sexta-feira, 28 de março de 2014

Pergunta de Leitora - Aprisionada


Tenho 22 anos e nunca namorei e na verdade nem beijei ainda. Me acho feia, acima do peso e sem nenhuma coisa interessante. Tenho uma prima que tem a mesma idade e ela é linda. Tem tudo o que ela quer e a vida dela deve ser maravilhosa. Fico acabada quando vejo que há tantas diferenças entre nós duas. Por que ela tem que ter tanta mais vantagem do que eu? Ele tem mais beleza, mais dinheiro, mais tudo e eu nada. Fico tomada pela raiva. Como posso viver nessas condições? Minha vida já começou errada e sinto que nada de bom pode me acontecer. Será que posso ter esperança de uma vida melhor?

            A comparação empobrece a sua vida e a imagem que você pode ter de você mesma. Que bem há de vir da comparação? Evidentemente nenhum, mas mesmo assim você se prende a ela. Quando parar de se comparar e puder se olhar de fato sua vida poderá mudar.
            Pode até ser que sua prima tenha mais beleza do que você e de que tenha condições melhores. Quem disse que a vida é justa e dá condições iguais para todos? Entretanto, ficar comparando as condições dos outros não ajudará a melhorar as suas. Para melhorar as suas condições é preciso que você desenvolva aceitação para com a sua realidade.
            Aceitar a realidade te permitirá trabalhar com você mesma e deixar os outros de lado. Mesmo que você se ache feia e acima do peso você, com certeza, pode fazer alguma coisa a respeito. Em vez de se lamentar e olhar para o que não lhe foi dado, pode melhorar as suas condições. E mesmo que não vire nenhuma beldade, não tem importância porque o que vai importar é a vida que você pode construir para você. Se você basear a sua felicidade apenas nos atributos físicos e externos da sua identidade você fica dependente, enquanto se você construir uma identidade poderá se fortalecer. E identidade, ao contrário da beleza física, não tem prazo de validade.
            Neste momento você prioriza mais a idéia que você tem do outro do que em desenvolver a sua potencialidade. Valoriza a ilusão e não a realidade e com isso se deprime. Falta-lhe descobrir porque age assim. Ao trazer um significado para a sua atitude de valorizar o outro e não a sua realidade poderá encontrar uma maneira de se libertar e viver consigo própria mais prazerosamente. Você só poderá viver com qualidade se você conseguir entrar em um acordo com você mesma, se você conseguir se sentir confortável na sua própria presença e não mais lamentar a sua condição.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Ansiedade


