segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sucesso e Fracasso



            As pessoas sempre almejam ao sucesso e temem o fracasso, pelo menos é assim que diz o senso comum. A psicanálise nem sempre concorda com o senso comum, pois entende que o senso comum está, muitas vezes, a serviço de se ocultar a verdade. É que a verdade é sempre menos aceita porque nunca é tão bonita como nossas ilusões e é um fato que nos apegamos mais às nossas ilusões do que à realidade. Sabendo disso e usando da psicanálise podemos ver que nem sempre almejamos ao sucesso quanto pensamos. Na realidade tememos muito o nosso próprio sucesso.
            Existe em nós algo como o “medo da felicidade”, por incrível que pareça. Isso se dá porque a nossa felicidade demanda de nós muito mais do que demanda os medos e fracassos ao longo da vida. Quando vamos acumulando sucessos na vida, tememos inconscientemente que uma tragédia possa aparecer e destruir o sentimento de realização, de perdermos tudo. Não é à toa que há tantos rituais para afastar a má sorte e mau olhado, como bater na madeira, sal grosso, olho grego, etc. Esses rituais nada mais são do que formas de nos proteger da nossa destrutividade e da certeza de que vamos, um hora ou outra, sabotar nossa felicidade
            É como se dentro de nós existisse alguém que pusesse em dúvida nossa possibilidade de ser feliz. Duvidamos que mereçamos coisas boas porque em algum nível acreditamos sempre que precisamos sofrer. Isso tudo não tem a menor lógica, mas quem disse que nossas mentes funcionam através da lógica? A psicanálise nos mostra que a lógica própria da mente é o que nos mais influencia e dá o tom de como vivemos e acolhemos nossas experiências de vida e o que vemos é que tememos a felicidade e acreditamos que merecemos a infelicidade por mais incrível que isso possa soar.
            A verdade é que apesar de temermos os fracassos eles nos são conhecidos e tendemos sempre a agarrar o conhecido. O sucesso e aqui me refiro aos verdadeiros sucessos na vida, não àqueles superficiais, mas que criam um sentimento de realização, requer nossa responsabilidade. Sucesso exige o máximo de nós continuamente enquanto o fracasso não. Por isso que há tanta gente que sabota a própria vida já que temem, sem nem saber que temem, quais as responsabilidades que terão para manter uma vida de sucesso e satisfatória. Somente com um verdadeiro trabalho interno de desenvolvermos uma autoestima é que podemos acolher melhor os sucessos e abandonarmos os fracassos.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O Gozo pela Dor do Outro




            Já repararam como vende muito aqueles jornais dedicados às notícias de truculência? E aqueles programas de televisão que mostram a desgraça alheia que têm sempre telespectadores fieis? Pois é, é fato que a maior parte das pessoas adoram uma notícia sensacionalista e quanto mais detalhes bizarros e grotescos melhor. Por que será assim?
            A vida é dura, cheia de muitas frustrações e sofrimentos. É assim para todos e para grande parte das pessoas é ruim imaginar que a vida do outro é melhor, pois é verdadeiro que quando comparamos nossas dificuldades com outras pessoas tendemos a achar que as nossas são sempre piores e mais dolorosas. Então, se temos o hábito de dar mais peso às nossas dores criamos a fantasia de que a vida dos outros é tudo muito mais fácil e agradável. Nessas horas esquecemos a realidade e imaginamos que nossos vizinhos têm a vida que pedimos aos céus e ao fazer isso agravamos ainda mais nossos sofrimentos já que nos sentimos em desvantagem. Portanto, para quem está sofrendo é sempre prazeroso ver que muitas outras pessoas também estão mal ou até pior.
            Assim, diante da abundância de notícias trágicas e sensacionalistas a pessoa que sofre no seu dia a dia encontra certo alívio. Afinal, essa pessoa pode pensar, se a vida está dura para mim poderia ser bem pior como a dessas pessoas noticiadas. Por incrível que pareça muita gente sente prazer observando a dor e sofrimento dos outros. O ser humano é mesmo assombroso!
            Veja, por exemplo, quando uma pessoa é atropelada. Muitos rodeiam o acidentado com o objetivo único e simples de observar a cena e nada mais. Não podem ajudar a vítima, nem prestar socorros uteis, porém não arredam pé da cena e a admiram com certo gozo no olhar e nos comentários. É justamente isso, esse alívio que as pessoas estão procurando, já que assim se sentem sortudas por não estar naquela situação. O problema de se depender apenas das tragédias e dores para encontrar alívio é que a pessoa pode se tornar insensível. Torna-se fria e descrente de que possa haver generosidade e atos de amor nesse mundo e isso leva a um processo de desumanização. Chega uma hora que é preciso sair desse gozo primitivo para alçar voos bem mais favoráveis ou em outras palavras é necessário se humanizar para que assim a vida possa se enriquecer. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pergunta de Leitora - A experiência da Análise



