segunda-feira, 11 de março de 2013

Alquimia da Alma



            Há inúmeras lendas e romances contando estórias de alquimistas tentando transforma chumbo em ouro. Penso que isso não só é uma bela estória como também é algo verdadeiro e possível. Não falo do aspecto físico e químico da coisa, mas me refiro ao significado simbólico dessas lendas. As coisas podem ser entendidas literal ou metaforicamente dependendo daquilo que queremos ou podemos ver.
            Chumbo é um metal ordinário, não há nenhuma nobreza e elegância nele. É bruto, destinado ao trabalho pesado e não carrega nenhuma glória.  Entretanto, sem ele muitas coisas seriam impossíveis de serem realizadas. Apesar de não o valorizarmos ele é parte do nosso dia e facilita  muito nossas vidas. Já o ouro está como o mais precioso dos metais nas estórias, lendas e no mundo real. Toda a nobreza e glória são exaustivamente mostradas pela versatilidade e beleza que o ouro proporciona. Coroas, anéis e colares são confeccionados para encantar e são, geralmente, feitos desse metal tão cobiçado. O ouro representa a pureza e as características mais almejadas.
            Nas lendas, os antigos alquimistas sonhavam em conseguir transformar um metal tão reles e comum como o chumbo em algo tão mais belo e refinado como o ouro. E, simbolicamente, esse processo pode acontecer de fato. Quando em vez de pensarmos em metais pensarmos na nossa mente estaremos vislumbrando a oportunidade desse processo de transformação acontecer. Tal como a transformação dos metais nossas mentes também podem se transformar. É a alquimia da alma.
            Carregamos em nossas mentes muitos sentimentos pesados e sem graça. As vezes esses mesmos sentimentos nos afundam em vez de nos elevar. É duro ter que conviver com eles e se sentir desprovido de nobreza. No entanto, assim como o chumbo na vida real tem uma serventia, o chumbo metafórico também serve para entendermos que ele existe para ser transformado em algo melhor e mais refinado. É nosso trabalho transformar o que há de mais primitivo na mente em algo que seja muito mais belo. Visto através desse prisma somos todos alquimistas em nossas vidas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pergunta de Leitora - Eu oculto




No mundo de hoje, as metas tem um papel fundamental: seja nas empresas ou até mesmo no planejamento familiar ou pessoal.
Porém, o que acontece quando não sabemos como defini-las?
O que acontece quando não sabemos o que queremos?
Aonde se resgata um desejo? Define-se um, nomeia-se algum?

            O que mais me chamou a atenção no seu email foi a falta do pronome “eu”. Você fez uma pergunta, provavelmente se referindo às suas indagações e inquietações, no entanto você não se colocou presente. Em sua pergunta você se encontra dissolvida, tal como uma gota de essência se dissolve num oceano.
            Talvez seja importante você investigar porque usou o pronome nós ao invés da primeira pessoa do singular. Qual o problema de se colocar de forma mais direta e objetiva? Parece-me que você se esconde através das indagações e do pensamento e com isso fica perdida. O uso que você faz das suas dúvidas serve mais para confundir do que para clarear e provavelmente seu pensamento está mais a serviço da ocultação de você mesma do que da revelação.
            Parece-me, também, que você fica muito insegura por não ter certeza do que realmente quer. Pensa em “metas” como se você fosse uma empresa que necessita de um organograma. Este pensamento é empobrecedor já que é desumanizador, pois as empresas funcionam direcionadas para o lucro enquanto o indivíduo deveria funcionar direcionado para a autorealização. Ao procurar metas você se esquece de se humanizar, ou seja, não dá voz para você mesma.
            Aonde se resgata um desejo? você se pergunta, talvez esperando uma revelação grandiosa. O que lhe falta resgatar é o seu Eu, a sua essência. É criar a possibilidade de desenvolver um autocontato mais verdadeiro e que te propricie a autocompreensão. Quem não se entende fica fadado aos desmandos do inconsciente e se repete no sofrimento. Para encontrar as respostas que podem te ajudar é necessário que você venha a entrar numa análise, pois nada substitui a fala do analisando e a escuta do analista e a partir do que surgir nesse encontro você poderá se conhecer e se compreender, bem como dar voz ao seu desejo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Análise de Filme - As aventuras de Pi



