sexta-feira, 14 de março de 2014

Pergunta de Leitor - Solidão Afetiva


Sou homossexual assumido. Por muito tempo vivi escondido de todos e principalmente da família. Agora não faço mais segredos da minha condição e sou feliz assim. Aliás me revelar para o mundo foi bem mais fácil do que eu pensei que seria e fiquei bastante satisfeito ao não notar tanto preconceito ao meu redor. O que me entristece é que não tenho ninguém. É fácil “encontrar” sexo, principalmente com o auxilio da internet. Só que arrumar um companheiro é outra história. Me sinto só e as vezes fico em duvida se um dia vou poder encontrar alguém na minha vida. Queria entender por que é tão difícil assim arrumar alguém.

            Já se foi o tempo que a principal razão de angústia dos homossexuais se encontrava no medo de sofrer preconceito. Hoje, apesar de ainda haver muito preconceito e muita coisa precisar ser melhorada, há mais espaço e aceitação de modo que assumir ser homossexual não representa um problema de grandes proporções. A homossexualidade não mais é considerada perversão e nem doença e é vista como mais uma maneira de amar e ser amado. O que leva homossexuais aos divãs, atualmente, tem muito mais a ver com a solidão.
            A comunidade homossexual lutou muito para obter direitos e uma posição reconhecida na sociedade o que permitiu que a homofobia esteja hoje menos violenta do que já foi. No entanto, o homossexual, apesar de estar integrado socialmente sofre de solidão e no meio de tantas conquistas falta-lhe a segurança afetiva. É isso que mais caracteriza a homossexualidade hoje em dia: a solidão afetiva.
            Há um contraste na vida dessas pessoas que têm à disposição uma facilidade enorme para conseguir relações físicas e se satisfazer sexualmente e uma dificuldade para estabelecer relações que exigem ternura e amor de fato. Muitos se perdem entre a facilidade de um prazer rápido e fortuito e o trabalho de desenvolver relacionamentos afetivos de qualidade criando um grupo de solitários.
            Porém, não são só os homossexuais que se encontram nessa situação, mas todo o gênero humano porque estabelecer relações afetivas e ternas exige experiência e tempo. É preciso errar para conseguir uma hora acertar. É necessário persistir para não cair na amargura e na descrença do amor. O amor é direito de todos e não faz distinção entre gêneros e orientações sexuais. A reivindicação que o amor faz a quem quer vivê-lo é se fazer persistente e confiante na sua possibilidade. Afinal as coisa que mais valem a pena são aquelas que mais trabalhamos para ter.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Análise de Filme - A Caça


