sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pergunta de Leitor - Adaptações




Tenho um tio que se revelou um verdadeiro mau caráter com minha tia. Eles foram casados por mais de 40 anos e aos 64 ele se revelou homossexual. Ate arrumou um amante. Jogou fora um casamento de anos, envergonhou os filhos e netos. Ele disse a minha tia que sempre souber que era gay, mas só agora resolveu se assumir. Isso para mim é ser sem vergonha. Por que não revelou antes? Por que agora no fim da vida vai ser corajoso deixando minha tia infeliz? Não tenho nada contra os homossexuais, mas esses tipinhos fazem muito mal. Como ajudar minha tia e a família dela se recuperar depois desse choque?


            É perceptível a sua raiva e frustração com esse tio. Você também ficou chocado e abalado com o fato de ele se assumir homossexual. Não é mesmo uma situação fácil e confortável, porém não precisa ser o fim do mundo por pior que seja para você e sua família. Procurar compreender a sua raiva frente à tudo isso é importante para que você possa vir a se libertar dela. Hoje você está preso na decepção e ódio.
            Quando o ódio predomina fica-se o julgamento. Você julga e condena seu tio. Não me cabe dizer se o que seu tio fez foi certo ou errado, bom ou mal, até porque a vida não funciona tão simples assim. Julgar e condenar a atitude de alguém é relativamente fácil, mas não é verdadeiro. E no julgamento a gente tende a ver as coisas muito achatadas e planas e nunca em toda a sua forma. Em outras palavras, quando estamos dominados pelo sentimento de ódio nossa visão fica limitada.
            Obviamente que pode ser mau caratismo de seu tio, só que pode ser também que nada tenha a ver com isso. Não sei o que se passa com ele, mas uma hipótese possível é que ele deve ter lutado muito para abrir mão do ideal de homem que acreditava que tinha que ser para aceitar vir a ser o homem que de fato é. Essa luta deve ter levado anos até que por fim ele pôde ser quem é. E talvez por não poder contar com muitos anos de vida pela frente percebeu que não tinha mais tempo a perder. Sei que tudo isso pode lhe soar muito ruim, mas será que ele deveria se condenar até o fim da vida por algo que não fizesse mais sentido? Não dá para ninguém decidir o que seria ou não melhor para o outro.
            Sua tia e família terão que enfrentar o que ocorreu e se reinventar. Não precisa ser uma sentença de morte. Contudo, como essa adaptação se dará dependerá de como cada um irá lidar com o que sente. Você, por exemplo, deve ter tido a família deles como um modelo, um ideal. Quando essa família não era o que você pensava você teve seus ideais destruídos e daí que, provavelmente, veio o ódio. Você terá que também se refazer abrindo mão do ideal de família que alimentava para viver a família que é possível. Refazer-se é sempre trabalho duro, mas que vale a pena pois nos torna mais humanos.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Como atrapalhamos nossas Vidas




            Há inúmeras formas de atrapalharmos nossas vidas e uma delas é quando alimentamos ideais sobre como nós deveríamos ser. É imenso o numero de pessoas que decidem que devem ser de um jeito ou outro, criam uma fantasia sobre isso e terminam atrapalhando a própria vida. Por exemplo, uma pessoa que crê que tem que ser boa terá imensas dificuldades quando sentir ódio. Vai acabar se sentindo muito mal e um fracasso porque não conseguirá conceber que uma pessoa boa possa sentir ódio. Como se fosse humanamente possível não sentir ódio. Portanto, nos atrapalhamos muito quando sustentamos ideais sobre como acreditamos que devemos ser.
            Vejo frequentemente que as pessoas tentam viver uma ideia e não o seu lado humano. As ideias são muito mais valorizadas e prezadas do que a realidade. Isso causa um sofrimento porque não temos como ser as ideias, mas só podemos ser nós mesmos, dentro de nossas condições. As ideias são como castelos construídos em pleno ar, ou seja, sem sustentação alguma. Podemos alimentar qualquer ideia sem que ela tenha base na realidade, porém a vida não funciona assim. Qualquer pessoa, seja ela boa ou não, terá momentos que sentirá ódio e isso não significa que ela fracassou, apenas indica que ela é um mero ser humano.
            Quando um pai ou mãe diz para os filhos jamais sentirem medo e que eles têm que ser corajosos atrapalha muito o desenvolvimento dos filhos. Isso ocorre porque é impossível não sentir medo. Não há como não sentirmos, uma hora ou outra, medo. E não há nada de errado em sentir medo, é uma ideia equivocada e danosa condenar o medo que é uma emoção humana. Isso não é feio ou errado ou sinal de fraqueza. É humano. Coragem não significa não sentir medo, mas não se deixar paralisar por ele. Se abandonarmos a ideia de que não podemos sentir medo, podemos viver o possível e assim lidar com o medo.
            Perdemos muito tempo e vida procurando ser assim ou assado e pouco tempo em aprender a viver da melhor forma possível. Atrapalhamos o que podemos vir a ser de fato em prol de uma fantasia de como deveríamos ser e sentir. Contudo, não há crescimento sem aceitação de nossa condição humana. Aliás, não há saúde possível sem aceitação do que somos. Quanto mais brigamos com nossa natureza mais doenças, mal estar e sofrimento criamos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pergunta de Leitor - A Dor e o Suicídio




