sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Pergunta de Leitor - Decifrar-se





Faço tratamento com psicólogo já há um ano. Fiz vários exames para HIV que deram negativos, depois de um acidente em que transei sem camisinha há sete anos, mas tenho muito sintomas da AIDS. Posso estar somatizando? O meu psicólogo diz que sim, mas não acredito. O que faço?

          
            Você já faz tratamento com um profissional, mas mesmo assim está aqui perguntando algo que já deve ter perguntado ao seu psicólogo. Será que a resposta dele não te satisfez? Será que você não acredita nele? O que eu vejo, entretanto, é um padrão que parece que vem se repetindo.
            Veja bem, você faz com o seu psicólogo e agora comigo o que já faz com seus exames. Repete sempre as mesmas angústias. Por mais exames que já tenha feito e cujo resultados deram negativo você descrê e continua a pensar que está com AIDS. Em outras palavras, você vive a sua fantasia e nega a realidade.
            Tal como faz com os exames também faz agora com sua terapia. Precisa de um outro psicoterapeuta porque ninguém dá a resposta que quer. E o que quer? Talvez a confirmação da doença que não existe, mas que você acredita que está aí. Viver assim deve estar difícil.
            A doença que te acomete não é a do corpo, que você sabe que não possui, porém a da mente. Precisa investigar o que há em seu mundo subjetivo que você sente que te infecta. Só quando decifrar o seu inconsciente, porque é lá que está a resposta, que você poderá se livrar do que te persegue. Não sei se seu psicólogo percebe essas repetições e conversa sobre elas com você, mas você está procurando nos exames clínicos algo que não vai encontrar. Não é para o sangue que você precisa se voltar, contudo é para o seu mundo interno, sua mente.


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Psicologia e as necessidades do Mundo




            Dia 27 de agosto celebra-se o dia do psicólogo, aquele profissional dedicado a criar espaço para se pensar e promover a saúde mental. A psicologia é ainda jovem entre muitas outras ciências, mas nunca se precisou tanto dela quanto hoje em dia. Ela é também muito mal compreendida e sofre inúmeros preconceitos. Quando uma pessoa, por exemplo, quebra uma perna ou está padecendo de alguma enfermidade orgânica todos reconhecem a necessidade de cuidados terapêuticos. Ninguém irá olhar para uma pessoa necessitada de cuidados médicos com desdém ou como se se tratasse apenas de “frescura”. Contudo, isso é o que ocorre quando o sofrimento é da dimensão subjetiva.
            Quando alguém sofre psiquicamente além de ter que lidar com a dor em si tem que lidar também com o preconceito de pessoas que acham que o sofrimento subjetivo é irrelevante ou de menor tamanho. Como se pudesse ser deixado de lado e assim passaria sozinho. Até há pessoas que creem que quem sofre psicologicamente é fraco, sem nenhuma força de vontade. Só que a falta da saúde mental faz muito mal e traz vários prejuízos para a vida da pessoa que sofre e para quem está ao redor.
            Quem sofre psicologicamente não vive bem. Pode até ter condições materiais boas e apropriadas, contar com familiares carinhosos e amigos prestativos, ter muitas boas oportunidades abertas, mas de nada adianta tudo isso se a mente não está bem porque no fim é ela que vai nos possibilitar ou não o que podemos aproveitar da vida. É a mente que dá o tom de como nossas experiências ao longo do tempo serão digeridas. Portanto, uma mente adoecida, sofrendo além da conta, não tem como favorecer uma boa digestão e toda a vida será sentida como pesada, sem sentido e sem graça. A vida torna-se intolerável.
            Quantas pessoas vocês não conhecem que tem todas as condições para estarem bem e serem felizes, mas levam vidas miseráveis? Caindo sempre nas mesmas angústias, nos mesmos erros, atitudes e repetições? Com certeza todos vocês ao menos conhecem alguém assim se não até muitas pessoas assim.  Não tenham dúvidas de que é a mente que nos permite enxergar a vida com bons ou maus olhos. Sabendo disso fica nítido que saúde mental não é brincadeira.
            Há muitas abordagens dentro da psicologia, muitas maneiras de se ver a vida e lidar com ela. Há sempre alguma que fará sentido em algum ponto. No entanto, qualquer que seja a abordagem ou linha teórica escolhida o profissional da psicologia deve cuidar de seu bem mais precioso tanto para o próprio trabalho quanto para a vida: a sua mente. O profissional que não se conhece não tem como ajudar outros a se conhecer. Seria o mesmo que um cego guiando outro cego em beiras de precipício. Para quem pratica a psicologia, psicoterapia, psicanálise, etc. conhecer-se é fundamental. Se o profissional não aprender a escutar as suas angústias, medos e desejos resistirá a conhecer esses conteúdos na pessoa que atende e acabará por fugir ou evitar a relação terapêutica transformadora. Porque mexer no mundo interno nunca é fácil, porém é necessário se queremos aprender a viver bem. Quem se submete à psicoterapia aprende uma das mais importantes lições nesse mundo que é compreender que sobre alguns sofrimentos nada podemos fazer a não ser aceitar, mas que há outros que temos como evitar e dispensar. Em outras palavras a psicologia nos ensina que podemos viver com mais qualidade aprendendo a escolher melhor onde nos metemos e a abrir mão de alguns sofrimentos desnecessários. Está ou não faltando saúde mental no mundo?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - O Amor é só para os Bravos




Fico me perguntando sobre o porquê haver tanta violência contra a mulher. Muitas vezes os homens casam com mulheres tão vivas, cheias de sonhos e planos, mas depois de um tempo os homens ficam controladores e com ciúmes. No começo muitos homens vão atrás de mulheres que se arrumam e se produzem e depois que se casam proíbem suas mulheres de ficarem bonitas. Por que isso tudo? O que será que acontece? E o oposto também é verdadeiro, ou seja, mulheres que passam a querer controlar seus maridos e não deixá-los sair com amigos e tal. Isso tudo é tão curioso.


