domingo, 4 de junho de 2023

Legião dos esgotados rumo ao caixão

 


Uma das coisas que mais ouço das pessoas e também percebo é o excesso de esgotamento que estamos vivendo. Está todo o mundo cansado, esgotado, exaurido, correndo que nem loucos para dar conta de tantas obrigações e deveres. É isso e aquilo e parece que o tempo voa sem nem nos darmos conta. Queremos tantas coisas, precisamos trabalhar tanto, precisamos bater metas não só no ambiente de trabalho como também as que impomos a nós mesmos que fica a sensação de não sobrar tempo para desfrutarmos verdadeiramente a vida.

Talvez, não seja apenas uma sensação, mas um fato que um imenso número de pessoas não aproveitam a vida. Entram numa corrida louca cujo destino é simplesmente o caixão, a cova. Buscamos muito e degustamos pouco, despendendo tanto tempo em conseguir conquistar a vida que não sobra mais tempo para apreciá-la. O que está acontecendo é que muita gente está numa corrida para chegar ao caixão. Um dia vamos chegar lá de qualquer maneira, porém não precisamos passar pela vida sem aproveitar umas coisas ou outra.

A consequência nefasta dessa corrida toda acaba não sendo o sucesso como muitos imaginam, mas o esgotamento cruel. E acrescento também o embotamento da vida. Ela perde a graça, o sabor e a cor. Ao invés de vida ganhamos uma não-vida. Seres zumbis só são interessantes na TV, já na vida real é triste e preocupante. Alguém constantemente esgotado e embotado entra na cova mais cedo, antes mesmo de morrer. Morre-se ainda vivo.

Obviamente, para conquistarmos nossos desejos e satisfazermos algumas necessidades na vida é necessário empenho e dedicação, nada vem de graça. Nessa vida é necessário trabalharmos muito em todos os sentidos. Sim, precisamos pagar contas, precisamos cumprir com toda uma série de tarefas e muitas delas difíceis e desagradáveis. Não são tudo flores. Há muito esterco, adubo e lama para darmos conta até chegarmos às flores ou aos frutos. Pena que muitos se esquecem de aproveitar quando chega o momento de curtir.

Está na declaração universal dos direitos humanos a necessidade do descanso e do lazer. Sabiam disso? Sustentado na lei, mas não compreendido e respeitado de fato. Apesar de haver todo um sistema financeiro-político que impõe regras desumanas, ocorre que as próprias pessoas não percebem e não sabem como tirar o melhor da vida.

Quem não consegue alcançar como desfrutar a vida com dignidade adoece mais e vive uma vida mais pesada do que é necessário. Não é à toa que hoje em dia há uma enxurrada de medicação psiquiátrica. Não que elas não sejam necessárias, elas são sim, e como!, mas vem mostrando também que não estamos sabendo como viver com qualidade. Escancara o quanto estamos esgotados até mesmo da própria vida! Quando exaustos procuramos prazeres muito passageiros e enganadores: excesso de bebidas, drogas, sexo desenfrado, consumismo, etc. o que termina por levar a um esvaziamento da alma e a muitos outros problemas. Gente esgotada não tem como cuidar da alma. Precisamos urgentemente prestar atenção nisso e isso começa conosco mesmo, cada um olhando para dentro de si mesmo. Concordam?




domingo, 14 de maio de 2023

Quem decide como você vai se sentir?

          O escritor, filósofo e cientista Johann Wolfgang von Goethe 

 Há uma frase muito interessante do escritor alemão Goethe que diz “A alegria não está nas coisas, está em nós”. Erroneamente acreditamos que precisamos disso e daquilo para sermos felizes. Nem precisa, necessariamente, ser coisas materiais, mas colocamos nossa felicidade nas coisas externas: casamento, filhos, ter esse ou aquele corpo, etc. Há também, claro, a promessa de felicidade que vem das coisas materiais que preconiza que será feliz quando você tiver aquela casa ou aquele carro, quando conseguir aquela roupa ou joia. Enfim, todas essas “coisas” estão pautadas em algo fora de quem sente e não dentro. No entanto, a alegria só pode existir realmente se estiver dentro.

É bom ter em mente que determinada condições de miséria ou falta de algo podem, sim, nos deixar infelizes e quando determinadas coisas são alcançadas contribuem para o nosso bem estar. Por exemplo, falta de comida ou de condições minimamente dignas para vivermos geram infelicidade. Obviamente, ninguém em sã consciência, diria que para essas pessoas determinadas coisas que estão em falta não vão trazer felicidade.