Por que alguém se suicida? Não consigo tirar essa pergunta da minha cabeça. Tenho 21 anos, sou universitário e curso psicologia, no entanto não entendo o porquê alguém se mataria. Estou com essa pergunta tão intensa em mim devido ao fato de um colega meu da faculdade ter se matado. Parecia que ele tinha tudo, que nada faltava e que a vida dele era boa. Então, por quê? O que leva ao suicídio? Preciso ver um sentido.

            O suicídio de alguém próximo nos afeta violentamente. É um baque que nos deixa atordoados e perdidos. Entendê-lo é difícil já que para a lógica racional não faz sentido nenhum, mas para o suicida, que está cego pelo o que vem sentido, parece ser a única via possível. Viver não é fácil porque significa ter que viver com os prazeres (sem problema algum aqui) e as dores e sofrimentos que fazem parte da vida. Quando o sofrimento é mais forte que a mente que pode pensar o suicídio pode ocorrer.
            Para a dor física e orgânica a medicina nos fornece muitos meios para nos aliviar. E quanto a dor mental? Mesmo os remédios psiquiátricos mais modernos são apenas paliativos que não resolvem de fato o nosso sofrimento. A única maneira para lidarmos com nossos sofrimentos psicológicos é construir uma mente. É desenvolver um aparelho psíquico que nos possibilite pensar sobre nossas dores e transformá-las. Mas para isso acontecer é necessário tolerância para suportar as ansiedades e paciência para que se vá formando uma mente mais desenvolvida. Algumas pessoas ficam tão desestruturadas com as angústias que sentem que acabam enlouquecendo com tanto sofrimento.
            Segundo a Organização Mundial de Saúde três mil pessoas no mundo inteiro cometem suicídio diariamente. Os motivos para o suicídio são vários: desde ter sofrido uma grande humilhação, experimentar uma dor que se sente insuportável, vingança, autopunição e muitos outros. O que é comum entre eles é o fato de não ser possível ver outras maneiras de se lidar com o que se sente a não ser morrendo. O suicida crê falsamente que ao se matar vai acabar com o sofrimento que sente, mas ele já não está mais pensando, está atuando o seu desespero. O seu “eu” fica tão despedaçado com o sofrimento que sente que não consegue mais se preservar.
            O suicida vive um conflito perigoso entre a vontade de viver e a vontade de “matar” o seu sofrimento. Nesses momentos, quando a mente fica quebrada por esse conflito, pensar sobre o que está se sentindo e criar mecanismos eficientes para se lidar com a dor fica muito difícil. Nessa loucura o único caminho que parece fazer sentido é procurar a própria morte, o fim de tudo. Quando há a possibilidade de se perceber esse funcionamento a tempo pode-se ir trabalhando para transformar essas ideias enganosas em outras mais produtivas. Tristemente, para algumas pessoas não houve esse tempo. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Tempo Ruim




