quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Análise de filme: Meia-noite em Paris



            Um filme singelo e encantador que mostra o nascimento de um artista. Gil Pender é um escritor americano bem sucedido, mas que se encontra frustrado profissionalmente porque escreve roteiros sem graça para produções de Hollywood. Ele quer mesmo é virar um romancista e escrever algo que seja de valor. Em uma viagem à Paris com sua noiva ele vai reencontrando esse desejo de ser escritor em cada esquina. Paris o inspira, o encanta, deixando-o apaixonado e por isso mesmo mais consciente de seus sentimentos. Ele quer morar lá, mas sua noiva acha isso uma bobagem e faz pouco caso das suas emoções.
            Encontra-se aí uma dissociação entre o casal. O que encanta um não encanta o outro, eles se desencontram porque não conseguem entender mais o que motiva o outro. Um relacionamento com essas características já não tem muito como dar certo, pois no relacionamento o que importa é o encontro entres os amantes, esse lugar onde o tempo fica suspenso e a completude existe. O casal do filme mostra valores diferentes e sentem a vida de forma distinta.
            Gil Pender se alimenta da arte, queria ter participado da Paris da década de 20 quando seus ídolos viviam lá e faziam as coisas acontecer. Sonhava com Fitzgerald, T.S. Eliot, Picasso, Dalí, Hemingway e a exuberante vida que esses personagens viviam então. E nisso Gil Pender é o oposto de um ex-professor de sua noiva, por quem ela tem uma queda, que é um conhecedor da arte, mas de uma maneira mais rígida e morta. Ele é um escolástico, quer falar sobre a arte e demonstrar seu conhecimento. Gil Pender quer viver a arte. A oposição entre o conhecimento e a sabedoria, onde um é ter e o outro é ser.
            Sua noiva se identifica com o ter, ela não liga para o viver enquanto Gil não liga para o ter, mas só vê sentido no ser. A fantasia de sua noiva é ter um status e uma posição invejável, a fantasia de Gil é se encantar com a vida e viver o que puder. Na fantasia de Gil, ele passa todas as noites à meia-noite a se encontrar com todos os artistas que tanto adorou, dialoga com eles, aprende com eles, vê seus defeitos e suas qualidades. Esses artistas apesar de já estarem mortos podem ser encontrados vivos através de suas artes e é a isso que Gil tem acesso. Ele passa a ser um deles, se autoriza a ser de fato um artista e não é mais um roteirista de segunda mão. Quando fantasia se encontrar com seus ídolos ele já não é mais ele mesmo, mas outro que sabe que precisa da arte para viver. A fantasia se torna realidade. Não há mais jeito de voltar à vida de antigamente, ela era sem sentido e o estava sufocando.
            Nascer para a vida não é apenas uma questão biológica, mas trata-se da possibilidade de nascer para algo que dê sentido à vida, que encante. Antes, Gil estava desacordado para si mesmo, mas a cidade de Paris à meia-noite o inspirou a ser quem ele poderia ser. Despertou emoções que antes não se permitia sentir e com isso se transformou num artista, já que o artista é aquele ser que se transforma e nunca se acomoda, é aquele que vive para criar. 

3 comentários:

  1. Muito interessante essa análise, pude compreender vários pontos do filme, obrigado!

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  2. Adorei a análise. Obrigada por compartilhar.

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