sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Pergunta de Leitora - Demasiadamente Humano




Tenho um irmão com doenças sérias: diabetes, colesterol alto, cálculo na vesícula biliar e outros males. Sempre digo que ele precisa praticar meditação, mas ele não me dá bola e só continua com os tratamentos convencionais e tradicionais. A meditação faz milagres acontecerem, como já foi provado e todas as doenças podem encontrar na meditação a sua cura. Só ver que os monges orientais que praticam meditação não padecem de nenhum mal que nós ocidentais padecemos. Por mais que eu insista com ele, ele se mantém fechado e resistente. Queria saber que técnicas da psicologia ou psicanálise posso usar para convencê-lo de que é para o bem dele praticar meditação? Desde já obrigada.


            A sua pergunta é frequentemente feita por muitas pessoas que não entendem o que seja ou como funciona a psicologia. Aliado a isso há também a má fé e o mau uso que muitos profissionais fazem de suas profissões e que acabam por trazer todo um mal-entendido. E haja enganos e deturpações!
            O engano está em acreditar que a psicologia ou a psicanálise vai estar a serviço do ato de convencer. O psicanalista não convence ninguém até porque convencer é invasivo e rude. Ninguém deve jamais interferir no livre arbítrio do outro e convencer é apenas outra palavra para manipular. A manipulação é um desserviço e mais atrapalha do que ajuda.
            Há inúmeras pessoas que perguntam como podem convencer o outro disso ou daquilo. Entendo que você queira o bem dele, mas não há nada mais que possa fazer além de conversar com ele. O que ele vai fazer com a conversa de vocês é problema dele e não seu. Precisamos entender que temos limites dos quais não podemos ultrapassar. A vida é dele, o preço é ele quem paga e portanto só ele tem como saber o preço que pode e que quer pagar. Uma das coisas mais importantes de aprendermos na vida é saber aceitar que nem tudo podemos e controlamos mesmo que tenhamos boas intenções.
            Agora, vejo também que há da sua parte idealização da meditação e do estilo de vida oriental. Que as técnicas meditativas e orientais são uteis e existentes por milênios todos sabemos, mas não é o remédio universal que serve a todos. Esse remédio milagroso está mais nas suas fantasias que na realidade. No oriente, e mesmo entre os monges praticantes de meditação, há também doenças e males que são típicos do corpo e da condição humana. O próprio Dalai Lama, autoridade máxima do budismo tibetano, afirmou que adoece fisicamente como qualquer outro, afinal ele é um homem como qualquer outro. Idealizar uma existência independente do corpo e dos seus males pode ser onipotência e medo de entrar em contato com a própria humanidade.

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