sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pergunta de Leitora - Queimando-se




Não sei porque me casei. Na verdade me casei por insistência do meu marido e da minha família. Acho que todos os homens são bestas que só querem saber de sexo e não ligam para mais nada que a mulher possa oferecer. Casei-me e hoje sou bastante infeliz. Torno a vida dele um inferno porque gosto de culpa-lo por ter insistido casar comigo. Eu xingo ele, faço pouco caso dele e digo que vou até sair com outro. Ele fica sempre quieto, me escutando, mas da ultima vez ele reagiu e me deu um tapa. Quero coloca-lo na lei Maria da Penha que protege as mulheres. Sei que eu provoco, mas quero acabar com a vida dele. Parece que só vou me satisfazer quando eu destruir tudo nele. Eu mantenho secretamente um relacionamento com outra mulher, que me é tudo de bom, mas que não tenho coragem de assumir relacionamento. Mas não entendo porque odeio tanto o meu marido. As vezes o ódio que sinto me assusta e por isso que estou te escrevendo. Para saber se isso pode ser ruim para mim?

            Você mesma já sabe a resposta para a pergunta se tanto ódio lhe faz mal. Acredito, entretanto, que me escreveu para mostrar como tanto ódio vem lhe sendo prejudicial e a vem deixando numa situação crítica. Nem todas as mulheres são santinhas dóceis e delicadas e nem todos os homens bestas que só querem saber de sexo e bater. Você leva o seu marido ao limite, instiga a besta nele para assim ter motivos sólidos para odiá-lo. É natural que uma hora ele fosse perder o controle e partir para o confronto físico, não? É isso que você pede dele. Ele enfim está dando o que você pede! Talvez seja justamente isso que tenha lhe assustado: que o que você pede é muito brutal e primitivo.
            A questão que se faz pertinente pensar é porque você precisa se destruir. Porque na verdade não é só a ele que você tenta destruir, mas a você mesma. O seu ódio, é, em princípio, por você mesma. Você apenas desvia para ele, joga nele para não ter que lidar consigo mesma. Você o usa para se esconder de você mesma e da sua violência. Ele é que devia se proteger de você!
            Agora, não sei de onde vem tanto auto ódio assim. Para isso você vai precisar investigar sua mente e sua história de vida com ajuda profissional. Será que tem alguma coisa a ver com o relacionamento homossexual que você vive? Será que você se culpa por ele e por isso encontra meios de se punir? Não sei. O que sei, entretanto, é que viver desta maneira, cheia de tanto ódio, é muito caro. Esse preço você não precisa pagar. Está na hora de rever esses valores que está lhe fazendo pagar com a vida. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Pior Mal




            Buda, uma vez questionado qual era o pior de todos os males que existia no mundo não hesitou em responder que era a ignorância. Para ele todos os outros males advinham da ignorância. É a origem do ódio, da violência, da inveja, do preconceito, da arrogância e por aí vai. Ignorância, para Buda nada tinha a ver com a falta do conhecimento intelectual, mas estava ligada ao ato de fechar os olhos frente à realidade e substituí-la por ilusões. Ignorante é então aquele que lida com as ilusões como se estas fossem a realidade.
            Sabiam que existe um movimento internacional de terraplanistas? Eles são pessoas que acreditam que o planeta Terra seja plano e que esse fato é escondido de todos por interesses de manipulação. Há grupos que rejeitam a teoria da evolução de Darwin e afirmam que Deus criou o homem e todos os seres vivos diretamente. Adão e Eva, para os criacionistas, não são para ser entendidos simbolicamente, mas a verdade literal. E agora, no Brasil, foi aprovada a cura gay.
            O grande problema é que a ignorância funciona como uma força repressora. Ela ataca a realidade e tenta colocar em seu lugar dogmas que são “verdades forçadas”. Não existe cura gay. Primeiro porque não se trata de doença, mas de mais uma forma entre tantas possíveis, de amar e ser amado. Segundo, que qualquer regra normatizadora é perigosa e enganadora. Terceiro, a sexualidade humana não é determinada apenas pela biologia, porém pela subjetividade de cada um.
            Não há fundamento científico algum para se falar em algo como cura gay. Aos profissionais da psicanálise, psicologia e psiquiatria cabem ajudar as pessoas a lidarem de forma eficiente e saudável com suas angústias. Nenhum profissional consegue “mudar” a subjetividade de alguém. Freud, criador da psicanálise, foi claro em seu tempo em dizer que a homossexualidade não era doença. Mas por que tantos insistem na tal da cura gay?
            Para muitos a sexualidade tem uma finalidade que é a procriação. Como na homossexualidade não dá para haver procriação então ela seria uma doença. Só que quem pensa assim desconhece, ou melhor, não quer reconhecer que a sexualidade humana está ligada às particularidades da vida mental de cada indivíduo que foi se construindo ao longo da vida das mais variadas formas. Não existe somente uma maneira de ser, mas muitas.
            Nos consultórios nenhum profissional pode transformar a subjetividade de outra pessoa. Pode, contudo, ajudar seu paciente a lidar com as dores da vida e a ser mais eficaz em seu viver, sem sofrer desnecessariamente. Ser um bom ser humano não implica em seguir um roteiro, um manual de instruções, mas em ser uma pessoa que vive como ela realmente pode. Não temos que ser outro para estar bem na vida. Basta ser nós mesmos e isso requer aprender e desenvolver, da melhor forma possível, quem somos.
            Quando a ignorância toma conta dos tribunais, da ciência, da sala de aula, dos consultórios algo muito ruim está acontecendo. Significa, falando de forma simplista, que as pessoas estão trocando a realidade dos fatos pelas ilusões. A mente iludida é presa fácil das ações violentas já que torna as ilusões em falsas verdades inquestionáveis. Só que viver na ignorância é sempre mais fácil porque não exige que criemos uma mente para pensar a vida. Pensar é oneroso e o ignorante prefere se pegar àquilo que já está pronto e definido. Para Buda o homem só poderia iluminar-se quando se desapegasse da ignorância. Temos muito que nos desapegar e evoluir.



