segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Acendam as luzes amarelas!



     Entramos no mês em que todo profissional da saúde mental fala sobre o Setembro Amarelo. Internacionalmente, a data de 10 de setembro é o Dia Mundial da Conscientização sobre a Realidade do Suicídio e sobre como este poderia ser evitado se tratado de forma apropriada. A ideia da campanha do Setembro Amarelo é estampar vários lugares com a cor amarela para que esto chame a atenção de todos para a destruição que o suicídio provoca. Segundos dados do site www.setembroamarelo.org.br o suicídio é um sério problema de saúde pública que mata um brasileiro a cada 45 minutos e 1 pessoa a cada 40 segundos no mundo todo. O mais triste é que, segundo o mesmo site, 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados. No entanto, faltam políticas públicas de qualidade que valorizem a saúde mental.
          Muitos textos, artigos e estatísticas sobre o suicídio são vistos durante o mês de setembro e, ainda assim, o assunto é um tabu, ou seja, pouco encarado. Seja por motivos religiosos, negação ou medo, o suicídio ainda é algo que evitamos olhar mais de perto e, por isso, discutimos pouco. No entanto, já se tornou quase conhecimento geral que quem se mata quer matar, na verdade, a dor que sente e com a qual não está conseguindo lidar de uma maneira eficiente. Agora, existem várias formas de uma pessoa se matar e é sobre elas que gostaria de chamar atenção aqui.
          Existe o suicídio que nos causa aquele impacto violento de uma pessoa tirar a própria vida. Um ato que traz imensa dor também para quem está em volta. Não há dúvidas de que esta é uma das situações mais impactantes que podem existir. Entretanto, há outro tipo de suicídio que também ocorre e que é ainda menos percebido e, daí, ninguém acaba acendendo uma luz amarela de alerta.
          Há pessoas que vão desistindo de viver aos poucos. Elas podem até não acabar cometendo o ato de tirar a própria vida de fato, mas vivem uma vida que não pode mais ser chamada de vida. Viver torna-se para elas um peso, uma atribulação que não traz nenhum prazer. Vão ficando amarguradas, a vida fica cinza e sem nenhuma cor e sabor. Elas continuam andando, pagando suas contas, mas não estão vivendo propriamente. Estão apenas subsistindo.
          Quando não vivemos, quando não nos desenvolvemos o quanto poderíamos estamos também cometendo um tipo de suicídio, pois estamos tirando a vida que poderíamos vir a ter. Ceifando nossas possibilidades e potencialidades. Isso é grave. Às vezes, nem percebemos que estamos fazendo isso, achamos que está tudo bem, mas estamos muito mal. Há pessoas que nem sabem mais o que é vida e a substituem por atitudes e comportamentos que as afastam cada vez mais das possibilidades que poderiam desenvolver.
          Uma pessoa que bebe muito comete um tipo de suicídio, mesmo que não venha morrer disso ou que leve muitos anos para isso ocorrer. Mesmo assim ela tira a própria vida, aos poucos, a cada gole. Alguém compulsivo por drogas também se mata. Se não for a vida, mata chances de se tornar quem poderia ser. Perder tempo, aliás, é também suicídio. Porque matar o tempo é matar a vida. Quantas vezes perdemos tempo e deixamos de viver coisas tão importantes com nossos entes queridos para nos ocuparmos de outras coisas que acreditávamos que eram vitais, mas eram superficiais? Qualquer pessoa que se coloca em risco desnecessariamente, não se cuidando devidamente, comete um tipo de suicídio. Não tem para consigo um cuidado.
          Tudo isso é falta de saúde mental. Possuir saúde mental não implica em ser uma pessoa sem problemas, dores e adversidades, mas em ser alguém que possa ir criando meios para lidar com o que sente de maneira mais viva, de maneira que a vida seja preservada. Que se acendam as luzes amarelas e que prestemos mais atenção em como estamos vivendo para evitarmos o suicídio, seja ele de que tipo for.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Você está desgastado ou afiado?


      O escritor irlandês George Bernard Shaw escreveu a seguinte frase: “A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.” Acho essa sentença linda e muito profunda. Ela nos permite pensar em como vamos lidar com os acontecimentos ao longo da vida e que tipo de pessoa vamos nos tornar. Se vamos sair mais “afiados” e experientes das nossas vivências ou se vamos nos desperdiçar ou ficar tão exaustos que viver virará um fardo insuportável. Só que a grande questão a se pensar aqui é que o material de que somos feito não é algo que é decidido por nós, mas somos nós que o fabricamos.
