segunda-feira, 12 de junho de 2017

A Grande Lição




            Um famoso mestre foi convidado a proferir uma palestra numa grande universidade sobre como atingir a iluminação. Às 8 horas da manhã, horário marcado, a sala estava repleta de gente para ouvir as sábias palavras do mestre. No entanto ele não veio e em seu lugar apareceu um assistente que disse a todos que o mestre havia acabado de acordar e já estava vindo. Muitos ficaram bravos e foram embora. Depois de umas três horas o assistente veio de novo e disse que o mestre no caminho para universidade viu um lindo parque e parou para admirar a paisagem. Mais pessoas saíram revoltadas. Depois foi hora do almoço e o mestre mandou dizer que precisava comer algo. Cada vez mais a plateia foi esvaziando. Depois do almoço o mestre tirou uma soneca e só lá pelas 4 horas da tarde ele surgiu cambaleando como bêbado. Quando viram isso o pouco de gente que havia se retiraram ultrajados. Restaram apenas 4 pessoas para ouvir o mestre e este parando de cambalear disse: “Para quem quer encontrar a iluminação, que é um longo caminho, é preciso primeiro aprender a lição de superar os desapontamentos que sempre irão surgir.”
            Se entendermos iluminação como desenvolvimento é mesmo um longo caminho. Aliás, uma vida inteira. Desenvolver-se é trabalho diário e contínuo, sem nunca chegar ao fim. Obviamente nesse longo percurso muitas adversidades surgirão trazendo incômodo e aborrecimentos. Infelizmente, no entanto, muita gente espera que tudo seja muito fácil e rápido e desistem muito prontamente por não suportarem as frustrações.
            Essa parábola acima é um modelo para pensarmos como nos relacionamos com aquilo que frustra e que destrói as expectativas. Não é para ser tomada literalmente, afinal uma pessoa não ser pontual é falta de respeito mesmo. Mas como modelo para pensar ela nos mostra que serão muitas as vezes que teremos que suportar as frustrações para conseguir algo. Quem não aprende isso fica sem condições para se desenvolver.
            Somos muito mal acostumados na vida e achamos que as coisas tem que acontecer como queremos somente porque assim desejamos. Portar-se assim é viver de maneira imatura e ineficaz. Será que você se permite tolerar algumas frustrações para seguir adiante? 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Pergunta de Leitora - Resgate de Si Mesma




Não sei o que me acontece, não sei quem sou. Sempre me vejo pior que todas as outras pessoas e isso faz eu ter raiva de  mim mesma. Fico sempre à espera que alguém me elogie, que alguém me note e que alguém me admire, mas isso nunca acontece. Tenho insegurança para tudo, até mesmo para comprar uma roupa. Chego a comprar uma calça jeans, por exemplo, e percebo que assim que comprei quero trocá-la. Muitas atendentes de loja já perderam a paciência comigo. E se eu visto algo e alguém diz que não me ficou bom eu fico destruída e não uso mais. Passo adiante. Pareço calma e tranquila para muitos dos meus conhecidos, mas por dentro sou um vulcão que está sempre em erupção e me queimando por dentro. Por dentro eu me xingo e me viro de ponta cabeça. Não sinto que posso contar com ninguém. Será que a psicanálise me ajudaria, como me ajudaria?

            Hoje você se percebe longe de si mesma, cheia de auto ódio e rejeição. Ninguém consegue viver assim, no máximo se sobrevive e com uma qualidade muito baixa. Você se encontra dependente do seu meio e das pessoas dele, não podendo pensar por si mesma. A auto corrosão é coisa séria e altamente destrutiva. Falta-lhe conhecer alguém muito importante para a sua vida: você mesma!
            É aí que entra a psicanálise. A tarefa de um tratamento psicanalítico é ajudar o analisando a conhecer a si mesmo e construir consigo um relacionamento mais favorável e benéfico. A psicanálise entende que se não tivermos um bom casamento conosco a vida se torna impossível. Dos outros e até mesmo de outros grupos podemos nos separar, mas de nós mesmo isso não tem como ocorrer, portanto a única via possível para o nosso bem estar é aprendermos a contar conosco.
            Quem não conta consigo próprio adoece com muito mais facilidade, pois fica enfraquecida e submetida às opiniões e valores de fora, mesmo que estes não sejam favoráveis e nem criem condições de crescimento. A sua insegurança se dá porque você não pode contar com recursos internos, ficando dependendo das pessoas a sua volta para lhe dizer o que é bom ou não. Recursos psíquicos são desenvolvidos e nunca vêm prontos e eles não vão lhe dizer o que é certo ou errado em termos morais, mas em termos do que lhe sejam favoráveis para o seu desenvolvimento.
            A coisa mais importante ao você entrar em um processo analítico é você ser apresentada a você mesma. Ao “casar” consigo poderá fazer um melhor uso das suas potencialidades e contará mais com sua própria mente. Você poderá ficar mais livre e independente. Ser apresentada à sua própria natureza interna permitirá que você saiba como tirar mais vantagem de si e deixar de lado a necessidade de encontrar afirmação fora e através dos outros. A tarefa de uma psicanálise é ajuda-la a descobrir e a desenvolver os seus próprios recursos, para que assim você possa ser você mesma. Não perca tempo, pois o tempo é uma das poucas coisas na vida que não temos como recuperar. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Calamidade