            O filme As aventuras de Pi (Life of Pi – 2012) conta a história de um garoto cujo apelido é Pi e de sua família, donos de animais de um zoológico,  que resolvem se mudar da Índia para o Canadá em busca de uma vida melhor. No meio da jornada, no oceano pacífico, o navio afunda devido a uma forte tempestade fazendo com que o garoto tenha que sobreviver num barco pequeno com a presença de um feroz tigre de bengala. A presença de um tigre coloca o garoto em perigo inúmeras vezes, bem como o garoto também coloca a sobrevivência do tigre em risco. Os dois precisam entrar num acordo caso queiram sobreviver, um acordo que permita um espaço para a coexistência de ambos.
            Esse filme é baseado no premiado livro do autor canadense Yann Martel e não precisa ser entendido literalmente, mas requer outro tipo de compreensão que seja alegórica e mais subjetiva. Apesar da estrutura central da história se deter nas conseqüências trágicas do naufrágio e na sobrevivência do garoto e do tigre, há outra história por detrás dessa que tem a ver com o estabelecer um acordo, conosco mesmo, para podermos sobreviver ao mundo e às suas vicissitudes.
            Entendendo simbolicamente, o tigre representa um lado do menino, lado esse que é selvagem, que se apega à vida com garras fortes e que quer viver a todo custo. Um lado primitivo que na realidade existe em todos nós e que nos permite enfrentar determinadas dificuldades inerentes à vida de forma a não sermos dominados pelo desânimo e desesperança. Já o garoto representa o lado racional, intelectual, que é capaz de avaliar a vida e criar formas de sobrevivência dependentes da racionalização. Tanto o tigre como o menino podem ser entendidos como se tratando de diferentes lados de uma só pessoa.
            Já o barco, em que os dois se encontram, é a representação do ser único e integrado que contem esses dois lados distintos e, as vezes, tão contraditórios. Portanto o significado subjetivo do filme diz que se qualquer pessoa quiser viver ela precisa entrar num acordo com seus dois lados para fazer a vida funcionar. Caso um dos lados morra a vida não é possível, pois uma parte nossa morreu. A vida só pode existir através do acordo entre nossas partes contraditórias.
            O ser humano é feito de contradições. Não é realista nos imaginar seres exclusivamente coerentes e quando fazemos isso é porque estamos tentando trazer uma visão mecanicista sobre nós mesmos. Qualquer visão mecanicista é limitadora da vida porque nega tudo aquilo que contradiz um pensamento linear. Ao insistir na linearidade da vida o ser humano se desumaniza. Entretanto, o ser humano não precisa ser só emoção e lado primitivo, porque aí viraria uma besta perigosa.
            O que se faz necessário, então, para a vida acontecer, é entrar em acordo com os dois lados: entre razão e emoção. Só o acordo permite um equilíbrio entre esses dois lados que sustentam a vida. É claro que haverá desentendimentos entre esses dois lados durante uma jornada, mas não tem nada demais, contanto que o acordo sempre se faça presente e possível. Esse filme trata da vida de cada um e da necessidade de cada um aprender a fazer acordos consigo mesmo caso queira viver. As aventuras de Pi nada mais é do que as nossas próprias aventuras.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Pergunta de Leitora - O amor causa união



Tenho três filhos entre 20 e 26 anos. Os dois mais velhos se saem muito bem em tudo o que fazem. Têm boas notas e jamais me deram problemas. Em compensação o mais novo sempre me trás muitos problemas. Ele não é tão ambicioso como os irmãos e nem tão maduro. Sempre fiz meus filhos quererem o melhor da vida e sempre os coloquei em disputa porque só assim eles chegam em algum lugar. Meu filho mais novo não gosta de competir em nada: em esportes, em jogos e na vida. Sempre aponto isso para ele para ver se acorda. Acabo sempre premiando meus dois filhos mais velhos e nada dou para o mais novo, já que a vida é assim mesmo: premia os melhores. Meu marido fica meio estarrecido com esse meu comportamento e acha que é um absurdo. Mas entre meu marido e eu, eu me saí bem melhor. Sou bem mais forte que ele. Creio que meu filho mais novo puxou meu marido. Como pode alguém se satisfazer na mediocridade?


            Não entendi bem qual a sua questão. É preocupação com seu filho ou lamentação por ele não ser como você gostaria? É um desabafo em relação ao marido ou à vida em geral? Para mim ficou meio confuso compreender o que de fato quis comunicar.
            Mesmo assim podemos pensar que a sua atitude tem a ver com a competição e não com o amor. É claro que a vida exige muita competição e que sejamos muito bons. A competição está presente nas escolas, nas universidades, nos esportes, nas empresas e em tudo o mais. No entanto, só existir competição é algo cruel, principalmente quando a competição existe com tanta intensidade dentro da família.
            Entre irmãos, naturalmente, já há disputa. Pior é quando os próprios familiares e neste seu caso a própria mãe incentive a disputa. Como se a única coisa que valesse a pena fosse só o status de melhor e não a pessoa em si. A família deveria ser um lugar de acordos e não de disputas. Ao valorizar a competição entre seus filhos com tanta veemência você fecha um porta para o amor entre eles e isso pode ter conseqüências severas e tristes para o resto da vida. Você convida o ódio entre eles e não a aceitação.
            Atitudes assim são encontradas em técnicos esportivos que priorizam o pódio dos vencedores. Para a função materna se faz necessário o acolhimento e a compreensão; entender que nem todos os filhos são e precisam ser iguais. Alguns podem ser mais competitivos e agressivos e outros mais calmos e introspectivos. Aceitar as diferenças é o melhor caminho para fazer o amor viver. E tem mais, há varias formas de competir bem na vida e talvez a maneira de seu filho seja uma que você não entenda. Entretanto, o que você deve desejar, de fato, é que seus filhos encontrem realizações na vida.