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pergunta de Leitora - Pagar para Ver




Sou uma mulher independente que sempre ganhou o próprio sustento. Já trabalho desde muito cedo e hoje tenho 45 anos. Nesse tempo todo ganhando a vida esqueci do amor, só tive casos isolados e sem nenhum significado, mas nada que fosse um relacionamento. Hoje conheci já faz uns seis meses um rapaz pela internet e estou apaixonada. O problema é que ele tem 24 anos e acabou a faculdade recentemente. Ele é muito menino, mas me inspira.  Nós nunca nos encontramos pessoalmente e ele não sabe minha idade real. Ele pensa que eu tenho 32 anos, pois pareço mesmo mais nova. Só vivemos esse amor de forma virtual, mas ele e eu também queremos nos encontrar enfim. Mas tenho medo de que ele não se anime quando me conhecer, de sofrer, de ser largada. Sou muito mais velha. Ele nunca vai querer se casar comigo. O que faço? Será que é melhor manter esse amor apenas pelo computador?

            Você tem medo de sofrer, porém você já sofre quando não dá uma chance de viver esse amor. Se já sofre talvez possa pensar que fosse melhor sofrer por algo real e não por um medo que, no momento, é pura fantasia. O que é difícil para você é encarar a realidade e pagar para ver o que de fato é esse amor que você sente. No entanto, muitas vezes, a fantasia não tem como substituir a realidade.
            Ora, essa história de diferença de idade talvez não seja tão impeditiva quanto você imagina. Só vai saber se ousar viver. E quem falou em casar? Provavelmente é coisa da sua cabeça que acha que precisa trocar alianças, já ir por esse caminho, como se fosse tão simples assim. Antes de um casamento é preciso haver um namoro e namorar requer tempo.
            Outra coisa a ter em mente é que nem todo namoro precisa acabar em casamento. Namorar é uma oportunidade para conhecer o outro e a si mesmo com o outro, perceber se essa parceria é boa e ir deixando ver onde as coisas podem ir. Será que você não está querendo viver tudo rápido demais? Como se estivesse compensando pelo tempo que se dedicou à sua vida profissional? O amor não impõe pressa e tem seu tempo próprio. Que tal se abrir ao amor e não às convenções?
            Entretanto, para viver o amor é preciso pisar na realidade e aceitar o que ela trouxer. O amor virtual é seguro, mas é limitado e limitante. Como vai ser a realidade desse encontro, caso você se decida por ele, não temos como saber. Assim é a vida. Ela nunca nos dá garantia de nada e não temos como fazer seguro para nos precaver de suas frustrações e dores. Porém, ao mesmo tempo que a vida pode nos dar sofrimentos ela também pode oferecer uma satisfação que mundo virtual nenhum tem como chegar perto. Mas para isso é preciso coragem e pagar o preço. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Entre a Vida e a Morte




