sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pergunta de Leitora - Do Trauma ao Trunfo


Hoje estou com 22 anos e desde os meus 13 meu tio abusou sexualmente de mim. Isso me deixou muitos traumas e até hoje nunca consegui ter um relacionamento sério e nunca tive relações sexuais normais com alguém. E para piorar quando eu era abusada eu sentia prazer. Como explicar isso? Será que sou uma desvirtuada? Meu tio mora até hoje na minha casa e eu finjo que nada ocorreu. Ele também nem toca no assunto do que já fez no passado. O que posso fazer para tirar essas imagens da minha cabeça e parar de sentir prazer quando me lembro delas?

            O incesto é um ato antissocial dos mais graves tanto que Freud escreveu que a civilização só é possível quando determinados atos podem ser contidos. Sem a possibilidade de contenção de determinadas atitudes a civilização seria impraticável. O incesto é um ato de violência potencializado e quem cai nele é, certamente, louco. Esse é o caso do seu tio.
            O abuso sexual é catastrófico por si só, mas quando ele é praticado por alguém da própria família que supostamente deveria zelar pelo bem estar e pela segurança do menor é mais trágico ainda. Uma família que vive sem as regras básicas de civilização é uma família sem a menor possibilidade de oferecer segurança emocional para uma criança e de mostrar a ela que na vida nem tudo se pode e que há determinados atos que só levam à desorganização psíquica.
            Hoje você se percebe assim, desorganizada internamente. Sente prazer com as lembranças quando ao mesmo tempo também sente repulsa e é por isso que se sente desvirtuada. Quando os órgãos genitais são manipulados é provável isso causar certa excitação e esta pode ser sentida como prazer. Foi isso que lhe aconteceu. Hoje você está em dúvida sobre qual sentimento mais lhe domina: prazer ou repulsa e por isso vive em conflito. Não só seu corpo foi abusado, mas também a sua mente e a sua autoimagem. Você não entende que o que lhe foi feito é avassalador e criminoso, tanto que aceita morar sob o mesmo teto que o abusador.
            Para se livrar das imagens e do prazer que te assustam vai ser preciso se tratar com alguém que saiba te escutar para ouvir o que você tem a dizer desse ato que sofreu. Em outras palavras, vai precisar se organizar internamente e desta vez de uma maneira que lhe seja favorável e sadia. Atualmente você tem um trauma, mas pode fazer desse trauma um trunfo que lhe permita entender que há barreiras que não devem jamais ser ultrapassadas. Vai aprender a se fazer justiça, que é o que lhe falta. Sartre, filósofo francês, dizia que mais importante do que os outros nos fizeram é o que vamos fazer com o que os outros nos fizeram. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Acumuladores


            Existe na TV paga um programa que se chama Acumuladores e nesse programa é mostrado o interior das casas de algumas pessoas que têm dificuldades em jogar qualquer coisa fora e acabam acumulando tudo, mesmo que seja até lixo. Quando se vê o estado em que ficam os cômodos da casa, repletos de entulhos que vão desde embalagens de produtos, roupas velhas, papéis, revistas e jornais, o sentimento que desperta é de um grande choque bem como a pergunta de como se chegou a esse estado. Obviamente essas pessoas não são apenas desorganizadas, mas têm graves problemas psicológicos.
            Salas inteiras ficam tomadas por tantas coisas inúteis que sofás, poltronas e outras mobílias ficam embaixo de montes de lixo. Há pessoas que não conseguem mais dormir em suas camas pois estas estão cheias de objetos e outras nem mais podem usar suas cozinhas já que usam o forno e geladeira como armário para guardar coisas que não deveriam estar lá. O que se vê é que a casa perde o seu sentido. Em vez de um lar torna-se um depósito de quinquilharias. O que será que acontece na mente desses acumuladores para deixarem as coisas num estado tão calamitoso?
            A resposta pode ser encontrada na ansiedade de separação. Quando nos separamos de alguém ou até mesmo de algum objeto que estimamos sentimos a perda e é justamente esse sentimento que muito frequentemente se tenta evitar. A perda é sentida como algo negativo, como algo que deve ser evitado. A perda em nossas mentes causa desprazer e nosso funcionamento mais básico faz com que fujamos do desprazer e que vamos atrás  daquilo que pode nos causar prazer. O grande problema aqui é quem não admite a perda fica impossibilitado de se desenvolver, pois o desenvolvimento implica aceitar a perda de algo passado e ir adiante na vida. Todo crescimento significa abandonar algo passado para que algo novo possa surgir e tomar forma.
            Os acumuladores projetam em objetos físicos o que se passa em suas mentes. Eles não conseguem se separar de nada, pois temem a dor que a separação acarreta e com isso não permitem se desfazer de coisa alguma. Ao acumular se sentem protegidos e seguros da ansiedade de separação. No entanto, não percebem que se empobrecem. O que falta a essas pessoas é conseguirem desenvolver um estado de mente que permita a aceitação da perda. É aprenderem que nem toda perda é negativa e que ela se faz necessária para que busquemos coisas novas. O acumulador é uma pessoa que não tem dentro de si recursos que o ajude a avaliar o que é necessário em sua vida. Assim, tudo parece que vai lhe fazer uma falta imensa. Quando a casa dessas pessoas fica atulhada é porque a própria mente dessas pessoas também está atulhada de coisas que seria melhor se fossem abandonadas. É preciso saber se separar, caso contrário a mente fica tão cheia e saturada que perde a sua função que é pensar. Quem não pode fazer uso da mente não consegue construir uma vida com qualidade.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pergunta de Leitora - Devorada pelo medo


