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segunda-feira, 14 de junho de 2021

A árvore do desejo



    Nossa mente cria a forma que vivemos. Nossa tecnologia, nossas construções, avanços científicos, etc. foram primeiro criados dentro de nós. Todas as maravilhas que facilitam a vida e a tornam mais agradável foi uma obra que nasceu de um sonho em nós. Todos os horrores que também vemos ao redor do mundo, como violência, guerras, injustiças, também foram criados por nós. A maneira como lidamos com nossas mentes é o que forma o mundo em que vivemos. Se conhecer, então, passa a ser fundamental para saber que mundo vamos ou queremos criar.
    Há uma antiga história milenar hindu que conta que um homem caminhando por uma floresta acabou, sem querer, entrando no paraíso. Lá, cansado de tanto andar, deitou-se debaixo de uma árvore do desejo. Essa árvore era mágica e tinha o poder de realizar qualquer desejo que quem estivesse sob ela tivesse. O homem, primeiro cansado, quis descansar e lá encontrou um lugar muito acolhedor para dormir. Quando acordou refeito e cheio de energia percebeu que estava com fome e milagrosamente suas comidas prediletas apareceram em sua frente. A árvore realizava todos os desejos. Estando com fome nem questionou nada e comeu tudo o que quis até perceber que estava com sede também. Tal como a comida, bebidas das mais variadas surgiram para ele. Ele as tomou e aí tendo essas necessidades da fome e sede satisfeitas perguntou-se o que estava acontecendo ali. Ele queria comida e a comida veio, queria bebida e a bebida veio. Aquele lugar era estranho e então pensou que só podia estar sendo vítima de brincadeiras de fantasmas. Ao pensar isso, fantasmas se materializaram em sua frente.
    Assustado ele pensou que os fantasmas iriam machucá-los e tal como pensou começou a tortura. Sofrendo muito sob o ataque dos fantasmas imaginou então que iria morrer e aí ele morreu. Essa história antiga mostra bem que quem não se conhece não sabe o que cria dentro de si mesmo e que isso é sempre perigoso. Viver inconsciente de si mesmo faz com que nos levemos para situações que, na verdade, não nos são nada favoráveis. Quando estamos inconscientes não percebemos o que criamos internamente e por isso mesmo não nos damos conta de que muitos sofrimentos enfrentados ao longo da vida são fruto de nossas criações.
    Estar consciente é o mesmo que estar com os olhos abertos. Imagine que você vai dirigir por uma avenida movimentada de olhos fechados. Ou atravessar uma rua cheia de trânsito com os olhos fechados. Certamente não terá um final feliz nessas experiências. No entanto, é bem isso que vem acontecendo. As pessoas estão atravessando todas as suas vidas com olhos fechados e se surpreendem porque estão sofrendo com tantos acidentes.
    Só podemos estar bem se soubermos o que estamos fazendo, o que estamos criando. Caso contrário ficamos sempre vulneráveis aos acidentes e desastres. Porém, quando podemos abrir os olhos e ver o que criamos dentro de nós podemos escolher viver melhor. Podemos criar uma vida mais interessante e com muito mais possibilidades. Nós é que criamos nossas vidas diariamente, a maneira que vamos lidar com o que nos acontece, como vamos responder e como vamos nos relacionar. Exatamente por isso mesmo é tão vital vermos o que criamos dentro de nós, porque é justamente isso que vai se “materializar” lá fora. Somos muito mais responsáveis por nossas vidas do que gostamos de admitir e compreender e aprender com isso é algo fundamental.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

