segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Coragem




“Não receie dar um enorme passo, se assim for necessário. Você não pode cruzar um grande buraco com dois passos pequenos” (David Lloyd George)

            Para viver é preciso coragem. Sem ela titubearemos em muitas decisões importantes e ficaremos imobilizados. Porém, coragem, além de ousadia, requer sabedoria.
            Talvez a coragem seja muito mal entendida e vivida. Muitos são os que acreditam que ser corajoso é ousar irresponsavelmente e que a vida só recompensa quem se joga de cabeça em qualquer situação. Isso tem mais a ver com pouco apreço à vida do que com coragem. Para viver todo cuidado vale a pena, e pensar e repensar determinadas coisas é fundamental.
            Há momentos em que mais vale pequenos passos, que vão nos dando segurança e tempo para pensar e mudar a rota, do que grandes passadas que facilmente podem nos fazer tombar feio. Entretanto, há momentos em que não é possível dar pequenos passos, nos é exigido um compromisso maior no tamanho da passada e aí precisaremos decidir se vamos ou não realizar esse movimento.
            Casar, por exemplo, é uma dessas situações. Vejo muita gente que se casa de maneira irresponsável, sem nem conhecer direito a pessoa com quem está assumindo este relacionamento. Por outro lado, há também aqueles que só namoram por anos a fio sem nunca ter coragem de selar um compromisso, quando, na verdade, querem isso, mas têm medo.
            Seja casamento, divorciar-se, decisões sobre a carreira ou qualquer coisa importante, temos vários “buracos” que precisamos nos aventurar a saltar. Não há vida se não cruzamos alguns deles e, para isso, se faz necessário sabermos se queremos e podemos dar esse passo maior. Medos e inseguranças sempre farão parte do nosso repertório, mas chega um momento em que precisamos dar passos mais largos que nos permitam cruzar buracos que a vida sempre teima em colocar em nossa frente. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - Crianças, Emoções e Repressões




Estava em um encontro de amigos esses dias e um menino de cerca de 1 ano e meio bateu com a cabeça na quina de uma das mesas do salão de festas. Claramente doeu. Ele correu para o colo da mãe, com a carinha de choro, mas não derramou uma lágrima. Então, um dos presentes comentou 'Nossa, ele não chorou!', no que o pai respondeu: 'Ele ficou com vergonha de chorar'. Oras, uma criança de 1 ano e meio só tem vergonha de chorar se alguém lhe tiver dito que isso é vergonhoso. Como mãe de um bebê quase da mesma idade, achei muito errado. Eu não tento ensinar meu filho a conter suas emoções (seja dor ou raiva), mas a lidar com elas. Explico porque está se sentindo assim, como lidar com aquilo, etc. Penso que ensiná-lo a sublimar sentimentos pode ter efeitos negativos no futuro. Estou certa?


            Sublimar é tornar alguma emoção ou impulso que se sente originalmente em algo mais sublime e transformado. Isso pode ser muito bom. Um artista, por exemplo, sublime muito do que vive transformando-o no objeto de sua arte. Porém, o caso que você se referiu não tem a ver com sublimação, mas com repressão. Uma criança só não vai ter contato com suas emoções se for reprimida.
            A repressão sempre vem com uma reprimenda, cheia de valores morais e julgadores. Ela pretende estabelecer o que é certo e errado, o que é digno ou não. Na repressão tenta-se jogar para o fundo da consciência aqueles sentimentos e emoções que são considerados vergonhosos, mas uma coisa é certa, nada do que sentimos some ou evapora, contudo continua existindo mesmo que não se tendo conhecimento disso.
            Uma pessoa reprimida não sabe lidar com a vida, mas só sabe repreende-la. Vai exigir dos outros aquilo que foi feito com ela e pouco se abre à espontaneidade. Em outras palavras, perde muito em qualidade e sutilezas da vida que só podem ser usufruídas quando não pré-julgamos e pré-condenamos o que se passa no nosso mundo emocional. O maior problema de se julgar o que se sente é que ao não ter contato com o mundo emocional não abrirá a possibilidade de aprender a se lidar com ele de forma eficiente. Assim as emoções passam a ser temidas e a ser inimigas.
            Quando pais ou adultos responsáveis pelas crianças priorizam a repressão ao invés da compreensão prestam um enorme desserviço ao desenvolvimento psíquico dos pequenos. A vida não vem com cartilha do que é certo ou errado, mas é algo que cada criança e pessoa tem que descobrir e aprender a lidar à medida que as coisas vão acontecendo. Vergonhoso, se é que se pode dizer assim, é não viver bem e não se permitir ser humano com toda a sua gama variada de emoções e sentimentos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Consumismo e Desespero