            Viver implica muito mais do que apenas sobreviver e esperar a morte. Há muito entre o começo da vida e a chegada da morte. É principalmente a qualidade de nossas vivências que trazem sabor e cor à existência. Estamos cada vez mais conscientes ou atentos ao que devemos abraçar ou abrir mão para ter uma vida saudável e prazerosa. Procuramos, na maior parte da vezes, encontrar e criar formas de se viver com mais eficiência. Será que temos o mesmo cuidado com o fim da vida? Será que procuramos meios para morrer com dignidade?
            É um fato que uma hora a vida acaba. Não temos como vencer a morte e pensar nisso é uma arrogância do ser humano que, frequentemente, se acha fora da natureza e por isso mesmo fora dos processos naturais que envolvem todos. Por mais doloroso que seja a morte não possui nada de anormal e monstruoso, sendo apenas parte da vida. Por ser inerente aos processos naturais a que estamos submetidos se faz importante olhar e refletir sobre como estamos vivendo a morte atualmente. Em outras palavras, a pergunta que devemos pensar é como estamos morrendo hoje em dia?
            Não muitos anos atrás morria-se em casa, cercado pela família e conhecidos, na própria cama que por anos dormiu-se. A casa era o local para a vida. Tanto para o nascimento quanto para a morte. E entre um e outro havia as festas, as celebrações, os desentendimentos, os casamentos, a paternidade e maternidade, as perdas, as alegrias e tristezas que fazem parte da vida de qualquer um. Parece, infelizmente, que hoje a morte foi expulsa de casa e confinada nos estéreis hospitais. Um ambiente asséptico de humanidade.
            Hoje as pessoas recorrem aos hospitais quando se trata de alguém que está perto da morte. Evidentemente há recursos maravilhosos nesses lugares e quem tem dinheiro pode se valer de muitos deles que ajudam muito a trazer alívios. No entanto, também não podemos fechar os olhos para o fato de que morrer se tornou um negócio lucrativo e desumanizador. Prolonga-se artificialmente a vida, a todo custo, quando seria mais humano morrer dignamente. Morrer não é indigno, mas viver precariamente é sim muito indigno e desnecessário.
            Um médico norte americano escreveu um importante artigo sobre como os médicos morrem e é surpreendente notar que a grande maioria deles não aceita os tratamentos que vendem e impõe aos próprios pacientes. Quando se descobrem portadores de algum mal eles não querem cirurgias intrusivas, nem tratamentos com grandes e intensos efeitos colaterais, mas desejam apenas tratamentos que lhe tirem a dor e o deixem morrer o mais rápido e humanamente possível. Não querem para si o prolongamento de uma pseudo vida, cheia de prejuízos e impedimentos. Já com seus pacientes a história é outra. Eles propõem métodos muitos dolorosos que muitas vezes só prolongam um sofrimento. Talvez por lidarem quase que diariamente com a morte os médicos a aceitam melhor  e sabem que não têm como evitar o inevitável. Procuram morrer bem. Outras pessoas, por outro lado, querem vencer a morte e terminam por prolongar uma não-vida.
            Assim como buscamos, dia a dia, viver com a maior qualidade possível deveríamos também procurar morrer com qualidade. Para isso se faz necessário compreender e aceitar que a vida traz a morte. Não somos melhores que a natureza que nos criou e nem temos como escapar dela. Choremos as mortes de nossos queridos, mas não precisamos fazer dela uma coisa anormal e nem vê-la como um fracasso da vida. Afinal, o que importa é como vamos viver, como vamos lidar com as experiências que nos acontecem entre esse tempo, que pode ser curto ou longo, que se dá entre a vida e a morte.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Pergunta de Leitora - Privilégios podem Atrapalhar




Sempre fui uma jovem muito bonita tanto que ganhei vários concursos de beleza. Minha família sempre fazia comentários sobre minha beleza. As amigas me invejavam e parecia que eu tinha toda a vida sob meus pés. Todos os homens e rapazes queriam ficar perto de mim e desejavam a minha atenção. Hoje, passado mais de quinze anos estou completamente mudada. Estou imensa de gorda e não paro de comer doces e comidas gordurosas. Estou feia, meu cabelo mal cuidado. O homem que eu amava me traiu com uma amiga e o homem que é pai de minha filha de 4 anos me abandonou quando ainda estava grávida. Não durmo mais de noite e meu médico pediu que eu fizesse terapia. Quando avalio minha vida não consigo entender onde deu errado. Tinha tudo para ser feliz e muitas amigas que nem eram tão bonitas e com tantas condições como eu se deram muito melhor. São advogadas, donas do próprio negócio, e estão hoje muito mais bonitas do que eu. Até hoje fico esperando que algo bom me aconteça, mas estou perdendo as expectativas.

