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quarta-feira, 3 de junho de 2020

O que é ser homem ou ser mulher?


     Em entrevista para uma revista, uma personalidade conhecida na mídia brasileira e até internacional falou coisas que me fizeram refletir bastante sobre a confusão de grande parte das pessoas sobre o que é ser homem e mulher. Esta "celebridade" se submeteu a várias cirurgias plásticas para ficar com barriga tanquinho, deixar os braços com aparência musculosa e muitas outras intervenções para se tornar um homem idealizado. Com tantos procedimentos cirúrgicos até teve sérios problemas de saúde, mas mesmo assim, não encontrando satisfação, decidiu que agora quer ser mulher. Nas palavras dele próprio, ele sente que falhou como homem, então agora, acredita que tem que ser mulher. Para isso já fez várias cirurgias e ainda fará mais. Tirou costelas para ter uma cintura fina, injetou gordura no quadril para alargá-lo e colocará silicone para formar seios. E pretende ainda se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo.
     Obviamente há pessoas transexuais que desde uma idade muito precoce se sentem desconfortáveis com o próprio corpo e necessitam passar por procedimentos que modifiquem o sexo. Há muito sofrimento envolvido nesses casos e estas pessoas necessitam de toda uma equipe multidisciplinar para conseguir passar e “digerir” tantas transformações. É um trabalho sério e que requer muito cuidado e respeito com o/a paciente. Agora, uma coisa bem diferente é a pessoa acima, que está presa às idealizações e nem se dá conta do que faz consigo própria.
     O que é ser um homem? O que é ser uma mulher? Na verdade, isso é muito mais que uma questão física. Para a celebridade que citei ser homem parecia que era ter barriga tanquinho, músculos visíveis e avantajados, etc. Mas isso não faz um homem realmente. Ser homem é uma questão interna, uma questão de identidade que vai se formando. Não é um corpo, por mais masculino que ele seja, que torna alguém homem. Passa pela mente, pelo interno e não pelo corpo. Ter todos os atributos físicos que relacionamos com a virilidade não fez com que ele se tornasse homem e, ao se dar conta disso, ele chegou à conclusão, então, que só poderia ser mulher. Porém, há outro terrível engano aí também. Porque ele acredita que agora, com um corpo portando atributos associados à feminilidade, vai se tornar mulher. Vemos aí como a falta de uma mente pode colocar alguém em risco e a se perpetuar em atuações que levam sempre a ações e não a reflexões.
     Seios, quadril largo, cintura fina não formam uma mulher. Uma mulher é muito mais que seu corpo, é também um estado de mente que vai se formando ao longo da vida e das muitas experiências que vão sendo processadas. Quando esta pessoa chegar a ter o corpo feminino que deseja também encontrará um vazio e insatisfação. Esta celebridade está procurando fora, no corpo externo, uma identidade que só pode ser construída internamente. Quando procuramos nos lugares errados o que de fato precisamos na vida mais vazios e desesperados ficamos. Mais nos enganamos e riscos desnecessários corremos. Ser homem ou mulher não se resolve lá fora, mas acima de tudo, na construção de uma identidade interna.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pergunta de leitora - Há vários encaixes


Sou muito tradicional. Não consigo aceitar algumas “modernidades” muito bem. Vejo que hoje em dia muito se tem discutido sobre os homossexuais. Eu acredito que eles sejam doentes e que necessitam de tratamento, pois não é natural alguém ficar com outro do mesmo sexo. Se analisarmos bem, homem e mulher se encaixam perfeitamente biologicamente. Seja Deus ou a natureza que assim quis não importa mas o que importa é que isso é inegável. Quando dois homens ou duas mulheres ficam juntos não há encaixe. É um tipo de “gambiarra”, ou seja, um arranjo mal feito. Sinto muito dizer assim mas é como vejo as coisas e isso é a biologia quem diz. Como pode os psicólogos não verem isso?

            O sexo é tão complexo que relacioná-lo apenas à biologia é tal qual tapar o sol com a peneira. Não vai funcionar. Claro que o sexo tem a ver com a biologia também, mas a ultrapassa e depende de tantas variáveis que fica ingênuo até falar em sexo, já que este se tornou sexualidade. Se funcionássemos tão somente através da biologia, assim mesmo a sexualidade seria algo complexo e múltiplo, porém contamos também com a mente e esta cria e alimenta fantasias e desejos sem os quais a sexualidade humana não existiria ou seria bem mais empobrecida. 
          A sexualidade, aliás, tem a ver com a cultura de cada povo e com a forma com que a sociedade, em dado momento, se organiza, bem como com as características individuais de cada sujeito. Enfim, a sexualidade é um fenômeno biopsicossocial. Bom, já deu para ter um ideia que falar sobre sexualidade de forma simplista não dá.
            Homossexualidade é mais uma forma, entre inúmeras outras, de se relacionar, de viver e de amar. Você pode até não gostar e achar que se trata de algo “ilegal”, como uma “gambiarra”, mas a maneira como cada um pode viver a sua vida e se realizar independe de você. E ao contrário do que você imagina você não pensa que a homossexualidade seja uma doença, você simplesmente a condena como tal. Provavelmente condena porque teme a complexidade e variedade do psiquismo, especialmente o seu próprio.
            Para sermos de fato humanos necessitamos aceitar o psiquismo e sua influência em nossas vidas. Do contrário corre-se o risco de se cair na onipotência e condenar ao invés de pensar. A força da nossa capacidade de criar é tão imensa que é capaz de inventar encaixes onde parecia não haver encaixe algum. A riqueza e força do humano está justamente na sua possibilidade de se reinventar e escrever a própria história. Em outras palavras, o humano só pode existir enquanto se realiza como ser biopsicossocial.