            A ansiedade é um estado de mente terrível. Quem a sente e todos em menor ou maior grau a sentem sabe bem como ela é extremamente desestabilizadora. Tira a paz e a tranquilidade e deixa no lugar uma sensação de se estar quebrado, um gosto insuportável, um verdadeiro buraco negro que tudo suga de bom a sua volta sem deixar nada. A ansiedade existe, é um fato, e nada podemos fazer para evitar que ela continue a existir, mas entre senti-la e viver constantemente com ela há um abismo que faz toda a diferença. Viver, assiduamente, oprimido pela ansiedade pode ser a experiência mais aterradora que alguém pode ter. Então, saber lidar com a ansiedade que se sente é mais do que importante, é vital.
            Pode ser por um emprego que está em risco, por um relacionamento que está em jogo, pelo dinheiro que se vai indo e que demora para voltar, pela saúde que não anda bem, pelo outro que tanto gostamos ou por qualquer outra razão, a ansiedade tem várias formas e todas nos levam a temer o futuro e o que ele nos reserva. Ela liga um sinal de alarme interno que vislumbra sempre os piores cenários possíveis e as consequências mais nefastas. Entregar-se às fantasias que a ansiedade desperta já é perder porque nestas fantasias não há a menor possibilidade de final feliz e tudo já fica pré-definido. Viver em ansiedade é a pior prisão que alguém poderia pisar.
            Como então lidar com esse mal? Como se preservar de algo que nos pega tão intensamente e que só nos leva a imaginar o pior? O grande erro é que as pessoas quando tomadas por estados de mente dolorosos têm a tendência de se livrarem deles o mais rápido possível como se o que sentíssemos fosse um pedaço velho de papel que pudesse ser facilmente amassado e jogado no cesto de lixo. Quem dera fosse fácil assim! Porém, o que sentimos não pode ser descartado desta forma, até mesmo porque sentimentos não têm como ser jogado fora. Eles podem ser transformados.
            Se não podemos chutar a ansiedade para longe fazemos o que com ela? Só há uma possibilidade, mas esta exige coragem e resignação, qualidades que andam em falta. Para com a ansiedade só podemos aceita-la. Isso mesmo. Aceitamos a sua presença assim como somos obrigados a aceitar uma tempestade. Não podemos controlar o tempo e quando nuvens carregadas resolvem despejar sua fúria sobre nós só nos resta curvar e aceitar até que passe. E por pior que seja uma tempestade ela sempre passa. Com a ansiedade é a mesma coisa. Ela também passa mesmo que a sintamos que ela seja eterna.
            O sentimento de ansiedade sempre fará parte da vida de qualquer pessoa. É uma realidade que não mudamos. Agora, o que podemos fazer em relação a isso é evitar que ela permaneça conosco além da conta e também não acreditar que seus estragos possam ser maiores do que nossa capacidade de reconstrução. O pensador chinês da antiguidade Confúcio dizia que impedir que os pássaros da aflição sobrevoem sobre nossas cabeças não temos como evitar, mas que eles construam ninhos sobre elas, isso sim, temos como evitar. A Dona Ansiedade será sempre uma visita indesejável, mas não precisamos convida-la a morar conosco. Cabe a cada um aprender a lidar com a ansiedade que sente a fim de evitar que ela se torne uma companheira para a vida.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Pergunta de Leitora - Em busca de luz


Fico sempre presa aos mesmos tipos de homens que jamais me dão valor. Já foram 5 namorados assim e não agüento mais. No começo tudo parece que vai bem e que ele vai ser o homem da minha vida mas depois sou traída e enganada. Quando isso acontece fico chorando e me achando uma mulher inferior. Acho que estou doente, acho que estou neurótica, não é assim que chama-se a doença na psicologia?  Como deixo de ser neurótica e como passo a ser mais saudável?

            A neurose foi primeiro usada como termo da medicina para se referir a algum “mal dos nervos”. Acreditava-se que existia uma explicação fisiológica, ou seja, orgânica para alguém adoecer neuroticamente, porém foi verificado que muito desse tipo de padecimento não possuía nenhuma fonte física. A origem desse mal se encontrava em outro lugar que a medicina desconhecia. Coube a Freud mudar essa situação.
            Com a criação da psicanálise Freud revelou a existência do inconsciente e a partir dessa descoberta a neurose ganhou novo sentido e abriu também a possibilidade de tratá-la com mais eficiência. Toda neurose, nas palavras de Freud, é um “sofrimento estéril” pois implica repetir-se, se angustiar com essa repetição e não conseguir se livrar dela. Em outras palavras, a pessoa fica presa e sua visão de mundo fica bastante limitada.
            Para se tratar uma neurose é necessário então entender o próprio inconsciente. Ao compreender as razões pelas quais uma pessoa é impelida a se repetir, um novo conhecimento pode surgir e permite que uma nova visão sobre um determinado problema ocorra. Quando é possível ter outros pontos de vista sobre o nosso sofrimento podemos criar recursos que propiciem outro desfecho que não a repetição. A psicanálise permite que alguém se recrie de uma maneira melhor.
            Você já tem o conhecimento de que se repete ao investir em homens que depois te enganam. Já sabe, então, que essa repetição é um sofrimento estéril. Agora resta dar um passo maior, que é procurar entender porque isso ocorre e se livrar dessa situação transformando-a em uma outra que lhe seja favorável. Vai conseguir isso ao aprender a se ouvir. Quem sabe já não está na hora de procurar um profissional que saiba te escutar para ajudá-la a se escutar? Enfim, já está na hora de buscar uma luz.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Venda de Ilusões


