segunda-feira, 30 de julho de 2012

Análise de Filme - Melancolia



            O filme Melancolia de Lars Von Trier tem grande peso e tensão psicológicas, pois trata de um estado mental conhecido há vários milênios e que ainda hoje causa mal estar em inúmeras pessoas. A palavra melancolia vem do grego e foi descrita pela primeira vez pelo médico Hipocrates para designar um estado mental de grande apatia e sentimento de impotência. Hipocrates acreditava que esse estado se dava devido a influência do planeta Saturno que agia em determinadas pessoas que tinham um excesso de bile negra. Melancolia em grego significa precisamente bile negra. O excesso dessa substância tornava as pessoas depressivas, segundo a crença da época.
            No filme a estória se passa centrada em duas irmãs, Justine e Claire. Justine está prestes a se casar com um homem apaixonado por ela e Claire é casada com um milionário e tem um filho. Na festa de casamento Justine vai dando mostra que possui um estado mental bastante melancólico. Ela se vê presa em um estado de espírito onde a alegria e satisfação duram muito pouco, quase nada. Tudo para ela ganha peso e se colore com tons desbotados. A vida, tal como sentida por ela, é monótona e sem sabor. As coisas ao seu redor ficam sem assimilação e sem o menor aproveitamento. O noivo apaixonado e a belíssima festa de casamento acabam mais se tornando um fardo do que algo bom. O casamento mal começou e já chega ao fim. Ela vê a dissolução de sua vida e não consegue reagir. Fica com o olhar perdido, alienada e impotente perante a destruição que se aproxima.
            Junto a tudo isso um planeta chamado Melancolia está prestes a se chocar com a Terra trazendo o fim de toda a vida. Esse planeta, que não deve ser encarado como algo concreto e físico, pode ser entendido como esse estado de melancolia que vai se aproximando vagarosamente até acabar com toda a vida que existe em cada um de nós. Freud entendia o estado da melancolia como um estado de luto permanente, apesar de não haver, necessariamente, uma perda real. Pode ser comparado com o que hoje se conhece mais por depressão. Justine sabe que seu mundo vai acabar com a vinda do planeta Melancolia e se entrega totalmente. Não luta mais para dar um significado às coisas de sua vida. Tudo perde o sentido. Torna-se impotente e apática. É alguém que se rendeu totalmente a própria depressão e passa a odiar a vida e as exigências que esta faz a quem está vivo. A morte, assim, se torna bem vinda, pois significa ter que parar de lutar.
            Sua irmã Claire tenta lutar contra seu próprio estado de melancolia. Ainda se vê nela um desespero angustiante e assustador. Se angustiar não é necessariamente mal, já que isso significa que ainda estamos vivos, ainda sentimos. Porém sentir dói e a dor é algo que sempre tentamos evitar. Enquanto Justine se entrega à depressão de corpo e alma e se torna apática, Claire tenta lutar, mesmo que desastrada e desesperadamente. Tenta encontrar uma saída, uma alternativa e tenta se fazer forte até para proteger seu filho desse estado empobrecedor. Só que o planeta Melancolia está próximo e muito forte. Claire está fraca e lutando sozinha contra algo que a oprime.
            Este é um filme sobre a destruição das vidas daqueles que se encontram presos à depressão. O choque dos planetas é uma alegoria do fim da vida. A depressão corrói a vida até o ponto em que nada mais tem sentido. Foi relatado que muitas pessoas após assistirem esse filme nos cinemas se sentiram mal e incomodadas. É realmente um filme que incomoda ao ver a impotência dos personagens chegando ao seu fim sem conseguir encontrar outro meio de viver. De todos os filmes de fim do mundo este é o que mais tem características psicológicas porque trata do fim do mundo interno e sem este não somos nada.

Um comentário:

  1. Apreciei este filme, como todos do diretor Lars Von Trier. Entretanto, minha percepção da história é bastante diversa da sua.
    Claire, uma extrovertida, afeita ao lado exterior da vida, é quem planeja e organiza a festa de casamento da irmã, Justine. Esta, introspectiva e desligada dos aspectos frívolos da sociedade, aceita sem se envolver o casamento que não lhe toca, mostra-se capaz e preparada para enfrentar as dificuldades e o fim das coisas e da vida, enquanto a irmã e seu marido se desesperam e nem sabem como estar com o filho que só encontra apoio e sabedoria na tia Justine, que enfrenta, serena, o que virá. Em minha opinião o diretor enfoca o dilema de nossa sociedade que tenta viver de festas e aparências e não sabe enfrentar a profundidade da existência e seus momentosa difíceis.

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