Me refiro, entretanto, às pessoas que têm sua sobrevivência mais ou menos já garantidas e estáveis. Se elas colocarem seu bem estar em tudo aquilo que for um ‘coisa’ externa estão fadadas à infelicidade. Quem é sábio não coloca fora de si o que necessita para estar bem, porém mantem consigo mesmo todos os instrumentos para estar de bem com a vida.

É que quando alguém tem um instrumento valioso carrega este sempre consigo e não o deixa por aí inadvertidamente nem espera que outras pessoas forneçam o que lhe falta. É muito aconselhável manter justamente tudo aquilo que for inestimável bem próximo e protegido e assim, quando se precisar eles estarão à mão. 

Pensando nisso, por que deixaríamos que coisas externas, as quais vem e vão ao sabor do vento, é que decidam nosso estado de espírito? Não seria nada prudente. Me lembro que agora pouco, antes de me sentar para escrever esse texto, aconteceu de eu estar na rua e ver um motorista buzinando loucamente para o automóvel da frente que demorou uns 3 segundos para sair quando o semáforo ficou verde. Assim que o carro saiu o motorista que buzinava e fazia gestos obscenos e dava para ver que até falava alguns xingamentos saiu a toda quase atropelando uma pessoa de idade que estava na calçada perto da rua. O motorista saiu xingando o idoso também e acelerou com tudo. Não sei, é claro, o motivo de sua imensa pressa, mas me parece que na verdade ela estava de tão mal com a vida que qualquer coisa iria lhe irritar e o tirar do sério. Se o trânsito estivesse favorável alguma outra coisa certamente iria surgir e ser fonte de aborrecimento. A alegria não estava dentro do sujeito em questão, então nada de bom que lhe ocorresse iria servir de fato. Ele estava ruim por dentro, podemos até ousar dizer que naquele momento ele estava tão estragado internamente que não haveria possibilidade alguma de alegria.

Uma pessoa que está bem consigo mesma, por sua vez, consegue ‘tolerar’ quaisquer contratempos da vida com mais leveza e não se tira do sério tão facilmente assim. Ela não dará ao outro ou a alguma coisa externa o poder de decisão de como vai se sentir. Vale a pena prestarmos atenção nisso. 






domingo, 7 de maio de 2023

Me engana que eu gosto

 

                        A morte de Marat (Jacques-Louis David)

Já ouvi relatos sobre a existência de cursos preparatórios para a morte. Nesses cursos ou ‘terapias’ se aprende a morrer em paz ou a não temer a morte como muita gente por aí teme. Não há mesmo limite para a imaginação humana quando se trata de explorar e tirar dinheiro dos outros. E também não há limites quando se trata do ser humano criar as mais mirabolantes ilusões para achar que consegue driblar a natureza da vida.

Lembro-me de uma frase espirituosa do físico Albert Einstein; “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta”. Porém, não sejamos tão duros com o bicho homem que cai na estupidez porque nunca aprendeu a lidar com a própria natureza, a natureza humana, de maneira mais inteligente. Entendo mesmo que não é fácil.

Somos seres dotados de alguma razão e criamos, através da ciência e do pensamento, muitas tecnologias que são eficientes e pródigas em lidar com muitos desafios que o mundo e a realidade nos oferecem. Em alguns momentos nos sentimos muito poderosos, arrogantes até, todavia quando olhamos mais atentamente nossa condição vemos o quão impotente somos de fato. Toda nossa tecnologia que nos auxilia e facilita a vida não nos isenta de ter que lidar com nossa condição humana, com nossas angústias, sentimentos e emoções. Sofremos e temos que tolerar o quanto somos criação e não criadores do mundo.

Para muitas situações ao longo da vida não temos respostas e tudo aquilo que está na dimensão mental sempre apresenta paradoxos dolorosos que é difícil de aceitar. Uma delas é a nossa finitude. Sabemos que vamos todos, um dia, morrer e isso nos assusta imensamente. Nos sentimos vulneráveis e desamparados frente à muitos eventos da vida e procuramos meios desesperados de tentar escaparmos, mesmo que sejam ilusórios. O famoso “me engana que eu gosto” é algo bem comum aos humanos. Daí existir esses tais cursos que prometem aplacar nossas ansiedades.