            Há um psicoterapeuta americano que anda propagando que consegue curar qualquer distúrbio psicológico em 28 dias. Lançou um livro que vem fazendo estrondoso sucesso e com isso consegue prestar um imenso desfavor às pessoas, pois o que ele faz é vender ilusões e isso é sempre prejudicial.
            Quem se coloca numa psicoterapia e seja ela de qual base for: comportamental, psicanálise, existencial, etc. entra num processo de autoconhecimento que vai trazendo à tona importante revelações que por sua vez vão pedindo por novas elaborações. Não há como fixar o tempo de uma psicoterapia já que a mente não funciona como algo que podemos estabelecer metas fixas. E mais, um distúrbio é indicativo de algo interno, um funcionamento que não anda bem e que exige uma reflexão.
            O que esse psicoterapeuta americano propõe é apenas um apagar incêndios, ou seja, focar no sintoma que tanto assusta um determinado indivíduo sem nem mais ligar para a causa que provocou aquele mesmo sintoma. Talvez uma analogia com a medicina possa ser esclarecedor. Se uma pessoa padece de terríveis dores de cabeça a solução não é ela viver tomando analgésico para o resto da vida. Isso é tapar o sol com a peneira e fingir que o problema está solucionado. O sintoma, nesse caso a dor de cabeça, possui uma causa e esta precisa ser investigada. Pode ser um problema dentário, em algum órgão ou indicativo de uma alergia entre muitas outras possibilidades. Enfim, o problema só pode ser solucionado quando a causa pode ser identificada e tratada. Com a psicoterapia é assim também.
            Quando trabalhamos com algo tão complexo quanto a mente é impossível saber de antemão tudo o que vai surgir e o que teremos, psicoterapeutas e pacientes, de lidar. Portanto é impossível estabelecer metas fixas. Esse terapeuta americano tem um problema que é terrível para alguém que se propõe a exercer a psicoterapia. Ele não suporta estar com seus pacientes. Num processo psicoterápico o sofrimento mental se faz presente e o terapeuta suportar estar com alguém que sofre é vital. A tendência é a gente sempre fugir daquilo que nos causa dor e espanto. Como os terapeutas também são gente eles também tentam evitar sentir qualquer desprazer e querer se livrar de seus pacientes é um meio de fazer isso. Um terapeuta que estabelece metas rígidas para seu trabalho impede que seu paciente se revele e tenha a possibilidade de descobrir quem realmente é. Com essas metas ilusórias o psicoterapeuta não dá espaço para que seu paciente saiba mais acerca de si.
           Não é fácil trabalhar com psicoterapia. Significa desenvolver uma capacidade eficiente para lidar com a frustração e nesse trabalho são muitas. Os próprios limites do psicoterapeuta que descobre que nem tudo pode e nem tudo resolve, estar com alguém que sofre e pede por ajuda muitas vezes de forma desesperada, nunca saber se o desejo do paciente por se cuidar vai ser forte o suficiente para mantê-lo no trabalho psicoterápico e ajuda-lo a progredir, etc. Não é a toa que muitos profissionais começam a trabalhar na clínica e depois de um tempo a abandonam por não suportarem tudo o que são obrigados a sentir e a lidar de uma maneira madura e eficaz. O psicoterapeuta americano sente medo de atender seus pacientes e resolveu isso estabelecendo o tempo que tem com eles. Assim se protege, falsamente, de lidar com coisas mais profundas e verdadeiras e que venham realmente a mexer tanto consigo quanto com quem atende.