segunda-feira, 25 de março de 2019

O objetivo de um tratamento psicanalítico




            São muitas as pessoas que ainda não entenderam qual o objetivo de um tratamento psicanalítico. Muitos até reclamam do tempo e custos e acreditam que não precisaria ser assim e com isso terminam por procurar tratamentos que prometem resultados rápidos e fáceis, mas a realidade é que quando nos voltamos ao mundo mental adentramos um território desconhecido e, muitas vezes, assustador, que gostaríamos que não existisse dentro de nós. A verdade, entretanto, é que cada um de nós carrega uma mente e que precisamos cuidar dela, lidar com ela. Não tem outro jeito. Se não lidarmos com nossa mente ninguém vai fazer esse serviço por nós.
            E qual é o problema de não lidarmos com nossa mente? Algum de vocês podem perguntar. Bem, se assim não o fizermos vamos pagar caro para viver. Na vida tudo se paga um preço, nada existe de graça. Pagar caro para viver é viver com sofrimentos, angústias, com pouco ou nenhum prazer. Enfim, uma vida com pouca qualidade e viver desse jeito não vale muito a pena. Dentro de nós há labirintos e se não aprendermos a sair deles vamos nos perdendo até mesmo podendo chegar a um ponto onde não nos encontramos mais.
            Contudo, aprender a lidar com a mente é justamente criar meios de se achar saídas para esses labirintos internos. Quando conseguimos nos livrar de becos sem saídas, encruzilhadas podemos trilhar outros caminhos muito mais prazerosos e eficientes que levem a uma vida com mais qualidade e digna. Quando vivemos melhor pagamos um preço justo e não caro pela vida.
            O tratamento psicanalítico, portanto, nos ajuda a pagar um preço mais justo pela vida, nos fazendo sair de alguns labirintos que possuímos internamente. Nos proporciona a chance de repensar a forma que vivemos e que escolhas fazemos. Nas palavras de Freud, criador da psicanálise, o tratamento psicanalítico nos permite deixar de sermos estúpidos em como vivemos.
            Essa possibilidade de sair desses labirintos e deixar de ser estúpido ocorre porque no tratamento temos a chance de repensar como nos colocamos frente à vida e suas adversidades. Assim não precisamos repetir o passado. É fato que o futuro será sempre o passado se não modificarmos o presente. Em outras palavras, vamos nos repetir sem parar enquanto não mudarmos o hoje.
            A psicanálise nos proporciona a possibilidade de construirmos uma nova vida, sem os mesmos vícios do passado para que vivamos com mais qualidade. Isso é um processo que precisa de tempo para acontecer. Não tem como se dar de uma semana para outra, mas necessita de tempo para que as mudanças vão realmente se instalando. Difícil e árduo esse caminho de se estar numa análise, mas vale muito a pena para não termos que viver com tanta ineficiência e pagando caro.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Pergunta de Leitor - Amor ou Lei da Gravidade?

Arte: @dalton.albertin


Tirando os elementos fisiológicos (hormonais) envolvidos numa paixão, porque é tão difícil parar de amar uma pessoa por mais que ele se mostre indisponível e desinteressado em você? Até que ponto esse sofrimento está fora do nosso controle? Nos últimos dois anos minha vida tem sido ser um satélite desse cara, que por acaso é meu melhor amigo e com quem eu moro. Mas eu tô exausto desse sentimento. Do sofrimento que isso causa. É possível eu e ele sermos amigos íntimos e ter uma amizade intensa sem que eu sofra por amar ele? Ou me afastar dele e mudar a minha vida do avesso seria a única solução? Nós basicamente vivemos como um casal. Mas não somos um. Ele tem esse limite bem estabelecido. Somos apenas amigos. Ainda que transamos eventualmente. E todo o resto de nossa rotina seja a de um casal (exceto o posicionamento afetivo dele em relação a mim).


