sexta-feira, 6 de março de 2015

Pergunta de Leitor - Não imortal, mas infinito


Tenho 49 e estou separado há dois anos. Conheci uma mulher de 33 anos e nos apaixonamos. Tenho medo de parecer ridículo ao amar uma mulher tão mais jovem. Alguns dizem que isso é crise da meia idade. Não quero que me confundam como pai dela ou que pensem que ela está comigo apenas por interesse. Nos amamos mesmo, pelo menos é assim que sinto. Fico com medo de viver esse amor publicamente. Meu primeiro casamento foi um terror, só brigávamos e não existia nenhuma concordância entre nós. Eu sonhava uma coisa e ela outra ou nem sonhava para dizer a verdade. Agora tenho uma chance de ser feliz no amor, mas por quanto tempo? Nossa diferença de idade é de 16 anos, logo fico velho e se ela não quiser mais nada comigo? Não sei também se não a estou condenando a viver com um velho e que ela ainda não percebeu a gravidade disso tudo. O que fazer?


            Você sabe o que fazer, mas o que te impede é o medo. O medo pode ser algo bom quando nos protege e quando nos preserva, porém quando ele nos imobiliza não serve para nada. Quem tem medo e se entrega a ele sem nenhuma reflexão se impede de viver experiências importantes. Há momentos em que o medo deve ser superado.
            Hoje você encontrou alguém para sonhar com você, mas tem medo de viver essa experiência porque isso pode parecer ridículo. Ora, ridículo é nunca viver o amor quando ele se apresenta. O bonde do amor está passando na sua frente e cabe a você tomar uma decisão se o pega ou não. Não são todos que tem a sorte desse bonde passar. Tem certeza de que pode deixá-lo partir sem embarcar?
            No seu relacionamento anterior você viveu um experiência que te mostrou a importância de se estar em concordância com a parceira, de se sonhar junto e de se deixar tocar por um sentimento verdadeiro. Você não viveu isso no relacionamento de antes, mas sente que pode viver agora. Se vocês dois concordam com o que vivem quem é que pode contrariar o desejo de vocês? É exatamente esse o ponto. Você vai se contrariar como viveu com a primeira mulher ou vai se dar uma nova chance? Quem vive contrariado vive adoecido. Está na hora de buscar a cura.
            Quanto a você achar que sua amada não sabe no que está se metendo, bem, não cabe a você decidir por ela, afinal ela já tem 33 anos, ou seja, não é mais uma menina boba, mas uma mulher que pode tomar suas próprias decisões. Não confunda amá-la com cuidar dos interesses dela. Deixe que ela tome o caminho que quiser. Já a duração desse amor não há como prever e nem precisa dessa previsão. O amor não é contado em tempo, até porque ele desconhece o tempo, pois quem ama acredita na eternidade. Vinicius de Moraes entendia isso muito bem já que no seu Soneto de Fidelidade escreveu: Eu posso me dizer do amor: que não seja imortal, posto é chama, mas que seja infinito enquanto dure.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ódio Coletivo


            Vemos várias manifestações ocorrendo Brasil afora demostrando o desagrado com decisões políticas bastante prejudiciais. Greves, passeatas, panelaços estão ultimamente na pauta de muitas cidades. Isso tudo é bom quando é fruto realmente de um movimento que tem por objetivo defender os interesses públicos e trazer melhores condições de vida. O problema acontece quando no meio dos motivos justos surge a possibilidade de realização de um ódio coletivo. Aí a coisa descamba e perde a razão de ser.
            Quando a manifestação passa a ser uma quebradeira o que está ocorrendo não tem nada a ver com democracia e luta por melhorias, mas está relacionado simplesmente com o sentimento de ódio. Um grupo funcionando movido por ódio não consegue mais pensar, ficando apenas com reações primitivas e destrutivas. Nesses grupos o ódio individual de cada membro é “juntado” transformando-se num ódio coletivo. Essas transformações são muito prejudiciais e não têm mais objetivos que não seja a manifestação dos impulsos agressivos.
            Infelizmente muitas dessas demonstrações de ódio coletivo são revestidas com propósitos legítimos, ou seja, parece que estão a serviço de uma luta justa quando na verdade nada mais são do que um meio para que os impulsos agressivos encontrem satisfação. Saber diferenciar um grupo do outro se faz importante e compreender o que se está sentindo ao participar de um destes grupos é primordial. É sempre vital saber o que realmente nos move.
               As pessoas e grupos mobilizados pelo ódio se auto enganam crendo que suas demandas são justas e reais. Entretanto, esse engano é apenas uma desculpa para exteriorizarem as suas más condições mentais. Esses movimentos elegem inimigos facilmente, que são frutos de suas projeções e veem a destruição como a suprema solução para todos os problemas. Pois é, manifestar dignamente a indignação e lutar por justiça demanda uma mente desenvolvida. Para a nossa tristeza mentes desenvolvidas são artigos raros e com isso o que restá é o ódio puro, cru e empobrecedor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Pergunta de Leitora - Quem não tem cão caça com gato


