sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pergunta de Leitor - Uma dádiva e não um peso


Me pego com 37 anos e levando uma vida totalmente diferente e aquém do que sempre planejei. Tenho um casamento que foi forçado e que não me satisfaz. Não queria ser pai e agora sou contra a minha vontade porque a minha mulher decidiu assim. Meu trabalho é ridículo e mal serve para eu pagar as minhas contas. Olho para os meus irmãos que estão encaminhados na vida e fico me sentindo mal. Tenho raiva da vida e não consigo encontrar nenhuma saída. Jogo na loteria com esperanças de ganhar e mudar a minha vida, mas todas as vezes que vejo que outras pessoas ganharam menos eu, fico furioso. Sou bem mais inteligente que a maior parte das pessoas e mesmo assim vejo gente medíocre ganhando mais do que eu. Só sei que estou cansado e sem saber o que fazer.

            Há um ditado antigo que diz Quando alguém faz planos, Deus ri da ingenuidade dessa pessoa. Esse ditado fala que por mais que façamos planos sobre nossas vidas, muitas coisas se darão de forma diferente. É impossível e nem seria natural levar uma vida totalmente planejada. A vida sempre nos surpreende e, infelizmente, muitas surpresas não são agradáveis.
            No entanto, quando a vida sai totalmente fora daquilo que queríamos é porque de alguma maneira deixamos muito de lado o nosso caminho, fazendo com que a vida ou alguém externo decida tudo por nós. Não sei se esse é o seu caso, mas valeria a pena refletir.
            Você deve se perguntar porque aceitou um casamento forçado, porque seu desejo de não ser pai não foi ouvido e porque se encontra num trabalho que não te satisfaz. Você imagina como sua vida poderia ser, mas trabalha com você mesmo para que essa imaginação possa se concretizar? Ou fica só aguardando que coisas boas te aconteçam sem que você tenha que fazer nada? Será que é por isso que espera ganhar na loteria? Se for, perde tempo, pois este passa sem que você o aproveite.
            Agora, você se julga inteligente, só que está lhe faltando usar a sua inteligência a seu favor. De que lhe adianta manter a inteligência guardada? Porém, não seja só inteligente, mas também e acima de tudo seja sábio. O sábio não fica à espera da felicidade bater em sua porta, mas cria condições e meios para que a felicidade ocorra. Quando você mudar a sua posição perante a vida, ou seja, quando você abrir mão da posição de vítima e adotar outra mais ativa e responsável, poderá ver a vida com um olhar melhor. A vida passará a ser uma dádiva e não um peso.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Adoração Prejudicial



            Aconteceu num show de comédia, os populares stand ups, de um famoso humorista fazer piada sobre um popular e conhecido ex-presidente e uma pessoa da plateia se manifestar indignada e defendendo veemente e violentamente o tal ex-presidente. Evidente que uma pessoa ter apreço por política ou por algum representante político está em seus plenos direitos, mas o perigo é quando um político se torna alvo de adoração e passa a ser visto como se estivesse acima de tudo e de todos.
            Quando algum político ou qualquer outra figura de destaque ganha aura de intocável cria-se um perigo muito grande. O perigo reside no fato de que se uma pessoa é adorada ela ganha exclusividades que a torna diferente, ganhando uma posição de se estar acima das convenções que costumam gerir as demais pessoas. Está criado, nesses casos, a exclusão que é extremamente prejudicial para o bom andamento de qualquer sociedade.
            Ao tentar se criar figuras míticas e que jamais sejam questionadas é um pensamento infantil que crê num personagem que tenha todas as respostas e que possa tudo. Os limites, segundo o pensamento infantil, não existem para determinadas pessoas. As crianças acreditam que haja dois tipos de pessoas: aquelas que como elas se sentem vulneráveis e as outras que tudo podem e conseguem. Não é a toa que as crianças tenham adoração apaixonadas por muitos personagens e pessoas à sua volta. À medida que vão crescendo percebem que essa adoração toda era uma fase e que foi superada para poder viver a vida com mais realidade e possibilidade.
            Agora, quando o pensamento infantil se faz presente na política a situação pode ficar muito ruim. A política não deve ser vivida para alimentar a vaidade de algumas determinadas figuras, mas deve ser um instrumento onde se possa pensar sobre como construir uma sociedade mais justa e eficiente. Ao se criar um “deus” intocável mata-se  a justiça e instaura uma sociedade formada de pessoas que acatam tudo sem a menor cerimônia e sem o menor senso crítico. Gostar e se sintonizar com um dado político é uma coisa, porém é bem diferente construir um altar para determinada pessoa e atacar qualquer outra forma de pensamento diferente. Todas as ditaduras começaram desta forma. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pergunta de Leitora - Reconhecer os sinais


Estou divorciada há quase quatro anos. Fiquei casada por 15, mas meu ex era abusivo, chegando até me bater. Depois me relacionei com um homem que se revelou alcoólatra e que ficou também abusivo. Por fim, meu último relacionamento foi com alguém que descobri depois que era viciado em drogas. Enfim, todos os meus relacionamentos os caras se revelaram violentos e só fui perceber depois de algum tempo. Só que agora eu morro de medo de acabar de novo num relacionamento desastroso. Preciso quebrar essa repetição, mas tenho medo de confiar nos homens e me dar mal novamente. O que será que devo fazer?

