sexta-feira, 20 de março de 2015

Pergunta de Leitora - Mãos na terra


Sei que posso ser feliz, sinto isso. Só não sei como. Tenho bons recursos tanto financeiros quanto internos para ser feliz, mas de algum modo sinto que me desperdiço. Não sei por que e como isso acontece. Só sei que é assim. Me zango muito facilmente com as coisas e com as pessoas, você não faz ideia, mas sinto e sei que tenho um bom coração. Não sei expressar todas as coisas boas que tenho, e isso me assusta muito, só sei que o que acaba por aparecer é meu lado feio. Como mudar tudo isso? Como ser feliz de fato?

            A felicidade, ou seja, o bem estar psíquico pode estar ao alcance, mas o que impede que seja alcançada são os obstáculos que muitas pessoas colocam em seu caminho. Você expressou isso quando compreende que pode ser feliz e que tem condições para tal, mas sente que algo em você impede isso de acontecer.
            Nessas horas precisamos nos interiorizar, nos voltar para a nossa própria história para entender como as coisas estão como estão. Quais são os obstáculos que erguemos e com que finalidade? Resposta que só poderá ser encontrada quando se ousa deixar o inconsciente falar. Sim, porque é o inconsciente que devemos buscar para trazer luz sobre o que nos impede de estar bem. O que você quer é a análise, é aprender a se escutar para se entender.
            Você sabe que internamente há coisas boas, porém não consegue ter acesso a elas ou pelo menos o acesso que possui é muito precário. Zangar-se facilmente e se aborrecer é certamente uma baixa tolerância a frustração. Você quer evitar tudo aquilo que lhe causa desprazer, quer se livrar do trabalho que é pensar sobre as experiências de vida e transformá-las em algo proveitoso para a sua evolução. Você quer crescer, mas sem ter muito trabalho. Deseja uma colheita farta só que não quer mexer na terra.
            Ao aprender a aumentar o nível de tolerância à frustração poderá refletir mais sobre si mesma e terá mais condições de se expandir. Não ficará mais empacada na posição da ignorância que é não poder utilizar seus recursos para o seu crescimento. Você já assumiu que não sabe o que lhe acontece e isso é bastante favorável, pois quem assume que não sabe abre espaço para a construção de um saber. Procure ajuda para se ver livre e usar suas potencialidades de forma mais sábia e proveitosa. A vida é preciosa demais para não sermos felizes e a liberdade nunca vem gratuitamente, mas apenas como resultado de todo um trabalho. 

segunda-feira, 16 de março de 2015

A Garrafa Continente


            Todo mundo precisa aprender a se preservar dos próprios impulsos. Aprendemos isso desenvolvendo e criando recursos que permitem que nossos impulsos possam ser contidos e não precisem ser atuados. O grande problema de se atuar um impulso, ou seja, de ceder a ele, é que os impulsos não são material proveniente do pensamento, mas das nossas reações mais primitivas. O ódio, por exemplo, é um impulso existente em todos nós, mas se agirmos quando estamos dominados pelo ódio é muito provável que meteremos os pés pelas mãos e que sairemos prejudicados.
            Impulsos são emoções primitivas e devemos sempre nos preservar delas. No entanto, para se conseguir isso se faz necessário uma mente que tenha sido desenvolvida. Esse desenvolvimento se dá através das experiências de vida e das relações humanas de qualidade. E quando o aparelho mental pode ser cultivado e enriquecido isso serve como um continente, algo que tem a capacidade de conter, como uma garrafa que contém algum líquido que colocamos nela. A garrafa não só contém como também preserva o seu conteúdo.
            Essa garrafa/mente pode então fazer com que o conteúdo, que são basicamente nossos impulsos, pelo menos numa primeira etapa da vida, sejam contidos e não se derramem causando estragos. Uma mente fortalecida nos oferece contenção e permite que nossos impulsos não necessitem ser atuados, mas que possam permanecer dentro de nós para serem pensados e elaborados. Enfim, se aquilo que sentimos puder ser acolhido para ser trabalhado não precisaremos mais reagir impulsivamente e nos preservaremos.
            Por outro lado, uma garrafa quebrada não pode conter nada e todo o seu conteúdo se esvai. Uma garrafa que contenha ácido, se quebrada trará sérios danos e uma mente cheia de conteúdos ácidos e perigosos se não conseguir se conter permitirá que nós atuemos emoções primitivas e potencialmente prejudiciais. Quantas substâncias virulentas já não deixamos escapar causando graves prejuízos porque não tínhamos internamente uma “garrafa” que contivesse o que sentíamos? Devemos refletir mais sobre isso.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Pergunta de Leitora - Não só uma maneira



Sou seguidora do pensamento oriental que acho bem mais evoluído. Se todos entendessem e praticassem o budismo e o hinduísmo o mundo seria bem mais justo, porque saberiam da existência do carma e que na próxima vida teriam que pagar pelo o que fazem nessa. Quero sempre viver um bom carma para que numa próxima vida eu tenha uma vida melhor. O carma é assunto sério e entendê-lo é a única via possível para se estar bem na vida. Você não concorda? O que acha de se estabelecer a sabedoria oriental nas escolas como disciplina obrigatória? As crianças seriam educadas de forma bem melhor.