            Há um alto número de pessoas ao redor do mundo que consomem de maneira exagerada e crônica todos os dias. Isso faz surgir a indagação sobre o que leva essas pessoas a agirem dessa forma. Todos somos consumidores nessa vida: dos recursos naturais, dos produtos industrializados, dos alimentos, etc. Todos dependemos do consumo de forma que consumir não é o problema, mas torna-se um quando ele passa a ser realizado de maneira impulsiva e repetitiva trazendo prejuízos e danos tanto objetivos quando subjetivos.
            Na verdade, o consumismo compulsivo equivale às práticas como adição as drogas, álcool, sexo, jogos, comida e cigarro. É um vício e como todo vício tem relação com o indivíduo tentar preencher seus vazios existenciais com ações que supostamente venham a dar um sentido à vida. De certa forma no princípio tem-se um prazer ao comprar indiscriminadamente produtos e se “encher” de objetos que parecem que vão trazer uma felicidade. Quantas pessoas ao redor do mundo não alimentam expectativas de que quando possuírem tal ou qual coisa irão ser felizes e sossegar? O problema é que a satisfação nunca ocorre porque por maiores que sejam a quantidade de coisas que acumulam o vazio está dentro, na mente, e não pode ser preenchido dessa forma.
            O consumismo é uma tentativa infantil, ilusória e mágica de se alcançar alguma satisfação. Por isso mesmo qualquer tentativa de se obter algum sucesso através do consumismo está destinada ao fracasso e insatisfação formando um terrível ciclo vicioso que se perpetua, ás vezes, estragando toda a vida. Nada no mundo externo por mais brilhante e vistoso que seja poderá criar aquilo que falta no mundo interno. O único caminho é parar de se dirigir para o fora e se voltar para o dentro.
            Pessoas que consomem impulsivamente estão na realidade desesperadas. Nunca aprenderam a cuidar de si mesmas de forma amorosa e construtiva e que priorize o crescimento. Comprar é uma ação e essas pessoas partem rapidamente para a ação quando o que precisam é reflexão. Na reflexão podemos pensar adequadamente sobre o que desejar e esperar da vida sem recorrer a ilusões ou pensamentos mágicos. Na reflexão há chances de avaliarmos melhor nossas atitudes e perceber que tipo de vida construímos. Requer muita coragem e persistência abandonar as soluções infantis e muitas vezes precisamos de ajuda dos familiares, dos amigos e profissional. Mas só mirando essas questões internas, esse vazio, essas falhas que se formaram no decorrer da vida que podemos criar recursos psíquicos que nos possibilitem sair dos vícios a que nos prendemos. É mesmo árduo, mas sempre vale mais a pena enfrentar as dores do que ficar desesperado agindo impulsivamente.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Pergunta de Leitora - Ídolos, Salvadores e Mitos




Por que sempre buscamos ídolos e heróis. Não sei se os dois termos podem ser usados como sinônimos, mas isso me ocorreu durante a Copa do Mundo. Apesar da seleção ter 11 jogadores, era o "time do Neymar". O grande ídolo (que acabou por decepcionar, diga-se de passagem). Na política as pessoas também têm essa necessidade, com Lula é assim, o salvador da pátria, com Bolsonaro, o “mito”. Esta é uma necessidade humana? Não sei se faz sentido, mas é uma dúvida que tenho.


            Sua percepção captou o quanto construímos ídolos, heróis, salvadores e mitos. Isso tem origem na nossa infância. Quando crianças pequenas nos sentimos muito vulneráveis frente à vida. Os adultos parecem ser muito fortes e invencíveis, têm respostas para tudo e parecem ser capazes de fazer tudo. Alguns adultos são colocados, pela imaginação da criança, como ainda mais fortes virando verdadeiros heróis. Daí que personalidades do mundo esportivo, capazes de quebrar recordes e assombrar a todos com suas habilidades, acabam virando ídolos.  Com o tempo vemos que adultos também vivem os seus problemas, medos e inseguranças e nos decepcionamos ao nos deparar que heróis como imaginávamos não existem. Contudo nem sempre abandonamos essa idealização.
            Pessoas de todas as idades, mas principalmente entre os adolescentes e jovens, criam fã-clubes de seus artistas favoritos e esportistas. As celebridades tornam-se figuras que vão ganhando toda uma “mitologia” que os distinguem dos meros seres humanos mortais. São endeusados assim como no passado os bebês endeusaram os pais e adultos. Porém deuses só poucos podem existir senão se tornaria muito comum. Por isso num time de 11 jogadores um ou, no máximo, alguns poucos são colocados no olimpo estratosférico. 
            É normal que os jovens criem seus ídolos, faz parte do desenvolvimento. O problema passa a ser quando adultos precisam criar ídolos. Espera-se que um adulto seja capaz de lidar com a vida com mais base no princípio da realidade, sem tantas fugas ilusórias e sem recorrer à idealização. Quando um adulto cria uma figura mítica ou salvadora é a parte infantil que está atuando. Ora, um adulto sendo dirigido pela parte infantil não tem mesmo como fazer boas escolhas nem pensar apropriadamente. Fica infantilizado e recorre facilmente a seus heróis como substitutos de seus papais e mamães.
            Hoje vemos na política esse movimento de infantilização. Seja o candidato que for, de qualquer partido, mas se ele for visto e apresentado como salvador da pátria, pai do povo, mito, herói na verdade está havendo uma idealização. E perigosa. A política não é lugar para crianças que torcem por seus heróis. Não se trata de torcer para algum candidato e vaiar o oponente, mas de avaliar sobre o que nós como um povo realmente precisamos. Não se trata de dizer “Meu candidato é mais forte que o seu”. Isso são brigas infantis.
            Olhar e avaliar os candidatos e as necessidades políticas com mais pé no chão requer abandonar a infância e as idealizações. Infelizmente nem todos desejam crescer (a grande maioria) ou são capazes de crescer e daí vemos hordas de eleitores/fãs se digladiando por seus “mitos e salvadores”. Um povo é resultado da mente de cada um de seus membros e vemos o quanto o Brasil precisa amadurecer urgentemente. Temos medo de crescer e nos responsabilizar pelas nossas vidas e por isso procuramos avidamente um herói que seja nosso “adulto” que cuide de nós.