Quero ser psicanalista. Sempre gostei de tudo relacionado a mente. O problema é que sou pobre e não tenho dinheiro para fazer uma análise. Sei que para ser psicanalista é preciso fazer análise, mas como fazer não tendo dinheiro? Quem faz análise é rico e não tem nenhuma preocupação financeira. Fazer análise é para rico e ser psicanalista também. Isso tudo me deixa muito frustrada e um pouco desanimada com a vida. O que eu quero não posso ter e o que tenho não me satisfaz. Sei que posso ser uma boa psicanalista, não quero parecer orgulhosa, mas sei que tenho talento para isso, mas não tenho condições. A psicanálise é muito elitista. Só a elite pode ter acesso. O que posso então fazer?

            O foco da sua atenção está todo centrado na questão financeira e pouco voltado às suas condições. Você fala como se ter dinheiro definisse tudo e mais nada estivesse em jogo. A questão não se trata de ter dinheiro ou não, mas de você se permitir trilhar o caminho.
            Dinheiro e auto-valorização parecem ter se tornado sinônimos para você, o que é prejudicial. Há pouca auto-valorização em você e atribui isso ao fato de não possuir dinheiro. Há um ditado que diz Quem não tem cachorro caça com gato, e se faz necessário você entender o que isso significa. É inegável que dinheiro traz certos confortos, porém o que vai te possibilitar caminhar não é o dinheiro, mas a sua disposição para caminhar.
            Na sua frase “o que eu quero não posso ter e o que tenho não me satisfaz” mostra o quanto você desconsidera a sua capacidade de poder aproveitar o que tem. Se você não se permite se satisfazer com sua própria mente fica mesmo difícil trilhar qualquer caminho que seja. Você mesma disse o quanto sabe que pode ser uma boa psicanalista, então por que não utilizar isso e trabalhar com o tempo para que as coisas aconteçam? Crie condições para se tornar aquilo que acredita. Lamentar e se fazer de vítima não te ajudará nisso.
            O que torna alguém psicanalista não é só o fato de fazer análise, mas quando se usa a própria mente para se pensar a angústia. Não ter dinheiro lhe é sentido como angústia.  Em vez de se imobilizar por isso é preciso pensar sobre isso e criar condições para que isso não continue a ser um problema. Hoje você está identificada com a posição da vítima, sente pena de si mesma. Enquanto não passar à posição de sujeito nada mudará. Assim que for possível poderá fazer sua análise. Use o tempo a seu favor e não como seu inimigo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sinal de Alerta


            Um mês atrás no concurso de miss Amazonas vimos um cena muito triste e que deveria nos acender um sinal de alerta. As duas finalistas estavam aguardando o anúncio do resultado e quando este foi feito a candidata que ficou em segundo lugar primeiramente cumprimentou a concorrente, mas passado um minuto ela volta até a vencedora e violentamente retira-lhe a sua coroa, machucando-a e gritando que ela não merecia e que havia comprado o júri. Algumas pessoas ficaram escandalizadas com esse ato enquanto outras aprovaram e até aplaudiram.
            Que triste é ver o quanto está faltando nos indivíduos uma mente continente que dê conta de pensar verdadeiramente. Essa candidata que perdeu não conta com uma mente desenvolvida que lhe permita pensar e avaliar as suas atitudes. O que ela conhece são apenas reações mais primitivas à frustração que sente. O problema é que não contar com uma mente continente torna as atitudes deploráveis e altamente destrutivas. Aqueles que aplaudiram e apoiaram essa manifestação de agressividade se identificaram com o que há de mais primitivo em si mesmos e também não contam com mentes que consigam pensar.
            É claro que é possível que a candidata vencedora tenha usado meios ilícitos para comprar o concurso. Infelizmente há pessoas assim. Porém, não é fazendo justiça com as próprias mãos que resolvemos as coisas. Pelo contrário, isso só piora. Se a candidata preterida se visse injustiçada ela teria todo o direito de botar a boca no trombone e usar todos os meios cabíveis para uma reparação dessa injustiça e crime. Porém, buscar justiça e reparações pelos meios legais e civilizados é frustrante porque demanda tempo. A mente primitiva, contudo, não é paciente e quer ser satisfeita agora, sem tolerar esperar.
            Ficar indignado não significa reagir através dos impulsos agressivos. Estes últimos precisam ser contidos na mente e resolvidos lá. Resolver a própria agressividade implica transformar os impulsos que pedem por atuações em decisões pensadas. Quem não pensa sobre os impulsos agressivos que possui está fadado a atitudes violentas. Essa segunda candidata demonstrando primitividade foi entrevistada e aclamada com uma pessoa audaciosa, mas ela é uma criança mimada que precisa ser educada nos processos civilizatórios. É triste e perigoso quando atitudes assim são mais valorizadas do aquelas que realmente são frutos de uma mente desenvolvida. A humanidade só tem a perder com a ignorância e cegueira. Precisamos ligar o sinal de alerta urgentemente.