sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pergunta de Leitor - Chances e Desafios




Encontro-me no início dos meus sessentas anos. Sempre fui dedicado intensamente ao meu trabalho e hoje percebo e admito que pouco dei atenção à minha família. Minha mulher, ou melhor, ex-mulher separou-se de mim e vive hoje com outra pessoa. Meus filhos, que pouco contato tive com eles na infância e adolescência não me procuram com frequência e sei que não se sentem tão confortável comigo. Enfim, percebo que agora que não mais trabalho, pois fui demitido por já ter atingido idade avançada e fui substituído por profissionais mais jovens, que nada tenho de verdade. Está certo que construí um bom patrimônio que me permite ter uma vida sem carências, mas fora isso não tenho nada absolutamente. Hoje me sinto solitário. Não sei o que fazer do meu tempo, não sei para que direção devo seguir. Acho que me desperdicei por todo esse tempo, sem nunca ter aproveitado as coisas que estavam ao meu alcance.

            O balanço que você faz da sua vida lhe permite ver coisas que antes não lhe era possível. Provavelmente antes você usava de intensas defesas para não ter que entrar em contato com o que de fato sentia. Sua vida, pelo que entendo, tomou rumos que mais estavam ligados ao trabalho, ao acumular bens e ter o que muitos consideram sucesso. No entanto, o custo de ter se dedicado tão somente ao lado mais racional e intelectual da vida foi alto e hoje você paga o preço.
            É claro que é preciso dar atenção à carreira e vida financeira. A única coisa, porém, é que isso não é tudo. Hoje você assim percebe, mas anteriormente isso não tinha como acontecer, pois seus olhos estavam fechados para tudo aquilo que te tirasse do que você considerava que era o seu caminho. Não percebeu os sinais de que sua esposa estava cansada dessa vida e nem se deu conta de que perdia momentos importantes nas vidas dos seus filhos. E o trabalho que parecia tudo lhe deu as costas, já que foi substituído. Apesar de tudo parecer escuro há luz no fim do túnel.
            A luz está no fato de você tomar consciência dessas coisas e de ter até mesmo me escrito esse email contando da sua vida e da sua dor. Agora, isso tudo não deve ficar apenas por aí, mas deve ser colocado como uma nova oportunidade para se aprender a viver diferentemente. Ao que parece você é um homem que teve muitos desafios na vida, ao menos profissionais, e pode agora então enfrentar esse novos desafios pessoais. É uma chance de se reconstruir de uma nova maneira e que esta lhe seja finalmente favorável. Há vida pela frente e esta não pode ser desperdiçada.
            A oportunidade que se lhe apresenta se bem usada pode lhe trazer uma riqueza que você antes nunca soube que poderia existir. Uma nova consciência pode lhe surgir e com ela novas maneiras de lidar com aspectos pessoais que antes foram negligenciados. É claro que houve perdas na sua vida e que é impossível voltar atrás e mudar a história. Entretanto, daqui em diante a história poderá ser outra. Está na hora agora, não de adquirir bens, mas de adquirir sabedoria, já que é só com esta última que a vida pode ser bem vivida e apreciada. Algumas oportunidades a gente não pode deixar passar. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O Mal da Ausência