            Você iniciou a sua vida cheia de privilégios. A beleza física te levou a ganhar muitos concursos e admiradores. Eles caíam aos seus pés, nas suas palavras, e você se sentiu muito poderosa. Provavelmente era paparicada por todos ou pela imensa maioria dos que te rodeavam e te enchiam de mimos e gratificações. Naquela época você não pensava em mais nada e nem tinha necessidade de mais nada. Afinal a vida já estava feita.
            O problema é que você se baseou apenas nos seus atributos físicos para levar a vida e não deu a menor bola para algo fundamental: a sua mente. Com mente quero dizer auto confiança, segurança, capacidade de pensar e enfrentar os problemas de forma eficiente. O seu privilégio de largada acabou lhe sendo prejudicial, pois te fez acreditar que nada precisava conquistar. Estava tudo sob os seus pés, não é mesmo?
            Bion, um dos mais geniais psicanalistas, uma vez disse que privilégios excessivos não são as melhores condições para o desenvolvimento da mente. Ele entendia que uma pessoa com tantos privilégios, ou seja, facilidades na vida não se via com necessidade de se desenvolver. Pessoas assim não se sentem propelidas a buscar conquistas e a criar outras habilidades e acabam se tornando extremamente frágeis e sem conseguir suportar os baques da vida. Parece que é isso, mais ou menos, o que te aconteceu. Hoje você se encontra fraca e se sentindo incapaz de seguir adiante na luta que é a vida.
            Parece que atualmente a única coisa que te satisfaz são as altas calorias da comida. O seu início que foi tão rico transformou-se numa pobreza. O que te faz falta são as verdadeiras realizações na vida e estas não vão ser satisfeitas na mesa, mas através de experiências de vida e das aprendizagens que tirar delas. Quem sabe não seja hora de escutar o que dizem seus médicos e procurar se tratar? Assim, você aprenderá que não precisa esperar que alguma coisa boa te aconteça, como foi com a beleza, mas que você pode e deve ir atrás das realizações. Não dá mais para continuar esperando.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Adoção e Família




            Quando uma criança, lá pelos seus 4 anos, pergunta aos seus pais como nascem os bebês, está buscando a sua origem e mostrando curiosidade sobre o funcionamento da vida e dos corpos. Essas indagações por parte das crianças são importantes para que elas construam uma imagem de si próprias mais realista. E agora, quando o filho é adotado e essas questões surgem? Como devem ser respondidas? Como ficam os pais adotivos?
            Não se deve esconder da criança que ele é adotada. Ocultar isso seria ocultar a origem dessa criança e sua possibilidade de se construir. No entanto, muitos pais têm dificuldades de lidar com esse assunto porque este remete à suas dores particulares que não foram bem resolvidas. Quando um casal fica impossibilitado de gerar filhos biológicos pode criar uma mágoa. Seja devido à infertilidade ou qualquer outro impedimento o ideal de família que muitas vezes alimentaram é destruído gerando sofrimento e sentimento de perda. Muitos pais adotivos têm medo de sentirem essa perda novamente quando seus filhos questionam sobre seus pais biológicos.
            A ideia de que os filhos irão certamente procurar seus pais biológicos não é verdadeira. Há muito mais uma curiosidade sobre a sua história de vida do que qualquer outra coisa. Dúvidas sobre porque os pais o abandonaram, sobre o que aconteceu ficarão presente, mas quando pais adotivos e filhos adotados podem aceitar que isso faz parte de suas histórias e da formação de suas famílias cria a possibilidade de todos se construírem como pais e filhos numa base verdadeira. A verdade é sempre importante para todos, mesmo que traga dor. Entretanto a mentira também traz dor e muito pior.
            Pais não são quem apenas geram biologicamente uma criança, mas todos aqueles que se dedicam ao exercício diário da parentalidade. Podem ser biológicos ou adotivos, mas são aqueles que doam tempo, disposição, afetos, carinho e recursos internos e externos para a criação de um lar e de uma família. Quando os pais ficam angustiados e inseguros com o fato de terem adotado seus filhos pode impedir de criar um espaço onde a criança se sinta à vontade para perguntar e se deparar com sua história e aprender que família é muito mais forte do que apenas semelhança entre os genes. Família é uma construção e não uma verdade biológica. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Pergunta de Leitora - Casamento Forçado