Recebi de uma leitora as seguintes perguntas sobre psicanálise que tentei responder o melhor e mais simples possível. Há muitas questões técnicas que demandaria uma aula sobre fundamentos da psicanálise, mas isso não seria interessante e levaria muito tempo. Essas questões, contudo, são as de muitas pessoas.

1- Existe um valor médio para a sessão? Sei que muitos psicanalistas acordam com o paciente o valor das sessões, mas existe um mínimo e máximo? Por exemplo, um valor aproximado... Pra ter uma noção antes de começar.

Não existe valor fixo. Cada um pratica o que quer ou o que pode. Só mesmo conversando com o profissional para saber ou chegar a um acordo. Varia também o local. Cidades como São Paulo acabam tendo um valor maior, afinal o custo de vida lá é mais alto. Portanto os honorários de cada psicanalista são matéria de cada um. Para saber vai ser necessário entrar em contato com o profissional.

2- Uma vez li um texto que dizia que para a análise iniciar de fato, é necessária a transferência e o analista precisa ter aceito aquele paciente em análise. O que seria aceitar o paciente em análise?

Significa o analista sentir que o analisando pode se beneficiar do processo da análise. Que, em algum grau, o analisando entende que há uma responsabilidade sua pela vida que leva, que seja um indivíduo que sofra e que tenha curiosidade sobre si mesmo, sobre seu mundo interno. Há muitas questões envolvidas para se tomar alguém em análise, mas esses três fatores são muito levados em consideração. Sem estas condições fica difícil um analisando levar em frente um processo que demanda entrar em contato com dores antigas e poderosas. Sem consciência do sofrimento, sem presença da curiosidade sobre si e sem responsabilidade por si mesmo não há como uma análise acontecer e aí desistir do tratamento no meio do caminho é muito frequente. O analista para aceitar alguém deve olhar para essas questões.

3- As primeiras entrevistas são feitas numa poltrona geralmente, analisando e analistas ficam de frente um para o outro. Em que momento o analista leva o paciente ao divã? O que demarca, exatamente, esse momento? Existe um tempo médio pra que isso aconteça?

Ah, o divã! Como isso gera dúvidas. Essa peça do mobiliário de um consultório analítico é algo que deixa muita gente curiosa. A análise, que fique entendido, não depende do divã. Ela pode acontecer frente a frente, com o paciente sentado na poltrona. Portanto, é um erro, que até muitos psicanalistas cometem, crer que a análise necessita do divã invariavelmente. Frente a frente a análise pode acontecer, porém quando um analisando passa ao divã pode ter um contato maior com seu mundo interno. Nesse momento o analista e analisando ficam “livres” dos olhares um do outro para “sonhar” a sessão. Cada um fica entregue às suas associações livres para cada vez mais dar um sentido ao que se fala e se escuta. O analista pode convidar o analisando a ir para o divã quando acredita que podem sonhar mais nesse encontro que vivenciam juntos, mas ir para o divã jamais deve ser uma imposição. É um convite que pode ser aceito ou não. Ao estar deitado faz com que o analisando também saia de uma formalidade e possa ser ele mesmo, mais informal e espontâneo. A análise não se trata de um encontro formal ou social, mas um encontro de descoberta onde possamos nos colocar em novas posições em nossas vidas.

4- O que você acha do contato físico entre paciente e analista? Dois beijos ao cumprimentar, aperto de mão e até mesmo um abraço? Partindo do paciente esse ato, o que o analista pode fazer diante disso?

Não há problema algum, em princípio. A questão não é o beijo, o aperto de mão ou o abraço, mas qual o sentido deles. Há beijos que não são beijos, mas mordidas disfarçadas de beijos. Há abraços que são prisão e apertos de mãos que são apenas hábitos corriqueiros formais. E também há beijos que são beijos e nada mais. O que importa é qual o clima desse contato físico, qual o sentido que pode ser apreendido deles. Algo que tem que ser trabalhado, conversado? Algo que o próprio analisando não percebeu? Depende muito. Psicanálise não é ciência exata que se enfia o que acontece numa equação. O que se precisa numa sessão é haver disponibilidade para olhar as coisas com novos olhos. E também muito respeito entre os envolvidos. Nenhum paciente precisa se sentir mal porque cumprimentou o analista.