    Como fabricamos um bom material que nos permita que a vida nos enriqueça? A resposta, aliás, é bem simples, tão simples que nem nos damos conta de quão complexo é. É um fato que as coisas mais simples da vida são complexas de realizar. A resposta está na mente, que é sempre o melhor recurso de que dispomos na vida. Como cuidamos de nossa mente é o que forma o material que nos permite tirar o melhor da vida ou sucumbir a ela.
    As pessoas, de forma geral, associam a mente a tudo aquilo que é racional e lógico, porém, a mente é muito mais que isso. Claro que a racionalidade é parte da nossa mente e é algo necessário para resolvermos importantes questões que pedem por razão e lógica. Sem essa parte não conseguiríamos nos organizar eficientemente. Contudo, a mente é muito maior que apenas essa parte racional, ela contém também a maneira com que nos relacionamos com nossas emoções e como nos ligamos a tudo na vida.
    A forma ou a visão que adotamos para viver a vida cria a qualidade com a qual vamos enfrentar tudo o que nos acontece. Há pessoas que frente a qualquer dificuldade usam de tantos mecanismos de defesa que acabam por se impedir de aprender com as experiências. Estão sempre reativas e ficam irritadas quando a vida não é como gostariam que fosse. Querem bater de frente com tudo e uma coisa dá para ser dita com certeza: bater de frente com a vida nunca é um bom negócio, porque sempre vamos perder. Ninguém vence uma onda, mas aprende a mergulhar sob ela para passar com o mínimo dano possível; ou a subir por ela para não ser arrastado. Quando brigamos com tudo e lamentamos a vida porque ela não nos oferece um mar tranquilo cheio de rosas acabamos fabricando uma mente (material) que só vai se desgastar, ficar cada vez mais fraco.
    No entanto, quando nos permitimos aceitar que a vida não nos deve nada e nos oferece inúmeros desafios e até dissabores podemos então aprender a lidar com os acontecimentos de maneira mais realista e saudável. Assim, aprendemos a como tirar proveito das situações, a fazer o melhor dadas as condições. Como já dizia um antigo ditado, é “fazer das tripas, o coração.”
    A escolha é nossa. Podemos decidir como vamos viver a vida. É uma decisão pessoal e intransferível de cada um. Há aqueles que escolhem bem, optam por aprender e fabricam para si uma mente que a vida deixa cada vez mais afiada. Tristemente, há outros que insistem em brigar com a vida e tecem para si um material que forma uma mente débil e abatida que faz com que tudo fique sem graça e custoso.      De que material você vem se construindo? Se for de um material debilitado é melhor mudar isso rapidamente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O pulo do sábio

     
     Há uma lenda antiga no zen-budismo que conta sobre um jovem, mais ou menos versado na arte da guerra, que tinha um temperamento muito colérico. Estava sempre brigando e arrumando encrenca por onde quer que passasse, dando medo em muita gente e tirando outras do sério. Até um dia em que ele foi parar na casa de um grande mestre e quis arrumar briga com ele. Num movimento ágil o mestre amarrou o jovem e o deixou imobilizado. O jovem gritou, esperneou, jurou vingança e as piores atrocidades contra o velho mestre, mas este ficava ali perto só rindo do jovem e da sua ira. O jovem ficou por mais de três dias amarrado e só gritava e xingava até o dia que cansado ficou quieto. O mestre chegou perto dele e lhe disse: “Essa sua raiva de nada lhe adianta, só lhe deixa preso, mas você poderia usar a sua raiva como uma verdadeira transformação na sua vida, se souber contê-la”. E foi assim que o jovem começou sendo treinado para ser um verdadeiro sábio.
​     A questão não é não sentir raiva, mas como a usamos em nossas vidas. Podemos nos entregar à raiva e brigar com tudo e todos, mas isso só nos levará ao perigo porque uma hora ou outra sempre vamos nos arriscar a um ponto sem volta. Podemos também pegar essa raiva e colocá-la dentro de nós e, com isso, nos tornamos amargurados. Qualquer que seja entre essas duas ações a vida fica aprisionada e sem graça. Entregar-se à raiva simplesmente não muda a realidade. 
   Só mudamos a realidade quando começamos a pensar. Não me refiro aqui ao pensar lógico, racional, mas ao verdadeiro pensar a vida. É um pensar misturado ao perceber e tolerar a nossa mente e seus conteúdos. Quando percebemos e toleramos o que se passa dentro de nós podemos então aprender algo novo e isso leva a um novo pensamento. Ficamos livres para pegar outros caminhos e não seguir simplesmente os mesmos e velhos caminhos de sempre. Mudar a realidade interna pode levar a mudar como vivemos a realidade externa. Esse é o grande entendimento do sábio.