            O filme dinamarquês A Caça (Jagten, 2012) mostra um lado muito sombrio do ser humano, de extrema violência. Lucas é um quarentão que trabalhava em um jardim de infância de uma pequena vila. É amigável e é também muito querido pelas crianças da escola onde muitas vezes era feito de palhaço pelos pequenos. Havia acabado de passar por um divórcio e lutava pela guarda de seu filho adolescente. Estava se envolvendo amorosamente com uma colega de trabalho e tudo parecia que ia bem. O que poderia dar errado nesse cenário? Tudo.
            Klara, uma pequena menina da escola em que Lucas trabalhava, nutria por ele uma paixão infantil. Como todas as paixões era intensa e perigosa. O professor por ser vizinho dela muitas vezes a acompanhava de casa até à escola e fazia também o caminho de volta. Klara sofria de determinadas obsessões que a impediam de pisar nas listas na rua e com isso não olhava para frente o que fazia com que não visse para onde estava indo e se perdesse. Lucas se compadecia dela e era extremamente carinhoso e atencioso e deixava a menina brincar com sua cadela. Uma menina levemente problemática, bastante imaginativa e solitária. Não é de se surpreender que iria se apaixonar pelo professor.
            Conforme essa paixão infantil vai sendo alimentada por Klara ela começa a querer a beijar o professor na boca, coisa que viu em fotos pornográficas e mais muitas outras coisas que pertenciam ao seu irmão adolescente. Lucas prontamente se desvia do beijo. Klara manda um coração de plástico para ele e ele diz a ela que ela deveria mandar esse coração para algum coleguinha ou para o pai e mãe. Óbvio que Klara se sente rejeitada e uma paixão intensa pode facilmente se tornar fúria. Enfurecida, ela conta à diretora da escola que odiava Lucas e inventa que ele havia mostrado suas partes íntimas em ereção para ela. Como era de se esperar isso causa um choque na diretora que envolve a polícia no caso. Avisa todos os pais do ocorrido e Lucas que era antes querido por todos passa a ser visto como um pervertido.
            Tudo vira uma verdadeira caça às bruxas e mais pais começam a dizer que seus filhos também foram abusados pelo professor. Torna-se uma verdadeira epidemia histérica onde o gozo é se tornar vítima de uma situação atroz. As próprias crianças entram nessa alucinação coletiva e dão cada vez mais detalhes escabrosos do que supostamente lhe aconteceram e os pais empreendem uma verdadeira cruzada contra Lucas que fica proibido de fazer compras, sair na rua e continuar com a vida. O que é assustador é perceber com que facilidade e ganância Lucas já é tido como perverso e com que violência as pessoas o tratam.
            Mesmo após Klara ter dito para a sua mãe que havia inventado tudo e que Lucas nada havia feito não adianta. A mãe já estava cega e decidida a se entregar à violência que sentia. Nega o que a filha diz e acredita que esta falou isso porque tem medo e queria proteger Lucas. Crianças não mentem é o que todos dizem e repetem. Ora, uma criança mente e muito e todos negaram esse fato para poderem gozar na violência. É um fato que todo indivíduo carrega dentro de si violência e achando uma brecha essa violência pode se manifestar. O ato de se arrumar um bode expiatório para se projetar a agressividade que se sente gera certo tipo de prazer e alucinar situações para justificar a violência se torna possível.
            Uma criança que afirma ter sido abusada precisa ter isso bem apurado, pois abuso é coisa séria e altamente destrutiva. Entretanto, o que acontece no enredo do filme é que as coisas não foram devidamente apuradas. Simplesmente Lucas serviu como depositário de toda agressividade reprimida das pessoas na vila. Ele se tornou um monstro porque as pessoas projetaram nele seus lados monstruosos. É isso que é sombrio no ser humano: a razão é negada e o que há de pior dentro de cada um toma conta e esse lado obscuro se espalha impedindo que as pessoas pensem e reflitam sobre o que realmente se passa.
            Depois das autoridades terem apurado o fato e nada constatarem Lucas foi solto e mesmo assim se tornou vítima da violência levando pedradas e ouvindo impropérios. Sua cadela foi morta como retaliação e sua vida e a de seu filho se tornaram impossíveis. E assim como veio passou. O pai de Klara, antes amigo de Lucas, decide que essa história é falsa e voltam a bons termos. Os outros da vila também seguem esse movimento e Lucas é aceito novamente até que numa caçada alguém atira bem perto de Lucas para mostrar que ainda se lembravam. Mas se lembravam do quê se nada havia ocorrido? Se lembravam que tinham dentro de si destrutividade e que esta sempre precisava de algum depositário. O ser humano tem mesmo um lado terrível e mesmo pessoas aparentemente tranquilas podem realizar os piores atos possíveis quando não existe uma mente para pensar verdadeiramente.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Pergunta de Leitor - Barril de Pólvora


Meu melhor amigo tem uma mulher que dá em cima de mim. Meu amigo nada percebe e o problema é que a mulher dele é muito bonita. Me imagino muito com ela e estou por um fio para sair logo com ela. Não queria fazer isso com meu amigo, mas me parece que ele não cuida da mulher como deveria. Ela me disse que ele não transa com ela o tanto que ela gostaria e que ela tem muito desejo por mim. Eu sou um fogo na cama e sei que posso satisfazê-la, mas se meu amigo descobre pode estragar a nossa amizade. Só que eu penso que também sou homem e que ele no meu lugar ia querer sair com ela. Fico em dúvida.