Quis casar a qualquer preço. Casei jovem, aos 22 anos. Estava desesperada para casar porque acreditava que se eu não cassasse logo ninguém iria me querer e eu iria ficar sozinha. Ficar só sempre foi meu maior medo. Antes do nosso casamento, já marcado, meu noivo decidiu dar um tempo porque não sabia se gostava mesmo de mim. Enlouqueci e disse que estava grávida. Consegui convencê-lo de que era melhor ficar comigo. E corri para engravidar de verdade e deu certo. Casamos 7 meses depois, mas perdi a criança. Meu marido não parava de dizer que só havia casado por causa da criança e que não me amava, mas continuamos juntos. Hoje tenho 35 anos e vivo muito mal com ele. Não nos amamos, mas continuamos juntos, não sei até quando. Sempre me ameaço me matar caso ele queria oficializar nossa separação. Sei que ele tem outra já há algum tempo. Acho que estou gostando dele cada vez menos, estou começando a ter ódio por tudo o que ele me fez passar. Não sei mais o que fazer. Só queria ser uma mulher casada.

            Muitas são as pessoas cujo pior pesadelo é se ver só. Temem a solidão e tentam fazer do casamento a apólice de seguro para que a solidão jamais ocorra. Quando o casamento é vivido desta maneira, como se fosse seguro, perde-se completamente o seu real sentido e o torna algo muito pesado e falso. Afinal, quem disse que só por estar casado alguém não está só? Casamento não tira ninguém da solidão.
            Já se foi o tempo que o único destino da mulher era aceitar o casamento, seja ele qual fosse, ou ficar para titia. Há muitas maneiras de se realizar e de enfrentar a solidão que não casando. Antigamente, a mulher era apenas a costela de Adão, ou seja, era uma parte do homem, sem vida própria e sem desejo. Foram inúmeras as mulheres que as mães e avós ensinavam que o mais importante era encontrar um bom partido e que o resto era estória. Uma mulher que não se casava era vista como fracassada, alguém que falhou em encontrar um homem. Duros tempos.
            Nessa educação arcaica e preconceituosa muitas mulheres temiam ficar sozinhas e para que isso não ocorresse aceitavam fazer qualquer negócio. Casavam com qualquer um com certa urgência e entravam numa vida miserável.  Agora, os tempos são outros e oferecem às mulheres muitas e melhores maneiras de se realizarem. A questão que se faz pertinente é por que será que você só viu como único caminho possível casar, mesmo com alguém que claramente não queria ficar com você? Por que faz da sua vida um inferno apenas para estar casada? Responder à estas questões são importantes para entender ao que você obedece quando mantém esse casamento infeliz.
            Você diz que ele te trai, mas você também o traiu. Não com outro homem, mas com mentiras e jogos cujo único resultado é produzir infelicidade. Não há só um traidor e um traído nessa relação. Os dois traíram e foram traídos. E o que parece sustentar esse relacionamento não é amor, mas o ódio que um sente pelo outro. É fato que o ódio também aprisiona as pessoas entre si e não as permite viver a vida de forma saudável. Que tal se libertar desse ódio e começar a viver a vida? Um tempo considerável já foi perdido e não voltará mais. Tem certeza de que quer continuar assim? Procure ajuda profissional para que você possa entender ao que está presa inconscientemente e assim se libertar de fato. A vida é curta e tempo é mercadoria preciosa. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Lidando com as Angústias