            Nem sempre a vida contará com céus azuis e tempo propício. Muitas serão as vezes que nuvens escuras e carregadas surgirão e trarão tempo ruim e tempestades. Não controlamos o tempo e só nos resta nos adaptar o melhor possível às condições externas.  É como vamos responder ao que nos acontece que ditará a qualidade de nossa vida.
            Por pior que seja uma tempestade, suas nuvens pesadas, chuvas torrenciais, raios e trovões, o céu azul continua a existir acima disso tudo. Apenas não conseguimos enxergar. Durante a permanência do tempo ruim achamos que tudo virou uma bela porcaria e que nunca mais teremos tempo bom novamente. Quando ficamos identificados com nossos problemas, dores e dificuldades, nos tornamos perdidos e sem esperanças. Esquecemos que as nuvens de tempestades passam.
            Aceitar, de bom grado, que o tempo está sempre mudando nos possibilita ser feliz. Quando achamos que precisamos ter céu azul toda hora para estarmos bem, estamos desejando o impossível e ninguém tem como ser feliz quando deseja o impossível. A virada do clima é parte da vida e que está alheio ao nosso controle. Aquilo que não temos poder para mudar só resta mesmo aprender a aceitar.
            Para estar bem e feliz dependemos muito mais da maneira que vamos reagir ao que nos acontece e não depende tanto só vivermos apenas dias ensolarados. O que vamos fazer conosco nos dias chuvosos? Como vamos viver essa experiência? O que aprendemos com as tempestades que nos acometem? A felicidade recai mais sobre o que fazemos com nossas experiências do que em fatores externos. Quem sempre necessita de céu azul para ser feliz está fadado a viver continuamente com medo do que o tempo vai trazer.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Pergunta de Leitora - Autoestima não é Vaidade




Tenho sérias dúvidas sobre autoestima e vaidade. Acho que todos devem ter uma autoestima, mas ao mesmo tempo tem que coloca-la sobre controle, senão vira uma vaidade. Quando a autoestima vira vaidade a pessoa fica insuportável e se achando melhor que todo mundo. Qual a linha limite entre autoestima e vaidade? Como podemos ter uma autoestima boa sem correr o risco disto virar uma vaidade? Tenho medo de estar trabalhando minha autoestima e estar, na verdade, incorrendo no puro orgulho.

            Autoestima e vaidade são duas coisas completamente diferentes e não tem como uma se transformar na outra. Autoestima deriva de um olhar saudável e humano que se pode ter de si mesmo, enquanto vaidade é uma forma de compensação ou mecanismo de defesa. Infelizmente, essas duas coisas são frequentemente confundidas, o que causa muito estrago.
            Na autoestima o que existe é a pessoa se permitir gostar de si mesma, respeitar seus limites e aprender com as experiências de vida. Quando uma pessoa é capaz de gostar de si mesma de forma honesta ela saberá se preservar bem melhor. Não aceitará qualquer relacionamento apenas por aceitar ou por medo da solidão, mas entenderá quais relacionamentos lhe fazem bem e os alimentará. Entenderá que não é melhor que ninguém, mas também verá que não é pior. Será mais justa consigo e por tabela com os demais. Para se ter uma autoestima é preciso um trabalho interno que vai ocorrendo à medida que a pessoa vai se autoconhecendo e se desenvolvendo. Ninguém nasce com uma boa autoestima. Ela precisa ser construída, desenvolvida e preservada.
            Já na vaidade o que acontece é a pessoa acreditar em falsas suposições de que é melhor do que os outros porque se possui determinadas características. A base da vaidade é sempre a comparação. O problema da comparação, em termos que concerne os aspectos pessoais, é que estabelece uma hierarquia de valores. Assim, se uma pessoa não tem uma determinada coisa é considerada menor ou com menos qualidade. Há inúmeras pessoas que precisam se cercar de coisas boas e belas não porque sabem apreciá-las, mas justamente porque vão se achar melhor desta forma. É triste constatar que um bom número de pessoas precisam ter isso ou aquilo senão se sentiriam por baixo.
            Então podemos ver que a autoestima depende do mundo interno e a vaidade do externo. Para a autoestima o que importa é o que é desenvolvido e preservado no interior de cada um e para a vaidade o quanto se possui, externamente, daquilo que é considerado desejado. Na vaidade a preocupação está sobre em se possuir o que é desejado pela grande maioria e na autoestima em descobrir o próprio desejo. Estas duas coisas até podem ser confundidas, porém compreender as suas diferenças é o que nos permite seguir o melhor caminho. E o melhor caminho é sempre aquele que nos transforma numa pessoa melhor.