            As pessoas são diferentes uma das outras e o que serve e encanta uma determinada pessoa não necessariamente servirá e encantará outra. Por isso mesmo os caminhos são vários e querer estabelecer apenas uma única via é perigoso e empobrecedor. Assim começam as ditaduras e o pensamento dogmático. A variedade é sempre a melhor opção.
            O pensamento oriental é riquíssimo e quando pensado de forma não dogmática tem muito a nos ensinar. No entanto, a sabedoria do oriente não pode ser visto como remédio universal, aquele que dá fim em todos os males e que tem todas as respostas. Acreditar que algo tem a cura mágica para tudo é ilusão e esta não tem nada a ver com a realidade e só podemos viver a realidade.
            Na parte oriental do mundo também há injustiças e cenas tristes. Não é um mar de rosas como seria de se esperar. Ter uma sabedoria e por outro lado vivê-la são coisas diferentes e em muitos casos a diferença entre as duas é um abismo. Entretanto, o mundo não será um lugar melhor trocando uma coisa por outra, mas apenas a medida que as pessoas puderem modificar seus pensamentos e viver de forma mais amorosa. Só que isso não se dá através do dogma e também nem se dá rapidamente.
            Quanto ao conceito de karma ele é muito mal compreendido. Karma quer dizer ação, ou seja, somos responsáveis por nossas ações nessa vida mesmo, dentro da nossa realidade. Somos responsáveis sobre o que fazemos conosco e com os outros, pois toda ação sempre causa uma reação. O conceito de karma leva a importância de estarmos atentos ao que fazemos e não agir apenas por impulsos, leva a que refinamos nossas ações. Na linguagem psicanalítica seria dito deixar um estado de inconsciência para um de consciência. Em si não tem nada a ver com outra vida, mas com o que fazemos nessa que é a nossa realidade em que de fato vivemos. Quando um conceito encontra a realidade aí sim pode haver algo fértil e verdadeiramente transformador. Conceitos sem realidade ficam apenas na teoria.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A Arte da Apreciação


            Na internet há uma matéria sobre um grupo de pessoas que investem em artes, pois as artes são seguras e não perdem o valor. São pessoas possuidoras de Picasso e Van Gogh e muitos outras obras primas, mas o que me chamou a atenção é que elas eram incapazes de admirar a beleza artística dessas obras. Nas suas próprias palavras disseram que nem queriam saber do que as obras se tratavam e de suas histórias. Essas pessoas apenas compram grandes obras primas como um seguro financeiro e jamais por gosto. Há uma cisão nelas entre a capacidade de apreciar a arte e o pensamento racional de se usar a arte.
            Apreciar arte exige um tipo de compromisso que tem a ver com a entrega das emoções, é se deixar tocar por aquilo que é belo e que nos desperta algo. É se envolver emocionalmente com algo. Há pessoas incapazes deste ato, pois elas temem o envolvimento emocional. As emoções ao mesmo tempo que encantam também podem trazer sofrimentos e essas pessoas querem, a todo custo, evitar o sofrimento e por isso mesmo realizam uma cisão entre o que sentem e o que pensam. Assim, elas acreditam estarem se protegendo de um possível sofrimento.
            Não conseguir apreciar uma peça de arte não é problemático, já pode ser questão de costume, ignorância ou até mesmo falta de gosto. O problema é quando há uma cisão nos relacionamentos dessas pessoas. Sendo este o caso os relacionamentos ficam empobrecidos e não servem para tornar a vida mais prazerosa e bela. A vida, para quem usa intensamente da cisão, é apenas um jogo e no jogo o objetivo é sempre ganhar. Há perda de vida, pois não há espaço para o aprendizado que vem das emoções.
            Ficar cindido dá uma falta sensação de segurança, há a idéia de que quem não se deixa tocar por aquilo que sente não irá quebrar a cara com frustrações. O único problema e furo nessa teoria é que essas pessoas já vivem frustradas. A frustração delas é o medo que têm de viver. Transformam o que poderia ser uma experiência vital em algo meramente burocrático. É como esse grupo de investidores de artes. Têm um Van Gogh, mas são incapazes de sentir  e viver algo além de suas cifras econômicas que podem ser mensuráveis pelo pensamento exclusivamente racional.