As máscaras caem


        Aqui em Londrina os casos de infectados por Covid-19 e a letalidade consequente estão cada vez maiores. Em parte, isso ocorre devido ao próprio desenvolvimento da infecção e, em grande parte, devido ao relaxamento de muitas pessoas com cuidados pessoais. Com esse aumento vemos dois tipos de reação: algumas pessoas redobram seus cuidados e tomam todas as atitudes necessárias para se preservarem enquanto outras negam ainda mais os perigos que correm. São dois comportamentos opostos e muitos vêm se perguntando por que isso ocorre.
          As pessoas que se cuidam têm uma consciência maior de sua própria humanidade. Entendem que por serem humanas estão submetidas às leis naturais e que são vulneráveis a toda uma série de riscos. Por compreenderem isso aprendem então a se cuidar de maneira eficiente. Essas pessoas também são mais sensíveis e percebem que cada vez mais pessoas próximas, da família ou não, adoecem e, por conseguinte, procuram se proteger o máximo possível para não virarem mais uma estatística.
          Já as pessoas que não têm muita, ou nenhuma, consciência de sua humanidade não conseguem "ver" o perigo. Acham-se sobre-humanas e negam qualquer sentimento de medo que possam vir a sentir. Sentir medo acabaria com suas fantasias de invulnerabilidade, as tornariam humanas e pessoas assim temem intensamente lidar com a condição fragilidade da condição humana. Elas se perigam para provar sua força e obrigam os outros a se perigar. Sim, porque quando alguém se periga coloca os outros em perigo também. Parece até que há pessoas por aí que gostariam de estar arrancado as máscaras protetivas que aqueles mais cuidadosos usam. Já perceberam isso? Se pudessem o fariam.
          Sabia que há pessoas infectadas com HIV, por exemplo, que têm prazer em sair espalhando o vírus entre os demais? Elas até sabem que o HIV é uma doença que traz consequências severas na vida de alguém. Que vai influenciar para o resto da vida muitas coisas, mas, mesmo assim, insistem em negar isso e vivem como se não tivessem nenhuma responsabilidade. Pois é, não é só com a Covid-19 que esse descaso acontece, nem só com doenças orgânicas, mas com muitas outras coisas que permeiam as relações entre as pessoas.
          Há também aquelas pessoas que no começo negavam e duvidavam dos perigos dessa pandemia, não se cuidando apropriadamente, mas que, ao verem pessoas próximas se contaminando, acabaram se cuidando. Para elas foi necessário se dar conta de algo que estava acontecendo perto. Sim, porque muita gente só se dá conta quando acontece algo logo ali ao lado, não conseguindo enxergar mais longe, naquilo que está fora de seu campo visual. Pelo menos estas passaram a ser mais cuidadosas e mudaram para melhor a maneira como se tratam e tratam os demais.
          Nesse momento tão difícil que todos vivemos e no qual devemos usar máscaras faciais para nos precaver, muitas outras “máscaras” caem. Usamos máscaras físicas, mas as máscaras que as pessoas usavam no seu dia a dia para se esconder dos outros agora caem e revelam nitidamente como cada pessoa se porta, realmente, consigo mesma e com o mundo. Vemos com muito mais clareza quem se acha onipotente e quem se cuida com mais amor. Distinguimos quem tem para consigo um relacionamento mais sadio e quem tem sérios problemas com a própria vida.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Pergunta de leitora - A morte de todos nós


Minha mãe está para morrer. Ela já está bem idosa e doente e segundo as previsões médicas ela não dura muito. Ela sempre me pediu para morrer em casa. Agora ela está no hospital e tenho medo de trazê-la por dois motivos. O primeiro é que acho que no hospital ela recebe cuidados profissionais e que se ela tiver um mal estar, vão saber lidar com ela. O segundo motivo é que tenho medo de que ela morra em casa. Tenho medo de minha casa ficar com esse estigma de que alguém morreu aqui. Ao mesmo tempo eu queria estar mais próxima dela, mas também não consigo deixar ela morrer aqui, já que tenho medo da morte. Tenho medo de quem está para morrer. O que fazer nessas horas?

            O assunto da morte geralmente é tratado como tabu e nunca como algo natural. Estamos todos sujeitos à morte e não há como evitá-la. A morte nada mais é do que um fato natural da vida e brigar contra isso é querer brigar com a natureza. Muitas vezes os humanos se apegam a um sentimento de onipotência e creem que podem controlar tudo, inclusive a morte.
            Como a morte representa o desconhecido, ela é encarada com muito temor. Tendemos a negar aquilo que não entendemos e perdemos a chance de aprender algo novo. Não é fácil ter alguém conhecido e querido para morrer, mas fugir desse evento normal da vida é descartar um momento importante.
            O ato de morrer é solitário e causa ansiedade. Sua mãe deve querer morrer em casa porque isso deve ter um significado importante para diminuir sua ansiedade. Ficar em um ambiente conhecido sempre nos dá mais coragem e paz, tanto que quando ficamos ansiosos e incomodados queremos sempre voltar para nossa casa. Apesar de um hospital contar com recursos e pessoal especializado, ele carece de fornecer o aconchego que também é importante na vida. Principalmente para quem se encontra fragilizado.
            O seu receio de recebê-la em casa para morrer pode ser uma tentativa de querer controlar as emoções que isso te desperta. Talvez você tenha receio de encarar a perda e elaborar o luto, bem como de pensar na sua própria mortalidade, pois é um fato que quando alguém que nos é conhecido morre, nós pensamos na nossa própria morte. Nessas horas de perda somos obrigados a ver a realidade da vida, de que não podemos tudo e de que há coisas que não estão em nosso controle. É se deparar com o fim das coisas e aprender a usar melhor o tempo que dispomos. 
           Apesar de tudo isso ser trabalhoso e custoso de se elaborar, é importante que isso aconteça, para que aceitemos a humanidade e a natureza como realmente é. Se você se permitir aprender a olhar a vida e seus fatos com mais naturalidade, você poderá aceitar a morte da sua mãe com mais tranqüilidade e menos medo.