5- E sobre possíveis encontros na rua? Por exemplo, encontrar com o analista num restaurante ou shopping. Como agir? Cumprimentar ou não? E por que muitos analistas consideram que o "simples" fato de encontrar um paciente fora do consultório pode ser devastador para a análise chegando a ponto de interromper o tratamento?

Ora essa! A gente encontra pacientes na rua, no supermercado, em restaurantes, em todos os lugares. Qual é o problema? Se o paciente quiser cumprimentar, cumprimente. O que tem demais? Se um analisando sente alguma coisa ao encontrar o analista em algum lugar publico, pode levar isso para a análise. Isso pode ser matéria importante e interessante para se entender o que se passa. Se alguém interrompe a análise por causa disso está vivendo sob a ditadura de uma fantasia muito forte e isso vale tanto para o analisando quanto para o analista. O analista não deixa de ser uma pessoa comum que come, anda, passeia e por aí vai. Encontrar-se e cumprimentar-se não significa que tenham que sair juntos, trocarem figurinhas e terem uma vida social conjunta. Ninguém vai derreter se analista e analisando se esbarrarem por aí. A análise acontece no consultório e não fora dele e fantasias que venham a surgir devem ser analisadas.


Apesar de ter respondido às essas questões quero dar ênfase que a análise é acima de tudo uma experiência emocional única e intransferível. Ela não pode ser colocada de maneira intelectual, pois isso mata o sentido. Quando tentamos explicar demasiadamente algo, morre-se o sentido. Um poema, por exemplo, não foi feito para ser explicado ou racionalizado, mas sentido. É impossível explicar aquilo que não foi feito para ser justificado. A análise é uma experiência emocional entre duas pessoas que provoca e gera transformações. É uma experiência transformadora onde passamos a nos relacionar conosco e com a vida de uma nova maneira. Ao viver um processo analítico temos a chance de descobrir quem somos e como podemos viver cada vez melhor. Melhor do que perguntar sobre psicanálise é se colocar disponível para a análise e viver uma experiência que pode ser impactante na vida. Nada substitui a experiência pessoal.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vacas Imaginárias


                Uma história budista conta sobre um mestre que foi ao mercado com seus discípulos. Esse mestre era conhecido por ser um sábio e por usar corriqueiras situações como matéria para aprendizagem. Vendo um homem arrastando uma vaca ele o parou e chamou todos os discípulos ao redor e lhes fez a seguinte pergunta “Quem está amarrado a quem? O homem à vaca ou a vaca ao homem?” Os discípulos pensaram e disseram que era claro a vaca estar atada ao homem, pois ele a arrastava, ele era o mestre e a vaca a escrava. O mestre sorriu, pegou uma tesoura, e cortou a corda entre o homem e a vaca. Nesse momento a vaca saiu em disparada fazendo com que o homem saísse correndo atrás dela. O mestre disse: Agora a situação se inverteu e a vaca se tornou mestre. Vejam, o mesmo acontece com vocês e suas mentes. A vaca é as ilusões que vocês carregam aí dentro, mas são vocês que estão interessados nela, vocês se prendem a ela e quando ela se afasta vocês correm atrás dela. Isso causa doenças e deixa o espírito pesado. Porém, se vocês se desinteressarem de tudo aquilo que não precisa vocês serão livres e não precisarão ficar presos a nada.
            É uma verdade dolorosa de se ouvir e de saber que muitas vezes nós ficamos presos e criamos muitas situações que nos adoecem por responsabilidade (ou falta dela) nossa. Frequentemente desenhamos cenários internos catastróficos e nos atamos a tantas coisas inúteis e irreais que passamos a viver as nossas criações e não a realidade. Estar constantemente ansioso, por exemplo, é ficar correndo atrás de várias vacas imaginárias.
            O problema é quando passamos a tratar as vacas imaginadas como reais e nos distanciamos daquilo que realmente importa. A grande maioria das adversidades que padecemos é por nos envolvermos com nossas alucinações. Uma pessoa que sofre é uma pessoa aprisionada. A saúde mental requer liberdade e esta não vem gratuitamente, mas precisa ser conquistada. É um processo longo se livrar de algumas “vacas” e necessitamos de paciência, persistência e tolerância. O caminho para ser livre é árduo, contudo é o único que vale a pena trilhar.