sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pergunta de Leitor - Sentir a experiência


Sou um grande entusiasta da psicanálise. Sou formado em filosofia, mas sempre me interessou muito a psicanálise e o quão rica em significados e sentidos ela tem. Tenho muitos livros sobre o assunto e gosto muito de estudar. Faço até parte de alguns grupos de estudo. Entretanto, nunca passei por uma análise. Não sinto que me é necessário. Muitos colegas já me disseram que eu deveria me submeter a uma análise. Será que é necessário mesmo? É possível ser um psicanalista sem passar pela análise?

            A psicanálise pode ser muito entusiasmante de fato. No entanto, você se entusiasma só pela teoria e não por todo o processo. Você gosta da parte teórica da psicanálise e não da parte da vivência, ou seja, você enxerga a psicanálise como um exercício intelectual e não com uma experiência emocional e transformadora.
            Tornar-se um psicanalista é acima de tudo uma experiência emocional e pessoal. Ninguém se torna um psicanalista porque lê livros sobre psicanálise. Estudar é até, relativamente, fácil, mas o que conta para o psicanalista é a sua vivência ao passar por um processo de análise. A transformação e sentidos novos não vêm através da leitura teórica, porém podem vir como resultado do encontro entre a fala do analisando e da escuta do analista. Esse encontro é que propicia a verdadeira transformação.
            Provavelmente em seu email você está a falar da sua resistência. Resiste a entrar num processo analítico porque entrar nele é entrar no desconhecido. Ninguém sabe o que pode surgir e se apresentar na própria análise, por isso que se trata do desconhecido. Você valoriza muito o que você sabe e teme perder essa posição. Só que quem se agarra apenas ao que sabe não abre espaço para o que não sabe e se imobiliza no desenvolvimento.
            A sua resistência está a serviço do controle. A intelectualidade é de fácil controle e é a ela que você se prende. Já a experiência emocional requer a entrega e a supressão do controle. Você estuda a psicanálise, mas não se entrega a ela por medo de perder o controle. Quem sabe ao refletir sobre isso você não possa abrir mão do controle e começar a ver a psicanálise inteira e não só de maneira parcial? Depende de você mesmo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Abrir os Olhos


            No meio de tantas más notícias e tragédias uma notícia em especial me chamou atenção e mostra que vale a pena e muito! ter esperanças na humanidade apesar de ultimamente nos darmos conta de tantas desgraças. A notícia: Um jovem no Irã condenado à morte por ter assassinado outro jovem de 18 anos numa briga de rua em 2007 foi salvo pela mãe da vítima na última quinta-feira (17 de abril). De acordo com o relato do pai da vítima, sua esposa havia sonhado com o filho morto que dizia estar bem e que não precisavam matar o seu assassino. Momentos antes do criminoso ser enforcado, a mãe subiu até ele, desferiu um tapa em sua cara, ajudou a tirar a corda em volta de seu pescoço, disse que o perdoava e saiu de lá aos prantos. O assassino também chorava e todos que presenciaram a cena ficaram comovidos.

            Sobreviver ao próprio filho já é para a mãe uma coisa horrível e imensamente dolorosa. Espera-se que a vida siga o curso natural que prega os pais irem antes de seus filhos, mas quando a morte do filho é fruto da violência e das mãos de um assassino a dor fica insuportável porque nesses casos tem-se alguém para culpar e que foi responsável por esse desatino. Na lei Iraniana alguém culpado pela morte de outro sofre a pena de morte. Se tirou uma vida, terá a sua vida também tirada. É a velha lei do olho por olho, dente por dente, lei esta mais antiga do que podemos imaginar e que tem no ato de vingança a sua justiça.

            A dor que esta mãe sentiu ao saber que seu filho tinha sido assassinado deve ter sido enorme ainda mais porque anos antes ela já havia perdido outro filho num acidente de moto. É de enlouquecer qualquer um e ela tinha todos os motivos do mundo para querer ver o assassino de seu filho enforcado. Porém o ser humano pode ser surpreendente e digno de atitudes magistrais. A dor que sentia e que sempre sentirá pela perda de seu filho não irá diminuir, mas ela não permitiu que essa mesma dor dirigisse sua mente e a levasse à vingança. Ela entendeu que a morte do assassino não iria resolver o seu sofrimento e nem reparar a sua perda. Iria apenas gerar mais violência e raiva. Ela abdicou da vingança e promoveu a verdadeira justiça. Agora o assassino cumprirá pena na prisão e poderá, teoricamente, refletir sobre o que fez e o que lhe aconteceu.