            Seu melhor amigo você diz e você? É o melhor amigo dele? Creio que não pois o amigo verdadeiro não trai. A amizade prioriza antes de tudo mais o bem estar e o acordo. Você faz justamente o contrário, você prepara a guerra e a luta. Seu conceito de amizade é deturpado, ou seja, você mesmo se engana quando o chama de meu melhor amigo.
            E que mulher é essa? Que te coloca contra seu “amigo”? Ela também trai o marido e te convida a fazer a mesma coisa. O que você não sabe ainda é se cede ao pacto de traição com ela. Precisa pensar bem porque quem se senta em barril de pólvora tem enormes chances de não ter final feliz.
            Caso ceda e fique com a mulher do seu “amigo” estará sendo perverso, porque para o perverso a única coisa que conta, a única lei a que obedece é o próprio prazer. O perverso nega os limites já que limites trazem uma barreira a alguns tipos de prazer. Por isso o perverso ultrapassa os limites e quebra qualquer lei, seja ela qual for. Essa mulher é perversa, com certeza, pois busca prazer custe o que custar. Na vida é importante saber que nem tudo se pode.
            Quanto ao fato de você ser homem e ser difícil resistir aos encantos da mulher que te seduz, por favor, conta outra. A sua desculpa é esfarrapada e no mínimo simplória. Nem você mesmo, duvido, acredita nisso. Você gosta mais do seu “fogo” do que de estar com essa mulher em si. Se tem tanto “fogo” assim não será difícil para você ter outra mulher, não? Mas a que quer é a do amigo, não porque goste dela e sinta sentimentos por ela, mas porque você teria que transgredir. A transgressão é que está te seduzindo e você precisa escolher se cede à perversão ou aprende de vez que para tudo há limites.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Saúde Mental


            Já me perguntaram variadas vezes o que entendo por saúde mental. É uma pergunta difícil de ser respondida com exatidão e que é, até hoje, fonte de debates entre muitos estudiosos. No entanto, para não correr a tentação de fugir vou escrever brevemente de acordo com meu ponto de vista atual. Digo atual porque amanhã outras coisas podem ser acrescentadas à minha opinião. Afinal, a vida está em constante mutação e exige que aprendamos com as mudanças.
            Entendo que ter saúde mental é um estado no qual a pessoa consegue e se permite ser feliz consigo mesma apesar de todas as limitações e dores que a vida proporciona. Ser mentalmente saudável implica em ser relativamente eficaz em lidar com as agruras da vida, tanto vida externa quanto vida interna. É ser um participante ativo da própria vida. Já estar mentalmente enfermo significa viver de forma ineficaz, ou seja, lidar com os problemas da vida de forma custosa e que traga infelicidade. É quem fica preso numa forma de viver a vida de maneira pesada e onde não há espaço para a esperança. O candidato a ser mentalmente saudável e enfermo têm os mesmos problemas, porém reagem a eles de forma diferente. Então estar bem significa reagir de maneira adequada. E essa reação adequada é algo que se aprende ao longo da vida.
            Alguma pessoas, no decorrer de suas vidas, vivem experiências positivas e aprendem a reagir eficazmente e jamais “adoecem”. Apenas têm períodos mais ou menos, mas sempre estão prontas para outra e se refazem rapidamente. Outras não têm tanta sorte. Vivem experiências negativas e/ou reagem tão negativamente que terminam por adoecer. Aí precisam de ajuda para aprenderem a viver a vida de outra maneira. Sozinhas ficam perdidas nas suas dores e cegas para outros pontos de vista. Necessitam, então, de alguém que as ouçam e que as ajudem a criar espaço para que elas mesmas se ouçam. Se ouvir, de fato, é a melhor maneira para se transformar.
             Ter saúde mental não se traduz por se ser de um jeito ou de outro e nem por responder a um dado teste psicológico desta ou daquela maneira. Ser mentalmente saudável é saber o quanto se pode ser feliz com a vida que se vive, é aprender com a vida. Saúde mental não se mede quantitativamente, mas se percebe pela qualidade que se dá à vida. Não se trata de algo tangível concretamente, mas de algo que é tangível simbolicamente e que por isso mesmo, por ser simbólico, requer outro olhar mais refinado e subjetivo.