            A droga representa um sério problema de saúde pública que não temos como fechar os olhos. Muitas vezes tendemos a achar que as drogas não são tão problemáticas assim, mas quando alguém próximo, amigo ou da família, aparece com problemas em relação às drogas acordamos assustados e impotentes frente a essa questão que vem cada vez mais se ampliando. Ficar dependente das drogas atinge todas as classes sociais e causa um estrago na economia do país, na organização da família e na vida emocional de muitas pessoas. Enfim, temos que abrir os olhos sem demora.
            Muitos repetem como mantra que as drogas destroem lares e famílias, bem como pessoas que antes do envolvimento com as drogas eram sérias. A verdade não é tão simples assim. A droga não transforma ninguém, ela não tem esse poder. Agora, o poder que ela tem e que é devastador é que ela intensifica o que já existe no sujeito. Em outras palavras, se um dado indivíduo tiver conteúdos muito destrutivos dentro de si, ao fazer uso da droga essa destrutividade interna será potencializada e isso, sim, será devastador. No entanto, o que precisamos perguntar é: quem são essas pessoas que ficam dependentes das drogas?
            Não é fácil responder uma pergunta tão abrangente assim por uma razão muito especial, dentre muitas outras. É que o ser humano não pode ser simplificado de maneira leviana, sendo que há inúmeros aspectos em uma vida que não temos como colocar em palavras e descrever. Mas podemos arriscar dizer que as pessoas que acabam nas drogas estão com seu mundo interno todo bagunçado, para não dizer enlouquecido. E aquelas pessoas que pareciam tão sérias antes das drogas? Como caíram nessa? Bem, a resposta pode ser justamente que elas pareciam estar bem organizadas e estruturadas, porém não eram tão estruturadas assim.
            O problema com as drogas não será resolvido apenas com ações policiais e jurídicas. As drogas são um problema que concerne uma educação sentimental. Esta não tem nada a ver com a educação acadêmica e intelectual, mas com a forma com que as pessoas lidam com suas emoções e sentimentos. A educação sentimental tem relação com a maneira que nos organizamos internamente. Podemos mirar no tráfico, nas punições, mas enquanto não houver uma mudança de consciência de todos as drogas sempre continuarão a ser um problema. Claro que é um trabalho que demanda tempo e persistência, mas que devemos começar agora. Deixo a pergunta: será que são as drogas que são destrutivas ou somos nós?

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Pergunta de Leitora - Mulher ou Super Heroína?




Não tenho paz na minha vida. Sinto que tenho que dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. No meu trabalho sinto que preciso ser extremamente produtiva. Afinal não quero que ninguém me diga que faço corpo mole. Com meus filhos sinto que preciso ser a mãe perfeita, ver se eles estão bem, se estão arrumados, alimentados, estão em dia com a escola, etc. com meu marido sinto que tenho que ser uma esposa modelo, satisfazê-lo, ser companheira, estar sempre muito bonita. Sou síndica também do meu prédio e isso me deixa com mais tarefas a serem cumpridas de maneira eficiente. Enfim, é muita coisa, mas não sei como diminuir e ser mais tranquila. Quando penso que quero desistir me sinto culpada e volto a ser ao que era antes com mais afinco e isso está ficando insustentável. Se pudesse eu deixaria de dormir para dar contas de tantos afazeres. Por que será que eu não consigo relaxar, queria tanto ser como as outras pessoas comuns.

            Você parece querer ser a mulher maravilha. Sente que tem que ser uma super mãe, uma super trabalhadora, uma super esposa e uma super síndica. Talvez almeje até mesmo ser mais super em outras áreas de sua vida que não tenha mencionado aqui. O problema é que na imaginação a gente pode ser super em tudo, mas com a realidade é outra história. Hoje você precisa aprender a diferenciar sobre o que existe na fantasia e o que pode existir na realidade.
            Quem vive a fantasia com se esta fosse a realidade acaba sofrendo dores e desilusões desnecessárias porque isso faz com que se deseje dar conta de uma vida que não é real. Seu problema está em poder aceitar os limites. Hoje você gostaria de poder quebra-los, mas isso faria de você uma super heroína e não uma mera humana. Quando uma pessoa não aceita os limites da vida é porque tem dentro de si uma criança que nega ser adulta e que se apega a fantasia. Essa criança vai querer ou receber de tudo e ser completamente satisfeita ou vai querer dar de tudo e satisfazer totalmente as expectativas dos outros. Ambos os casos causam muitos problemas.
            No seu caso, que tem mais a ver com o desejar atingir a total satisfação dos outros, faz com que você fique intensamente focada a dar mais do que o necessário. Todas as áreas da sua vida tornam-se um constante e obrigatório se doar além da medida e a um custo muito alto. E se você não faz se sente culpada. Se isso está ocorrendo é porque essa criança que não aprendeu limites está influenciando em demasia o seu lado adulto. Mas a questão que você precisa se fazer é se você aceita ser uma adulta normal e não a super heroína da fantasia.
            A sua última frase do email é bastante interessante para pensarmos o quanto você quer se sentir mais e maior do que uma pessoa pode ser. Você disse “queria tanto ser como as outras pessoas comuns” como se na verdade houvesse uma separação entre você e os outros. No entanto não há. O que há é da dimensão alucinatória da sua fantasia que tenta (e sempre será sem sucesso) separar você do resto da humanidade. Aceitar os limites é saudável e mostra que na vida nem tudo podemos e devemos.