sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pergunta de Leitora - Paixão Cega


Sou apaixonada pelo meu primo. Tenho 19 anos e ele tem 25. Somos primos em segundo grau e queria mesmo ter um relacionamento com ele. Minha mãe sabe disso e acha que é um absurdo. Ela é totalmente contra. Meu primo nada sabe, acho eu, mas sempre dei muita bola para ele. Isso é incesto, querer o próprio primo? Acho que não. Só quero viver feliz com ele e não suporto ver ele com outra menina. Morro de ciúmes e quero ter ele a qualquer preço. Ele ainda não sabe que eu amo ele demais e que vou ser melhor que qualquer outra para ele. Como posso me abrir para ele e fazer ele entender isso?

            A questão em jogo aqui está nas suas palavras de que “quer ele a qualquer preço”. O que significa isso? Será que você já pensou nessa suas palavras? São fortes demais e só podem vir de uma pessoa apaixonada. Há dois tipos de paixão. Aquela boa que nos encanta e deixa o mundo colorido, mas também há a paixão que nos cega e deixa tudo tenebroso.
            No filme Atração Fatal, a atriz Glenn Close interpreta uma mulher apaixonada que perde todo o senso de realidade e quer a todo custo o homem com quem teve uma noite. Chega à loucura e não mede consequências. Acabou por se tornar um perigo para ela mesma e para outras pessoas. Enfim, enlouqueceu de paixão. Dessa paixão devemos ficar longe e jamais permitir que ela se instale.
            A paixão louca tem a ver com o processo de idealização, que funciona como uma hiper-valorização de uma dada ideia. A ideia do amor que você sente por ele é tão irresistível e valorizada que lhe faz perder a capacidade de pensar, assim você se torna cega mentalmente. Nesses casos todo preço parece válido, o que é um tremendo engano. Para Freud a idealização servia como um mecanismo de compensação para um sentimento de inferioridade, imaginário ou real.
            Você mesma nem sabe se ele te deseja ou não e nem liga para o que ele pensa, já que tem certeza de que você é a única pessoa certa para ele. Isso, certamente, não é amor, pois quem ama sempre leva em consideração o outro. Você o desconsidera como pessoa. Hoje você está apegada à imagem que tem dele. Está apaixonada por uma ideia e não uma pessoa. Enquanto não abandonar a idealização não poderá ver as coisas mais claramente e nem poderá entender o que é possível.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pergunta de Leitor - Assunto sério


Tenho 25 anos e poucas experiências sexuais. Sempre fui muito tímido e nunca consegui me aproximar das mulheres como outros caras. Sempre me senti meio por baixo para dizer a verdade. Acontece que agora estou namorando uma menina legal, mas ela já está falando em casamento e eu não sei se quero me casar. Ela é mais jovem do que eu, tem 19 anos e está decidida a se casar comigo. Fui o primeiro homem da vida dela e me sinto responsável por ela apesar de nunca ter prometido casamento. Não quero machucar ela mas não sei se caso. Capaz de casar já que ela foi uma das poucas mulheres com quem tive mais confiança sexual. Nunca fui um bom conquistador. O que pode me dizer?

            Casamento é assunto sério e que demanda reflexão. Ninguém deve se casar apenas por casar, mas porque chega a conclusão de que aquele relacionamento tem significado e com isso se dá um passo maior. Se você não tem certeza do casamento isto é um dado importante e que deve ser levado em consideração.
            Pelo que você escreveu parece que você está quase aceitando o casamento não porque a ama e quer ir além nesse relacionamento, mas porque não se acha seguro o suficiente para conquistar outras mulheres. Sendo este o caso esse casamento já tem um início ruim, pois não é a crença no amor que os une, mas a conveniência. Já que não tem algo que deseja coloca outra coisa no lugar sem pensar muito bem.
            Namoro é uma época de conhecimento, um momento para se compreender bem o que se quer com aquela pessoa. O namoro não tem obrigação de se transformar em matrimônio, aliás é mais do que natural que o namoro termine em algum momento. Alguns namoros servem como experiências, outros namoros podem, sim, evoluir para o casamento, porém o casamento deve ser uma evolução no relacionamento e jamais uma obrigação. Casamento por obrigação tem maiores chances de terminar mau.
            Provavelmente as mulheres te intimidam, você não se sente muito seguro em lidar com elas. Ou fica muito inseguro em abordá-las ou fica inseguro em falar mais honestamente com elas sobre o que pensa. Descobrir o motivo dessa ameaça que as mulheres representam se faz importante para que você possa desenvolver  um relacionamento mais confiante e sincero. Não é partindo para qualquer ação que parece que vai resolver o problema que vai te ajudar, mas pensando sobre o que quer viver de verdade.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A cruz de cada um