            Só mesmo uma mulher madura emocionalmente poderia ter tal atitude. A educação sentimental, que tanto nos faz falta, é de vital importância para como a sociedade pode agir. Ao dar um tapa no assassino e perdoá-lo ela foi tal como uma mãe para ele. Ela o reprendeu, mas pôde ao mesmo tempo amá-lo. Isso não é para qualquer um, mas apenas para aqueles que se permitem aprender com as experiências de vida e que não deixam a dor dominar. A humanidade tem muita coisa boa a oferecer, só precisa se dedicar mais àquilo que engrandece a vida e a torna realmente digna. Atitudes assim são poucas, mas a esperança é a última que morre. Gandhi dizia “Se o mundo continuar na lei do olho por olho, todo o mundo acabará cego”. Que tal renunciarmos à cegueira e abrirmos os olhos? Que tal aprendermos a sair de nossas dores e a fazer disso tudo algo maior e melhor. É um trabalho de todos, mas precisamos acordar o quanto antes.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pergunta de Leitora - Segurança e Confiança


Meu filho já está com sete anos e até agora não largou a chupeta. Antes, quando ele era menor era até bonitinho ele usar chupeta mas agora acho que passou dos limites. Tenho vergonha quando ele chupa a chupeta na frente dos outros e dos familiares que criticam que não estou sendo firme o suficiente com ele. Meu marido já está irritado com nosso filho e fica falando que se ele não parar com a chupeta ele é um mariquinha. Não sei mais o que fazer e na escola ninguem conseguiu me ajudar. Será que ele tem problemas psicológicos? Como eu tiro a chupeta dele? PS. Já fiz isso ele chora sem parar por dias seguidos.

            Não é mesmo fácil ser criança. Apesar de que muitos imaginam que ser criança é ter vida boa, na verdade é uma época de grandes turbulências e ansiedades. A criança é um ser dependente e por isso mesmo é possuída por fantasias de desamparo e abandono. Desde uma idade muito precoce a criança tem que se deparar e lidar com muitos sentimentos e conflitos. Crescer pode ser muito assustador.
            Durante o crescimento a criança pode eleger um determinado objeto que seja um ponto de referência. Algumas fazem uso de travesseirinhos, cobertorzinhos e bichinhos de pelúcia. Quando seu filho usa a chupeta ele está buscando um ponto de referência para aplacar seus sentimentos de insegurança. Ele retorna a um hábito antigo e conhecido, e por isso mesmo seguro, para não se sentir invadido por sentimentos dos quais não se sente preparado para dar conta.
            De nada adianta usar a violência para diminuir esse hábito. Quanto mais xingamentos e atitudes de repreensão seu filho vivenciar mais ele vai se sentir desprotegido e carente do uso da chupeta. Nesse caso é necessário ter muita paciência para poder ajudar seu filho a se sentir seguro para abandonar a chupeta e criar mecanismos de segurança mais maduros. Pode começar combinando com ele que existe uma hora e um lugar para ele fazer uso da chupeta. O acordo permite que cada um ceda de um lado. O acordo é sempre um bom negócio.
            É preciso também entrar em um acordo com seu marido para que ele pare com ações que nada ajudarão. Xingar o próprio filho é desampará-lo, sendo que o que ele mais necessita é se sentir seguro para poder crescer com confiança. Dar limites às críticas dos familiares também é importante. Ao entender que o processo de amadurecimento é mesmo complexo você poderá ajudar seu filho com mais segurança e confiança, que é justamente o que ele mais precisa.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Santo Graal


            O santo graal é descrito como a taça que Jesus usou na última ceia. Como um objeto físico é considerado perdido e por muito tempo, principalmente na Idade Média, foi procurado em vários lugares. Queriam achá-lo por que acreditavam que quem o achasse seria cumulado de incontáveis bênçãos divinas. Muitos levaram tão a sério essa busca pelo graal que desperdiçaram suas vidas inteiras em buscar algo que existe de fato, mas apenas metaforicamente.
            É comum trocar o pensamento simbólico por algo concreto. Símbolos necessitam de uma mente mais refinada e que se proponha a pensar e não simplesmente acreditar que tudo está no plano físico. O graal, essa taça mítica, existe verdadeiramente, porém como símbolo de algo muito importante na vida. A busca pelo graal deve ser algo que nos oriente sim, só que através do nosso mundo interno. Em outras palavras quem busca pelo graal busca por si mesmo.
            Nenhum objeto concreto e físico é detentor de poderes divinos. Acreditar em relíquias santas é um pensamento infantil que prima que algo de fora nos dá poder. Melhor transformar esse pensamento primitivo em outro e procurar esse “poder divino” dentro de si próprio, dentro da sua própria mente. É realmente uma pena que a maioria das pessoas tenda a não acreditar que a própria mente é um dos maiores tesouros que poderão ter na vida. Valorizam tanto o que existe externamente e se dispõem a correr atrás de tudo o que lhe for alheio que esquecem de buscar e desenvolver seus mundos internos.
            Como taça, o graal, recebeu benção e sabedoria. Porém, essa taça está disponível para qualquer um que se proponha a encontrá-la dentro de si. Ou ainda melhor, para qualquer um que se proponha a construí-la em si. Essa taça é a representação da nossa própria mente que necessita ser sempre “buscada”. A jornada mais espetacular que alguém pode empreender é a jornada interna. Só com a mente desenvolvida podemos aproveitar a vida de maneira eficaz. Todos estão sempre convidados a buscar pelo graal, contanto que sejam capazes de entender o que significa essa busca e o que ela encerra. A verdadeira corrida pelo graal nos é sempre disponível.