            As pessoas não são livros fechados, do qual ninguém sabe o que tem dentro, mas dão sinais no decorrer do tempo. Num primeiro momento ninguém se revela e o que mostra é apenas aquilo que deseja que seja conhecido. No entanto, passado esse primeiro momento, sinais de advertência são deixados escapar nas pequenas ações do dia a dia permitindo, então, se ter uma idéia mais próxima da realidade de quem seja aquela pessoa.
            A questão que você deveria se fazer é por que você não conseguiu reconhecer esses sinais. O que será que te cegou e te ensurdeceu para negar os sinais que esses homens devem ter revelado ao longo dos dias em que vocês ficaram juntos? Uma possibilidade é que ao se encantar por um determinado homem você nega qualquer outra informação que não seja aquela que te mostre o quão maravilhoso ele é, ou seja, você se fecha aos sinais que contrariam o seu encanto.
            Quando é possível levar os sinais, por menores que eles sejam, em consideração é possível se ter uma idéia de quem é abusivo ou de como ele vai se relacionar com você. Pode ter certeza de que a maneira que ele se comportar com a vida em geral vai ser a mesma maneira que ele vai se comportar com você. Porém, quem nega os sinais se engana e só consegue ver o que quer e não a realidade.
            Você diz que está difícil confiar nos homens, mas o que está realmente difícil é você confiar na sua capacidade de avaliar, com mais propriedade, quem pode lhe ser um bom companheiro. A dúvida não é em si em relação aos homens, mas a si mesma. Conhecendo melhor porque você funciona negando os sinais e a realidade poderá ter uma idéia do porque se repete nesses relacionamentos e poderá quebrar esse padrão. Estará livre para criar outro tipo de funcionamento para si própria e pronta para encontrar alguém que lhe seja bom. Saberá reconhecer o outro com mais eficácia e entenderá se é isso o que realmente quer.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Procrusto e os seus perigos


                Na antiga mitologia grega Procrusto era um bandido louco que tinha em sua casa uma cama de ferro, no seu exato tamanho, para a qual convidava todos o viajantes a se deitarem. Caso os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Ele torturou e assassinou muitos até que foi capturado por Teseu que prendeu Procrusto em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe  o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes. Essa estória mitológica revela algo que vem acontecendo muito hoje em dia e que acaba por trazer muita confusão e mal-entendidos: a padronização.
            Padronizar é perigoso e inútil porque cada ser é diferente dos outros. Comparar crianças pequenas, por exemplo, e que tanta gente faz, é algo que deveria ser evitado porque não traz verdade. Há crianças que se desenvolvem mais rápidos e outras mais devagar e a maneira e velocidade de cada criança não é um indicativo de que algo, necessariamente, vai mal. É preciso saber respeitar o tempo de cada um. No entanto, existem muitas pessoas e escolas para crianças bem pequenas que insistem em criar padrões que só levam os pais ao desespero achando que seus filhos têm algum problema porque comparado com outra criança ainda não faz uma determinada coisa.
             Obviamente que os adultos devem estar atentos aos sinais dos pequenos e procurar ajuda quando percebem que algo está destoando. Mas esse exercício de observação deve ser feito com cautela e com muito respeito ao tempo de cada criança, senão vira um exercício persecutório, ou seja, paranoico. Uma demora mais longa na criança aprender a falar, a andar ou a mastigar não deve ser encarado com angústias excessivas. Pelo contrário, quanto mais angústias os pais ou tutores dessa criança viverem mais podem assustar o pequeno que fica mais inibido em seu desenvolvimento. Algumas crianças precisam de mais tempo do que outras. Agora, o que não se deve fazer é colocar todas as crianças na cama de Procrusto.
            As crianças não nascem todas iguais. Há inúmeras diferenças entre elas. Podemos ver que há crianças mais agressivas e outras menos agressivas, lembrando que agressividade quer dizer uma pulsão que faz com que uma dada criança seja mais intolerante ou tolerante, o que por sua vez muda a forma como ela se relaciona com o mundo em sua volta. Cada criança vai ter suas peculiaridades e respeitar e estar presente para ajuda-la é o que importa para que ela possa viver um bom desenvolvimento.
            Einstein, que ninguém tem dúvidas de sua genialidade, demorou anos para aprender a dizer as primeiras palavras e a andar e houve até mesmo um episódio no qual um professor disse aos seus pais que deveriam desistir dele porque ele não seria ninguém na vida. Pois é, esse professor colocou Einstein no modelo que ele considerava que era uma criança padrão e com isso fez mais mal do que bem e passou para a história como ridículo. Teseu já venceu Procrusto, devemos agora vencê-lo nas nossas ideias e pensamentos para que muitas crianças possam se desenvolver no seu ritmo e com confiança.