            Está todo mundo chocado com o tal do desafio da baleia azul que está rondando os jovens através da internet. Nesse desafio os jovens são instigados a completar determinadas “tarefas” para prosseguir para a próxima etapa. Quem completa todos os desafios ganha “sucesso” e o “respeito” dos colegas. O problema, contudo, é que os desafios são autodestrutivos e vão, à medida que se passa de fase, tornando-se mais perigosos até chegar o desafio final que é o suicídio. Como um jogo desses pode fazer tanto sucesso e constituir uma ameaça que está dando o que falar?
            Diga-se de passagem que desafios assim não são novidades. Isso existe há séculos. A roleta russa, por exemplo, sempre foi um jogo perigoso que ceifou a vida de muita gente. Até mesmo antes de existir armas de fogo existiam jogos com espadas e facas que atentavam contra a vida e o bem estar. Portanto, esses jogos não são novos, apenas mudam de forma e com a facilidade da internet propaga-se com muito mais rapidez. O que assusta, porém, é o aumento de número de jovens que estão se engajando nesses tipos de desafios.
            Muitos perguntam-se por que jovens que têm condições de vida boas, com bom nível sócio-enconômico e acesso a cultura arriscam suas vidas em uma atividade autodestrutiva. O erro é olhar apenas as condições externas das vidas desses jovens. Por fora parece que têm tudo e nada falta, mas uma espiadela por dentro mostra um cenário diferente. A perspectiva com que olhamos o problema pode mudar completamente todo o sentido dele. E eles estão com falta de algo muito importante.
            O que falta de fato na vida desses jovens são relacionamentos humanos de qualidade. Existe uma família, pessoas que moram juntas e é assim na maioria das casas, porém faltam elementos que unam essas pessoas. Relacionamento de qualidade é raro. Enquanto isso não for visto e transformado existirão cada vez mais desafios malucos.
            Muita gente culpa os pais trabalharem tanto, que a família acabou e que até o feminismo que põe as mulheres no mercado de trabalho está destruindo valores. Bobagem! Não vamos voltar atrás no tempo e ficar saudosos de coisas que também não funcionavam muito bem. A questão não são os pais trabalharem e nem muita coisa na estrutura da família estar mudando atualmente, mas a qualidade dos relacionamentos entre as pessoas. Não se trata e nunca se tratou de quantidade de tempo e de manter tradição conservadora, mas de qualidade nas formas de se lidar um com o outro.
            O problema é a ausência de contato. Só nos tornamos humanos quando nos relacionamos com os outros. Não nos tornamos humanos sozinhos. Aprendemos a nos cuidar quando primeiramente somos cuidados. Aprendemos a nos comunicar quando há gente que se comunica conosco. Sem contato humano nos tornamos vulneráveis. Se não nos tornamos humanos teremos um corpo, sensações, mas não saberemos como preservar esse corpo, não teremos construídos uma identidade e ficaremos como bobos, pois não teremos consciência de nós mesmos.
            Quando há relacionamento de qualidade aprendemos a nos preservar e a entender que temos uma responsabilidade por nós mesmos e por isso não aceitaremos qualquer convite. Na ausência de relações que nos ajudam a criar identidade só sobra mesmo a busca por sensações, mesmo que estas nos coloquem em perigo. Apenas combater esses desafios não adiantará. É preciso um passo além e mais profundo. Sem repensar como nos relacionamos conosco e com os outros, sem desenvolver consciência, ficará aberto o ambiente para que loucuras desse tipo surjam. Que tal o desafio de nos tornarmos humanos melhores? Esse desafio vale a pena.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Pergunta de Leitora - Rumo à Independência




Hoje tenho 23 anos e sempre tive problemas com meus pais. Meu pai largou a família quando eu tinha 12 anos e nunca mais quis saber de nós. Tem outra família e filhos. Fiquei sozinha com minha mãe e ela é uma pessoa muito para baixo. Está sempre depressiva e muitos falam, na minha família, que foi por isso que meu pai a largou. Não me dou bem com minha mãe, brigamos demais. Ainda moro com ela. Com meu pai tenho pouquíssimo contato e sei que ele é um homem bem alegre e feliz. O único problema é que a mulher dele não gosta de mim e por isso mesmo, para não causar problemas para meu pai eu permaneço longe dele. Só que estou perdida com minha mãe. Ela se intromete muito na minha vida, não me deixa ter amigos e sair e não sei se vou ser feliz com ela. Mas o que devo fazer? Ela é completamente sozinha.