Não sei o que me acontece. Tenho medo de estar ficando louca. Tenho 36 anos e sou casada há 10. Amo meu marido e ele é quase tudo para mim. Não temos filhos. O que me acontece é que morro de medo de vir a perdê-lo. Tenho muito medo de que ele morra e eu fique sozinha e sem ninguém. Todos os dias me vem esse terror e já teve noites que acordei só para me certificar de que ele ainda estava vivo. Ele é jovem e saudável mas a vida para ser tão incerta que tenho medo de perder o que mais amo. O que faço? Como controlo isso?

            Ao temer a perda você sofre todos os dias, porém o sofrimento é causado pelo temor da perda e não pela perda em si. Faz do temor a sua infelicidade e torna a sua vida miserável. Sente que está enlouquecendo, ou seja, perdendo a si mesma e sente que é necessário mudar essa situação.
            Para Sêneca, filósofo e escritor romano do primeiro século D.C., temer a perda e perder é a mesma coisa. Ele escreveu:  Não há tragédia maior do que alguém preocupado com o futuro, infeliz antes da infelicidade e permanentemente angustiado diante da idéia de não poder conservar até o fim o que ama. Nunca saberá do repouso, e na ansiedade do futuro, perderá o presente que poderia gozar. Esse parece ser o seu caso.
            O problema de viver desse jeito é que você deixa de viver o presente e passa a tentar viver um tempo que não é o seu. Você tenta controlar o futuro para que ele não te traga nenhuma frustração. Só que esse futuro imaginado é fruto da ilusão e não da realidade. Você só pode viver a realidade e lidar com aquilo que é possível, caso contrário sofre pela ilusão.
            Falta-lhe decifrar o seu inconsciente e entender porque vive o presente como se já tivesse perdido o seu marido e porque você se subtrai do seu tempo. Inconscientemente há uma razão para essa fantasia existir e ao compreendê-la poderá dar a ela outro desfecho. Na análise o inconsciente se revela e assim poderá se livrar da repetição que te prende e poderá viver de maneira melhor. O inconsciente é tal como a esfinge da mitologia que quando não é decifrada devora o interlocutor. Para não mais ser devorada pelo sofrimento se faz necessário decifrar a razão do sofrimento.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ousar Viver


“Se a meta principal de um capitão fosse conservar seu barco, ele o conservaria no porto para sempre.” (São Tomás de Aquino)

            Que desperdício ter um barco para sempre ancorado ao porto, sem que ele jamais pudesse singrar os mares e vir a ser o que foi feito para ser. Esse hipotético barco parado seria empobrecido em sua condição de barco. Agora, pena mesmo é que muitas pessoas se portam desta maneira. Em vez de viver ficam paradas e acham que estão se protegendo.
            Obviamente quando um barco é lançado ao alto mar pode encontrar incontáveis perigos. Pode até mesmo nem mais retornar e ter um fim trágico. No entanto assim é a vida. Um barco foi feito para se aventurar, com todo o cuidado e vigilância, é claro, mas mesmo assim foi feito para estar em locomoção e não ficar parado. Assim como os barcos somos nós. Também fomos feitos para viver, só que muitos se esquecem disso e acabam apenas por sobreviver e se esquecem de que se ousassem viver a vida poderia ser muito melhor.
          Estar vivo é uma grande aventura para quem se permitir. Inúmeros perigos podem surgir e certamente variados problemas ocorrerão e que exigirão toda a nossa atenção e pensamento. Viver significa singrar esse mar que é a vida e se colocar disponível até para o sofrimento. Entretanto, não é tudo só perigo. Há também muitos ganhos nessa jornada que são indiscutivelmente sem preço e que nos tornam melhores e mais sábios. Viver bem tem a ver com ganhar experiências e se deixar mudar por elas. Nada pior do que uma pessoa que passa pelos anos sem jamais se deixar tocar pela vida e aprender com ela.
            Dá medo lançar-se à vida, mas é necessário. Mil vezes mais benéfico é enfrentar as tempestades no meio do caminho, as turbulências que nos pegam de surpresa, do que ficar em uma pseudo-segurança no porto. Quem ousar sair pode chegar a lugares novos e conhecer ares diferentes. Ousar uma jornada é uma experiência transformadora e é isso que no fundo alimenta a alma. Alguém conhece jornada mais interessante que a própria vida?