Não há como morrer bem, isso aliás nem deveria ser pensado ou almejado. Por que raios alguém iria querer morrer bem ou em paz? Todo um trabalho e esforços apenas para morrer bem? Que desperdício! Deveríamos gastar nossas energias em viver bem, pois na verdade morre-se como se vive. Não dá para aprendermos a morrer, coisa que nem entendemos direito, mas podemos aprender a viver melhor, com mais alegria e prazer. Nem aprendemos a viver e queremos aprender a morrer. Não faz sentido.

Viver bem, viver o melhor possível com nossos familiares, amigos, colegas, com nossas comunidades e atividades é o que realmente importa. Só mesmo uma pessoa que vive tem condições de morrer em paz. Viver bem, entretanto, não é apenas uma questão de lidar com os aspectos concretos da vida, mas de se relacionar bem com ela. É necessária uma boa educação sentimental, coisa que falta muito, para podermos viver bem. Quem cuida de seu mundo mental com zelo tem muito mais chances de viver com qualidade e, portanto, até de morrer bem. Antes de pensarmos na morte temos que dar conta da vida. Infelizmente, deixamos isso de lado e nos enganamos.


domingo, 23 de abril de 2023

Como começam muitos vícios

 


Uma matéria do site UOL mostra os perigos das apostas esportivas virtuais que se alastram cada vez mais pelo país. Através de sites e aplicativos as pessoas apostam dinheiro para tentar ‘prever’ os resultados de determinados jogos ou embates das mais variadas modalidades esportivas. Se acertam ganham dinheiro, caso contrário perdem. É muito tentador para muitas pessoas acreditarem que poderão ganhar dinheiro fácil, porém as consequências dessas apostas são bem desalentadoras. No fim das contas quem ganha dinheiro mesmo com essas apostas são esses sites e aplicativos enquanto exploram a compulsão das pessoas viciadas em jogos.

No artigo mencionado acima há relatos de pessoas que sofreram as mais diversas complicações por entrarem nesse mundo de apostas. Dívidas com bancos, com agiotas e até mesmo roubo de dinheiro de familiares e de objetos dentro de casa acabaram destruindo muitas famílias. O esporte, que poderia ser algo a ser vivido com alegria e prazer, passou a ser ameaçador e fonte de grandes sofrimentos. E para piorar muitos desses sites de apostas usam como garotos propaganda atletas esportivos que sempre foram ídolos de muitas pessoas. É realmente um sistema perverso e uma pessoa compulsiva ou que pode entrar numa compulsão fica mesmo aprisionada podendo colocar muitas coisas de sua vida em risco. 

A compulsão pode ter múltiplas formas. Pode ser por álcool, por drogas, por comida, por compras, por sexo e por jogos. Há muitas maneiras, mas todas são, inicialmente, algo que parece começar com buscar o prazer e acaba virando um pesadelo porque aprisiona e vira angústia. Em algum momento da vida a pessoa sente emoções e sentimentos muito difíceis de tolerar e realizam determinadas ações como forma de evitar sentir a ansiedade: bebem, se drogam, comem, compram, transam ou apostam e se sentem bem como se houvessem vencido a ansiedade. O problema é que precisam cada vez mais de quantidade de estímulos maiores para se sentir aliviados e não se dão contam de que estão presas num ciclo repetitivo do qual não conseguem mais sair. Afundam-se cada vez mais e alimentam a ilusão de que na próxima vez que buscarem se aliviar vai ser definitivo. Se enganam com ilusões que jamais acontecerão e vão naufragando numa situação de extremo sofrimento.

Apesar de buscar o prazer e tentar se evadir de suas emoções aflitivas o mais rápido possível, bem como fugir da realidade, a pessoa compulsiva nunca consegue de fato uma satisfação verdadeira. Estará sempre acorrentada em seus vícios e não consegue vislumbrar dentro de si mesma outras formas de viver. Há prazeres e prazeres nessa vida, todavia como vivemos e nos relacionamos com o prazer pode ser algo que nos deixe adoecidos e sem perspectivas. Há inúmeros sites, empresas e gente sem escrúpulos que buscam lucrar com o adoecimento alheio. Ninguém é obrigado de fato a se viciar, é uma responsabilidade de cada um poder se cuidar de forma apropriada, mas é importante perceber também que há muitos anzóis por aí procurando ‘prender’ clientes. Para não ser fisgado só mesmo desenvolvendo uma mente que seja capaz de pensar e escolher com sabedoria onde vai se meter. Realmente, é muito perigoso viver a vida sem desenvolver uma mente.