            Você se sente responsável pela sua mãe. Com a saída do seu pai da família e com a atitude mais passiva de sua mãe você se encontrou na posição de ter que cuidar dela. Entretanto, isso vem te pesando e agora não sabe o que fazer. Desde uma idade muito precoce você foi jogada para se virar sozinha com seus conteúdos e com os da sua mãe.
            Sua mãe, pelo que você diz, é uma pessoa depressiva. Provavelmente já o era antes da separação e continuou ou até mesmo se agravou após o fim do casamento. Você ficou com uma mãe que demandava e ainda demanda grandes cuidados e que se coloca como não capaz de cuidar de si mesma. Uma mãe que nunca pôde ter lhe servido como modelo de uma pessoa que pudesse se refazer e continuar procurando pela vida. Pelo contrário, tem o modelo de uma mulher enfraquecida e que não consegue reagir. Ter ficado com sua mãe, sem ninguém para te mostrar outro lado da vida, deve ter sido demais para você digerir.
            Já seu pai lhe abandonou. Ele é feliz, alegre, o que indica certa capacidade para poder viver melhor, mas o que ele lhe fez foi te abandonar. Arrumou uma mulher que não gosta de você e nunca se fez presente na sua vida. Seu pai tem todo o direito de viver bem e se o casamento com sua mãe não estava mais funcionando ele poderia ter se separado, mas isso não implica em abandonar a filha e o que ele lhe fez foi egoísta. Tão egoísta que talvez ele lhe permite pensar que é melhor você deixa-lo em paz para não atrapalhar a vida dele. Ele não abandonou só a sua mãe, mas você também.
            Hoje o que você necessita é criar modelos novos internamente. Modelos estes que lhe permitam viver a sua vida. Ajudar a sua mãe é uma coisa, carrega-la é outra e você necessita conseguir diferenciar entre essas duas coisas. Porque sem essa distinção fica fadada à impotência, que é justamente o modelo da sua mãe. Não se trata de abandoná-la, que é o modelo do seu pai, mas de poder viver a sua vida de forma mais justa, sem que você tenha que carregar tanto peso. Sua mãe terá que entender e aprender a aceitar uma filha independente. Enfim, é você se tornar uma pessoa adulta, o que nenhum dos seus pais realmente são. Eles fogem de suas reponsabilidades, que é eles cuidarem de suas escolhas e consequências. Você pode e deve pegar outro rumo. Já considerou fazer análise para descobrir e desenvolver sua força?

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sucesso e Fracasso



            As pessoas sempre almejam ao sucesso e temem o fracasso, pelo menos é assim que diz o senso comum. A psicanálise nem sempre concorda com o senso comum, pois entende que o senso comum está, muitas vezes, a serviço de se ocultar a verdade. É que a verdade é sempre menos aceita porque nunca é tão bonita como nossas ilusões e é um fato que nos apegamos mais às nossas ilusões do que à realidade. Sabendo disso e usando da psicanálise podemos ver que nem sempre almejamos ao sucesso quanto pensamos. Na realidade tememos muito o nosso próprio sucesso.
            Existe em nós algo como o “medo da felicidade”, por incrível que pareça. Isso se dá porque a nossa felicidade demanda de nós muito mais do que demanda os medos e fracassos ao longo da vida. Quando vamos acumulando sucessos na vida, tememos inconscientemente que uma tragédia possa aparecer e destruir o sentimento de realização, de perdermos tudo. Não é à toa que há tantos rituais para afastar a má sorte e mau olhado, como bater na madeira, sal grosso, olho grego, etc. Esses rituais nada mais são do que formas de nos proteger da nossa destrutividade e da certeza de que vamos, um hora ou outra, sabotar nossa felicidade
            É como se dentro de nós existisse alguém que pusesse em dúvida nossa possibilidade de ser feliz. Duvidamos que mereçamos coisas boas porque em algum nível acreditamos sempre que precisamos sofrer. Isso tudo não tem a menor lógica, mas quem disse que nossas mentes funcionam através da lógica? A psicanálise nos mostra que a lógica própria da mente é o que nos mais influencia e dá o tom de como vivemos e acolhemos nossas experiências de vida e o que vemos é que tememos a felicidade e acreditamos que merecemos a infelicidade por mais incrível que isso possa soar.
            A verdade é que apesar de temermos os fracassos eles nos são conhecidos e tendemos sempre a agarrar o conhecido. O sucesso e aqui me refiro aos verdadeiros sucessos na vida, não àqueles superficiais, mas que criam um sentimento de realização, requer nossa responsabilidade. Sucesso exige o máximo de nós continuamente enquanto o fracasso não. Por isso que há tanta gente que sabota a própria vida já que temem, sem nem saber que temem, quais as responsabilidades que terão para manter uma vida de sucesso e satisfatória. Somente com um verdadeiro trabalho interno de desenvolvermos uma autoestima é que podemos acolher melhor os sucessos e abandonarmos os fracassos.