Quem vê essas criaturas ficam imediatamente enlouquecidas e procuram se machucar com tanta intensidade que o resultado é fatal. Esse terror foi se espalhando pelo mundo inteiro, tal qual uma praga, e ceifando inúmeras vidas. Ninguém sabia o que fazer para combater esse mal e só sobreviviam as pessoas que ficavam dentro de casas com janelas tampadas (sem nenhuma visão) ou que saiam às ruas com vendas nos olhos.
            As pessoas precisavam resistir à tentação de não olhar, de não retirar as vendas. Quem olhasse estava condenado. Os sobreviventes ficavam, então, sob uma pressão e alerta muito grandes para não correrem riscos de olhar o que não podiam, o que não eram capazes de tolerar. Bird Box em inglês significa caixa de pássaros e a história tem esse nome porque as pessoas se valiam de caixas e gaiolas com aves pois elas pareciam ser capazes de perceber, com certa antecedência, a presença dessas criaturas que levavam à loucura. Batendo as asas assustadas elas avisavam os humanos que estavam em perigo, tornando possível se proteger.
            As criaturas não ofereciam nenhum outro tipo de perigo, ou seja, não atacavam, não derrubavam, não mordiam, não tiravam as vendas de ninguém. Elas só não podiam ser vistas. Como aquilo que é proibido é sempre tentador, se segurar para não olhar era tão assustador quanto as consequências de olhar e enlouquecer. No filme, algumas pessoas até conseguiam ver os seres e não enlouquecer imediatamente, mas enlouqueciam aos poucos e violentamente obrigavam os sobreviventes a olhar para aquilo que os levaria a morte.
            Penso que esse filme fez sucesso porque mexe com coisas internas de nossa mente, sobre verdades psíquicas. A psicanálise nos oferece uma chance de entender outros sentidos que não apenas aqueles que estão escancarados, mas de encontrar outros significados que subjazem nas entrelinhas. Psicanaliticamente, podemos pensar que todos carregamos “criaturas” dentro de nós que se vistas de qualquer maneira, sem cuidado ou preservação, podem nos enlouquecer. Há dentro de cada um de nós um potencial para a destruição própria e dos outros. Se não resistimos e nos entregamos à loucura o final será sempre trágico.
            O mundo que vivemos está simbolicamente, e em alguns casos até literalmente, como o mundo que é mostrado no filme. Caótico, cheio de gente enlouquecida, cheio de riscos que não estamos percebendo que está se propagando. Não conseguimos resistir e nos entregamos ao que há de pior em nós. A caixa de pássaros que os personagens usavam sugere seguir mais a intuição, a “natureza” interna para nos preservarmos dos perigos. Estamos perdendo contato com essa caixa de pássaros simbólica, que é a consciência de nossas emoções e sentimentos que nos permite andar por esse mundo louco com certa segurança. É também tolerar aquilo tudo que nos bestializa sem que precisamos nos bestializar. Em resumo, é não soltar a venda e olhar para aquilo que nos pode destruir.
            O filósofo Nietzsche escreveu: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você". O que precisamos é aprender a lidar com os nossos monstros internos, sem se deixar influenciar por eles. Sem enlouquecer junto com eles. O filme mexe conosco porque nos convida a lidar, de maneira eficiente, com o terrível dentro de nós, de forma que nos permita sobreviver até chegar um momento onde possamos olhar sem medo de que algo sinistro nos olhe de volta.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Pergunta de Leitora - Dose de Realidade e Pés no Chão




Tenho transtorno limítrofe diagnosticado. Conheci um rapaz também limítrofe pela internet que está num relacionamento insatisfatório. Ele disse que o início era fantástico, mas com o tempo ela foi ficando fria, ausente, desinteressada, cansada, disse estar sufocada. Ele me mostrou uns prints em que dizia amá-la, ela visualizou e não respondeu.
Acontece que no início de nossas trocas de mensagens eu até dei conselhos para ele ser paciente, compreensivo, romântico, fazer surpresas e tentar aprender mais sobre ela... Agora eu me vejo obcecada por ele, sim, obcecada pela atenção! Tanto é que eu ficava relendo nossas mensagens para eu reviver as mesmas sensações inúmeras vezes. Eu até fiz a bobagem de dizer que SE ele decidisse dar outro rumo para a relação dele eu poderia ir até ele. Eu não iria! Não por não querer, mas não poder. Estou bem adoentada, com problemas de saúde, vou constantemente a médicos, faço exames e sigo tratamentos que me fazem ficar presa a uma rotina.
Estou em dúvida se ele a ama. Ele já sinalizou que não a ama tanto assim. Disse que o melhor momento do dia dele é conversar comigo, que não trocaria minha companhia por nenhuma outra dentre tantas bilhões de pessoas no mundo. Algumas vezes ele parece amá-la: disse que mesmo ela sendo fria, ignorá-lo, rejeitá-lo, gosta dela (tudo isso ele falou), que se ela deixá-lo ele irá se suicidar...
Não consigo raciocinar direito, minhas energias estão voltadas para esquecê-lo, para desprezá-lo e para entender se ele a ama.
Não estou apaixonada, estou sem autocontrole de meus pensamentos e emoções; criei muito apego por ele por minha vida ser solitária, monótona e vazia. Eu estou sem psicofármacos e sem terapia, não há ninguém que possa clarear minha mente. Racionalmente eu sei que estou adicta, que agora que me afastei dele, estou sofrendo a abstinência. Emocionalmente sou estúpida por não saber modular minhas emoções.
O que poderia me dizer a respeito disso?


            Parece-me que você mesma já sabe sobre a situação em que você se encontra. Você reconhece não amá-lo, mas que lhe é prazeroso a atenção que recebe dele. Que está viciada nas conversas, tanto que lê e relê como forma de procurar sensações prazerosas e com isso cria toda uma história de amor ilusória. Ainda mais porque você não tem interesse real em viver nada com ele. Por mais que seja por causa de sua rotina, como você explicou, acredito que tem a ver com o fato de você entender que é uma história muito complicada e com pouca verdade.
            Não estou desmerecendo tudo o que você está sentindo por ele, porém você mesma diz que não está apaixonada, que o que sente é obsessão e que essa “relação” está lhe servindo para tapar um pouco a carência que você sente. Em outras palavras você o está usando. Ele também está te usando, por sua vez, para cobrir as próprias carências. É tudo lindo e maravilhoso nas conversas, mas fica-se só nisso e nem você nem ele acreditam muito no que estão vivendo tanto que ele diz que não pode deixar a namorada e você sabe que não iria até ele.
            A questão passa a ser outra. A verdadeira questão que você traz é o seu tratamento, a sua melhora e seu desenvolvimento. Você está sem remédios e sem psicoterapia por que? Se você sabe o quanto isso tudo lhe é importante então não está cuidando disso por que razão? Quanto mais você se deixa de lado mais vai se enchendo de fantasias, mais vai se enganando, mais vai deslocando a questão de você para algo externo. Não é assim que você vai conseguir se ajudar.
            Agora, é necessário uma boa dose de realidade e pés no chão para fazer o que precisa ser feito: Cuidar-se de verdade. Quanto mais adiar essa tarefa menos vida terá. Precisará de um acompanhamento médico para acertar os medicamentos e de um acompanhamento psicoterapêutico para aprender a utilizar a sua mente de uma maneira que lhe seja mais favorável. Dói a gente se voltar para si e se organizar, mas é um trabalho fundamental para quem quer viver de verdade. Que tal pensar nisso?