            Isso tudo, na verdade, é muito empobrecedor. O controle seja de homens sobe mulheres ou vice-versa, afinal controlar independe do gênero, é algo que limita a espontaneidade e faz com que os relacionamentos fiquem enrijecidos e desgastantes gerando e perpetuando toda uma série de mal-entendidos. Homens e mulheres precisam aprender a se relacionar, mas quando isso não acontece o que se sobressai é o controle.
            O grande erro da maioria dos relacionamentos conforme vai decorrendo o tempo é não tolerar a vida. Veja bem, quando nos encantamos por alguém ficamos apaixonados pela vida que há dentro de determinada pessoa. Pode ser sua beleza física, sua sagacidade, seu humor, sua forma de ver e se relacionar com a vida. Isso tudo gera encantamento e nos atrai. Aí quando um relacionamento começa inicia-se também os medos. Qual o medo principal? É de perder o amor daquela pessoa que tanto nos encantou. Pensamos que se nos sentimos tão atraídos por ela outras pessoas também poderão se sentir atraídas e isso gera insegurança.
            Sentir insegurança é algo sempre ameaçador e tendemos a nos evadir daquilo que nos coloca numa situação desconfortável. Ora, queremos sentir segurança ao invés de insegurança. E então começamos a criar mecanismos de controle acreditando que assim vamos ter tudo seguro. Muitos homens e mulheres passam então a controlar a vida do parceiro(a). Não querem que suas mulheres fiquem muito atrativas, que seus homens fiquem livres e por aí vai. Acham que assim ficarão seguros, mas não percebem que também tiram toda a vida do outro fazendo com que aquilo que inicialmente tanto atraiu morra. O relacionamento vai ficando morto e sem graça, cheio de proibições e controles. O encantamento original, repleto de vida, passa a virar uma sepultura. Sepulturas não oferecem riscos. Ninguém quer.
            Para se viver um relacionamento que seja vivo é necessário tolerar a insegurança. Nenhum relacionamento oferece segurança e certezas. Não devemos exigir isso. Só há certezas na morte e não na vida e enquanto isso não for entendido não haverá possibilidade de haver relacionamentos vivos. Só pode se relacionar verdadeiramente quem aceita os riscos e não exige o que um relacionamento não tem como dar. Relacionar-se é só para os corajosos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Miopia da Mente




            Uma história conta sobre um discípulo que vivia aprendendo importantes fatos na companhia de um grande mestre. Um dia estavam os dois descansando perto de uma cidade; o mestre em meditação e o discípulo procurando pedras que achava pelo caminho e que gostava de colecionar quando foi tomado por uma questão que levou ao mestre.
            - Mestre, por que as pessoas desperdiçam tanto as suas vidas em coisas tão insignificantes. Como vícios, relacionamentos doentios, valores errados?
            - Simples. Elas são incapazes de ver o quanto as suas vidas são valiosas.
            - Mas mestre – surpreendeu-se o discípulo – é claro que as pessoas sabem que suas vidas são valiosas.
            - Sabem, é? – depois de pensar um pouco o mestre disse – Pegue essa pedra que você acabou de achar perto do rio e leve ao mercado e veja o que consegue em troca dela.
            Intrigado o discípulo foi à cidade e lá, na primeira barraca do mercado, tentou trocar a pedra. O vendedor, tomado de fúria, mandou-o embora dizendo-lhe para não fazê-lo perder tempo. O segundo vendedor daria uma cebola e justificou seu ato afirmando que assim fazia porque queria se livrar do jovem impertinente. Já numa terceira barraca o vendedor arregalou os olhos quando viu a pedra e disse: - Não tenho dinheiro suficiente para lhe pagar por essa gema preciosa que ainda não foi trabalhada para se transformar numa joia rara.
            O discípulo voltou correndo até o mestre e lhe contou o ocorrido. O mestre disse: Vê? Nem todos sabem reconhecer aquilo que é realmente valioso.

            A gente troca, com frequência, nossas vidas por coisas sem o menor valor. Isso ocorre porque não sabemos valorizar nossas vidas como elas devem ser valorizadas. Fazemos maus negócios e desperdiçamos nosso bem mais precioso.
            A nossa miopia não permite enxergar o valor da vida. Para podermos ver de fato esse valor é necessário desenvolver uma mente. Só com ela podemos pensar sobre o que vamos fazer conosco, que arranjos vamos construir no decorrer do tempo. Desenvolver uma mente não se trata de intelectualidade ou se encher de conhecimentos, mas de um aparelho psíquico que permite considerar com mais propriedade como vivemos e que escolhas fazemos. A mente é como uma lente que permite ver com maior clareza e nitidez que nem tudo que fazemos e valorizamos é realmente importante. Quem não desenvolve a própria mente fica cego e faz trocas, consigo mesmo e com o mundo, muito ineficientes.