            Não mandamos em nossos sentimentos. O que sentimos está fora de nosso controle, mas o que vamos fazer com o que sentimos podemos, sim, lidar de uma maneira eficiente. Se sentir um satélite é deixar a sua vida de lado, afinal um satélite orbita ao redor de algo, está preso na gravidade de algo maior. Os planetas orbitam o sol, pois a força gravitacional deste “capta” os planetas mantendo-os numa posição definida. A questão agora é você compreender porque será que você fez desse sujeito algo tão grande que te capturou?
            Você gosta dele, claro, sente atração, mas não sabe qual a sua posição com ele. Amigos vocês não são porque amigos não transam. A amizade é uma relação que não envolve o sexo, mas namorados vocês também não são porque ele não assume. Na verdade, você está no limbo, nem uma coisa nem outra, e isso vem lhe trazendo sofrimento. Ele não é o sol para te prender em sua força gravitacional, mas quem te prende então? A resposta é você mesmo!
            Não escolhemos por quem sentimos atração e afetos. Até aí tudo bem, mas por que será que você insiste em alguém que nas suas próprias palavras se mostra indisponível e desinteressado? Você se coloca nessa posição e persiste nela mesmo que às custas de sofrimento. Também segundo você ele já estabeleceu que não quer um relacionamento, mas você espera que algo mude. Para ele, parece, está muito bem e cômodo assim. Quem está incomodado é você e deverá partir de você uma mudança. Deverá primeiro saber de verdade o que você quer. Ser amigo? Para isso terá que abrir mão do sexo com ele definitivamente e abandonar o desejo por um namoro. Ser namorado? Deverá ser franco com ele e botar as cartas na mesa sobre como você se sente.
            Seja qual for a sua ação não saberemos antecipadamente quais serão as consequências. É pagar para ver. No entanto, o que lhe é prejudicial é ficar orbitando ao redor de algo que não mudará. Hoje você não o tem nem como amigo nem como companheiro. Vivem e não vivem e com isso prolonga o seu sofrimento. Que tal sair de órbita?

quarta-feira, 20 de março de 2019

Palestra gratuita sobre "Felicidade"


No próximo dia 28 de março, às 19h30, estarei no Espaço Multiplique, em Londrina, ministrando a palestra "Felicidade Possível e Impossível". O evento é uma oportunidade para falarmos abertamente - e sob a perspectiva da psicanálise - deste assunto tão desejado mas, por vezes, mal compreendido.

O que as pessoas, sem exceção, mais querem e buscam na vida é a felicidade. Entretanto, a imensa maioria nunca a encontra. Às vezes encontram alegrias, mas um estado de felicidade mais perene e verdadeiro é raro. Isto ocorre porque o que entendemos por felicidade - e a busca por ela - vem nos trazendo enganos.

Estamos procurando por uma felicidade impossível, cujo único resultado é um permanente estado de infelicidade. Que tal refletirmos sobre o que é felicidade possível e impossível?

As inscrições são gratuitas e devem ser feitas no site do Sympla.

Serviço
Palestra: Felicidade Possível e Impossível
Data: 28/03/2018
Hora: 19h30
Local: Espaço Multiplique - Rua Senador Souza Naves, 771, sala 2
Inscrições: https://www.sympla.com.br/palestra-gratuita-felicidade-possivel-e-impossivel__474763

segunda-feira, 18 de março de 2019

O guarda-chuva e a Preparação para o Amor




            Numa pequena vila que passava por uma severa seca muitos dos seus habitantes sem saber mais o que fazer decidiram organizar na igreja local um grupo de orações para pedir à Deus pela chuva. O padre se colocou em frente de todos da comunidade para dar início às orações, mas antes olhou para as pessoas lá reunidas. Viu muita gente se cumprimentando, fofocando, contando as últimas, reclamando e falando mal dos vizinhos até que seu olhar se demorou sobre uma menina que estava sentada e muito concentrada em suas orações. Ao olhar mais detidamente percebeu que ao lado dela havia uma guarda-chuva. Ele sorriu percebendo que ela era a única que havia vindo com uma guarda-chuva pois esperava que a seca terminaria a qualquer momento mesmo sem saber quando.
            No amor isso acontece frequentemente. Muitos querem um companheiro ou companheira e reclamam em alto e bom som que estão se sentindo sozinhos e tal, mas nunca se preparam para o amor. Preparar-se para o amor é cuidar de si mesmo, é desenvolver-se. Não basta apenas querer uma namorada ou namorado, pedir em orações ou fazer simpatias. Isso tudo não nos prepara para reconhecer e tirar o melhor proveito do amor quando este surgir.
            Não sabemos nem mesmo quando o amor poderá aparecer já que isso não está dentro do nosso controle. Agora, por outro lado, quando cuidamos de nós mesmos, de nossas vidas algo acontece. Ao nos desenvolvermos ficamos mais apaixonados pela vida, mais interessados nela e isso nos enriquece verdadeiramente a tal ponto que uma hora chega que alguém também interessante se sente atraído por nós. A nossa vitalidade e energia é o melhor chamariz para um amor bom nascer. Preparar-se para o amor é viver bem a vida. Não há outro jeito.
            Não controlamos o amor assim como não controlamos a vida.  Não adianta rezar, fazer mandingas e reclamar. Isso só nos tornará cada vez mais descrentes de nossas potencialidades e cada vez mais menos atraentes. Na mitologia grega o deus do amor, Cupido, era um moleque zombeteiro e incontrolável. Ele atirava as flechas quando bem queria e entendesse e não era suscetível aos desejos e pedidos dos mortais. Entretanto, quando ele via alguém preparado lá ia ele mirando o alvo e dando início a uma nova história de amor. Melhor que pedir por um amor é melhor se preparar para quando ele vier e nos pegar.