    ​Geralmente, o que nos gera muita raiva é quando nos frustramos que o mundo e os outros não são como gostaríamos que fossem. Quando nos percebemos separados e entendemos que não controlamos os outros nem as situações ficamos enraivecidos. Pensem num pequeno bebê. Ele é totalmente dependente de quem cuida dele e quando necessita de algo começa a chorar e espernear. Um bebê não tem outros modos de lidar com a frustração e abrindo o berreiro faz com que seja notado e alguém venha cuidar dele, satisfazer suas necessidades. Conforme o bebê vai crescendo ele vai se deparando com cada vez mais frustrações e vai notando que não basta tão somente chorar para resolver as coisas, mas, sim, que ele precisa aprender a lidar com as adversidades de outras maneiras e que nem sempre poderá ser satisfeito na hora que quiser. É um processo que leva tempo e que demanda muita tolerância, afinal, construir toda uma capacidade de pensar não é da noite para o dia.
​    Infelizmente, muita gente vive com a mente primitiva de um bebê, mesmo sendo adulto, e nunca aprende a desenvolver os próprios recursos internos para lidar com a vida de uma maneira mais eficiente. Se não mudamos como lidamos com nossas emoções, se não evoluímos nisso, sempre ficaremos presos a tudo o que sentimos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O lar é interno e não fora


     Um antigo ditado oriental diz, muito sabiamente, que no mundo não há casa nenhuma, a não ser que a gente a encontre em nós mesmos. Este ditado faz referência ao fato de que, com muita frequência, estamos procurando um lugar para chamar de casa ou de lar. Queremos, desesperadamente, nos sentir em casa em algum lugar ou com alguém, mas agindo sob a luz do desespero, nos equivocamos facilmente e terminamos na infelicidade.
   É desesperador não se sentir em casa. Isto causa pânico, causa muita ansiedade e insatisfação. Estar sem casa torna a vida insuportável. Porém, onde ou qual é a nossa casa? Aí começam os enganos, pois são muitos os que chamam de casa uma posição na vida, um relacionamento com alguém ou até mesmo um bem material.
     A casa que todos nós necessitamos não se trata tão somente de uma casa concreta, lá fora, externamente, mas de uma mente própria que nos acolha. A nossa casa é a nossa mente. Se isso não for entendido vamos sempre procurar por uma casa ou por algo que chamaremos de lar no ambiente exterior e não desenvolveremos a nossa própria mente.
    Quem não tem essa casa/mente vive desamparado. Aliás, a famosa síndrome do pânico, conhecida por tanta gente e falada exaustivamente na mídia, é, falando de maneira bem simples, um estado de mente em que a pessoa não sente que tem essa casa/mente e fica em estado de grande desespero. Não há como ela se acolher, não tem como acolher as próprias emoções e tudo o que sente. Daí a importância de se construir uma casa que realmente nos acolha.
    Quem não tem casa acaba morando de aluguel, ou seja, em uma casa que não é própria. E a coisa que mais se tem é gente morando de aluguel vida afora. São pessoas que acreditam que não podem ter uma casa própria interna e procuram lá fora uma casa de aluguel que possam utilizar. Por exemplo, é grande o número de pessoas que procura em seus parceiros amorosos esta casa/mente e com isso acaba pesando ou inviabilizando a relação. Por mais que alguém nos acolha, se não tivermos a nossa própria casa interna, sempre vamos nos sentir desamparados, porque não podemos viver dentro do outro, mas apenas dentro de nós mesmos. ​
    Marido, esposa, namorado(a), amigo, nem analista podem ser a casa do outro. Na análise, entretanto, o analista “empresta” sua mente ao analisando, não para que este estabeleça residência ali, mas para que ele encontre um lugar favorável para aprender a construir a própria casa. Quando fazemos análise passamos por um processo de edificar a própria casa. O analista, por já ter passado pelo mesmo processo e ter aprendido a erguer seu lar interno, tem condições de ajudar o analisando a compreender que não dá para passar a vida inteira pagando aluguel e que se não arquitetar a própria moradia sempre ficará desamparado e infeliz.
     Então não é uma questão de encontrar uma casa para podermos habitar, mas de construir uma dentro de nós mesmos. Somos todos chamados a ser arquitetos e engenheiros da nossa própria vida. Somos decoradores também, escolhendo como vamos decorar nossa casa/mente. Quem nunca brincou, quando criança, de construir uma casinha, cabana ou barraca? Só que agora não é mais brincadeira, mas se trata de conceber um espaço interno em nós para nos acolhermos e nos sentirmos definitivamente em casa.