            Vi uma animação que circula na internet onde várias pessoas carregam cruzes enormes e pesadas. Uma das pessoas olha para cima e diz a Deus que estava tão pesada a sua cruz que pensou então em cortá-la. Pegou um serrote e tirou um bom pedaço. Depois de andar mais um pouco resolveu cortar mais ainda, pois o incômodo em carrega-la ainda era grande. Enquanto muitos dos outros ao redor iam carregando suas imensas cruzes essa pessoa transformou a sua em algo bem pequeno e de fácil manejo. Aí o grupo chegou a um abismo e para conseguirem passar para o outro lado aprenderam que tinham que usar suas longas e pesadas cruzes como pontes. Aquela pessoa que cortou a sua cruz não a tinha em tamanho suficiente para lhe ser útil e ficou para trás sem mais sair do lugar.
            Apesar desse vídeo ter uma moral religiosa podemos pensá-lo sob uma perspectiva psicanalítica de como vivemos nossas vidas. Carregar cruzes no decorrer de nossas vidas nada mais é do que conseguirmos tolerar nossas frustrações de maneira eficiente e de forma que nos fortalecemos. Não é fácil mesmo dar conta de nossa vida mental e frequentemente sentimos que as coisas que precisamos lidar são por demais pesadas e inúteis. Queremos “cortar” nossos problemas sem tem que pensar sobre eles, mas isso no fim sempre se revela um mau negócio.
            Claro que não precisamos abraçar e agarrar nossos problemas de forma indiscriminada. Isso seria masoquismo. Entretanto, o que não dá é para evitarmos lidar com aquilo que temos e que nos causa certo sofrimento. Quando fugimos de nossos problemas pensamos, de início, que estamos sendo muito espertos, porém ao fazermos isso perdemos oportunidades para nos desenvolvermos e futuramente atravessarmos mais facilmente as coisas difíceis. Se as cruzes em nossas vidas, contudo, forem utilizadas como instrumentos estaremos bem mais preparados.
            A nossa primeira tendência quando nos deparamos com o que nos faz sofrer é querer fugir da dor. Mas há dores que não temos como escapar se não corremos riscos de ficarmos parados, já que amputamos nossos instrumentos internos, cortamos tudo aquilo que pode nos fortalecer. Para a vida mental não há atalhos e insistir nisso é um risco muito grande de não crescermos. A verdade é que ao fugirmos dos nossos problemas não seremos espertos, mas medrosos de encararmos o que necessitamos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pergunta de Leitora - Chover no Molhado


Meu namorado não quer crescer. Temos já dois anos de namoro, mas ele se porta ainda como um adolescente. Tenho 26 anos e não dependo mais de mãe e pai, mas ele ainda é dependente e não só financeiramente. Ele precisa dos pais para tudo na vida, até para comprar a própria cueca. Amo muito ele e quero que essa situação mude, mas não sei como fazer isso. O que posso fazer para ajudá-lo a crescer e se tornar um homem? Por que será que ele não quer crescer? Só quero ter uma vida mais adulta. Será que ele quer uma mãe no lugar de uma namorada?

            Você tem muitas perguntas em relação ao seu namorado, mas poucas perguntas em relação a você mesma. Você está mais a pensar sobre o modo de funcionamento do seu namorado do que o seu modo de funcionamento. Quer indagar sobre questões que somente ele poderia responder e enquanto continuar nessa posição se impede de ter uma visão mais abrangente do que enfrenta.
            Se ele quer ou não crescer, se ele quer uma mãe no lugar de uma mulher são questões que não cabem a você responder. Até mesmo desejar que essa situação mude não é da sua alçada. Só podemos lidar com o possível e querer controlar ou mudar outra pessoa não está dentro de nossas possibilidades. Insistir nisso é chover no molhado, ou seja, é uma ação inútil.
            A pergunta que deveria estar com você não é sobre como ele vive, porém como você vem vivendo. Por que uma moça independente como você quer ficar com um rapaz que se porta desse jeito? O que nele te atrai tanto? Por que faz uma cruzada pessoal para mudá-lo? A resposta pode indicar que você não seja tão independente quanto pensa, pois parece ficar presa a ele mesmo quando não o admira. Decifrar o porquê disso se faz importante.
            Você não tem poderes para decidir sobre a vida do seu namorado e sobre o que ele vai fazer com ela, mas pode decidir sobre a sua. Em vez de desperdiçar energia tentando resolver algo que você não pode que tal devotar energias para descobrir suas razões para ter entrado e permanecido nessa situação? Se ele não quer crescer não há nada que você possa fazer para ajudá-lo, mas há muito a ser feito para você se ajudar a viver uma vida adulta. A questão que fica é: o que será que você está fazendo consigo?