            Uma lenda conta sobre um sultão que resolveu empreender uma viagem marítima num grande barco e junto com ele foram muitos cortesões. Bem no início do passeio um cortesão que nunca havia visto o oceano e nem estado em alto mar fica aos prantos gritando que vai morrer. Recusa-se a ser confortado por quem quer que fosse e passava todo o tempo gritando e chorando. O sultão, crendo que não havia remédio, já estava para ordenar que o barco retornasse quando um sábio que estava presente sugere que ele poderia dar um jeito no caso. O sultão dá a sua permissão e o sábio manda atirarem o homem desesperado no mar. Ele se debate e afunda, engolindo água salgada, retorna à superfície para se debater mais e afundar e assim foi algumas vezes. Depois o sábio manda o retirar do mar e ele passa a viagem inteira sem nem mais um grito porque aprendeu que estar no barco era maravilhoso comparado ao que viveu ao estar no mar.
            Essa lenda nos ensina sobre perspectivas. Quantas vezes achamos que estamos na pior situação possível e que não há mais chance de algo bom? Quantas vezes já decretamos nosso fim? Não foram muitas as vezes que deixamos de ver as coisas boas porque ficamos tão identificados com o que havia de pior? Todavia, por pior que pudessem ser nossas condições no momento sempre poderia piorar mais e saber tirar o melhor proveito do que se tem agora é fundamental para se viver bem.
            Um dos grandes problemas na vida é quando ficamos intensamente envolvidos com nossos medos e ansiedades que perdemos contato com a realidade. Nesse envolvimento com os medos nossas angústias tomam proporções indevidas e viram monstros enormes. Acreditamos que é o fim e que nada bom há de surgir novamente e nesses momentos não há palavras racionais que nos fazem mudar de ideia e rever e readequar o que se passa. Ficamos tão colados nas nossas ansiedades que enlouquecemos.
            Sem a presença de uma mente que seja capaz de pensar, essa loucura ganha corpo e domina todas as ações. A mente funciona como um espaço que permite se pensar de verdade sobre o que se passa. Experimentamos tantas perdas e dores em nossas vidas e se não houver um espaço interno onde tudo isso possa ser elaborado vamos ficar à mercê dos piores pesadelos. Medos e ansiedades fazem parte da vida e não conseguimos controlar, porém o que aprendemos a controlar é como vamos reagir quando estamos angustiados. Sem desenvolver a mente vamos sempre estar entregues aos piores terrores que podem existir.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Pergunta de Leitora - Ninguém tapa o Sol




Sou tão ansiosa que quando não consigo resolver algo tenho palpitações cardíacas e passo a noite sem dormir. Devo tomar medicação para isso? Sempre fui ansiosa. Enquanto criança só roía as unhas e comia doces quando me sentia assustada ou insegura, mas passei a sentir palpitações há pouco tempo. Ou se eu sentia eu não percebia porque tinha uma vida muito corrida. Hoje moro em outro país e sem trabalhar fora, sinto o tempo mais lento e quando fico ansiosa ouço os pulos do meu coração. Isso me causa mais aflição. Ás vezes acho que, por estar longe dos meus filhos, mesmo eles sendo adultos, os meus medos tenham aumentado.


         Você sente ansiedade e reconhece as consequências dela no seu corpo. Palpitações, roer unhas, comer doces são sintomas que você percebe e que quer se livrar. Obviamente que os resíduos da ansiedade são desconfortáveis e nada mais natural então querer que eles desapareçam deixando um sentimento de paz no lugar. Contudo nunca nos livramos da ansiedade. Isso é impossível. O que podemos fazer, todavia, é aprender a lidar com ela para que não nos custe tanto.
         A ansiedade não vem do nada. Ela não cai do céu em nosso colo. Entender o que está criando a sua ansiedade é o melhor e o único caminho para você desenvolver recursos que te ajudem a não sofrer com ela. Ao invés de escorraçar seu sentimento de ansiedade, que não vai funcionar mesmo, o melhor é aprender o que essa ansiedade significa. Você citou que seus medos aumentaram, mas que medos são esses?
         Você também fez uma associação com o fato de ter uma vida corrida antigamente e que isso preenchia sua cabeça não abrindo espaço para a ansiedade se instalar. Hoje você mora num pais estrangeiro e não trabalha fora, bem como está longe dos filhos. Será que é isso que te deixa mal? Será que você sente que sua vida aí é de fato a sua vida? Talvez valesse a pena considerar cuidadosamente essas questões e compreender se sua mudança de país e vida tenha te afetado mais do que pensava ou acreditava. O que precisa é investigar.
         Tomar medicação é relativamente mais fácil. As medicações são muito úteis quando realmente necessárias, senão são apenas uma forma de tentar tapar o problema. Como já diz o antigo ditado Ninguém tapa o sol com a peneira.  Ninguém faz um sentimento desaparecer só porque toma alguma medicação. Não queira jogar fora o seu sentimento por mais difícil e desagradável que ele seja. Ele é o melhor guia para te ajudar a enxergar o que está se passando com sua mente. E enxergar o que se passa no seu interior é o que você mais necessita. Boa sorte.