quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pergunta de Leitora - Luto Permanente


Sou uma enfermeira particular e cuido de pessoas idosas e geralmente em estado terminal. Sou sozinha, nunca me casei e muitas vezes convivo mais com os idosos com quem trabalho do que com pessoas do meu circulo e idade. Sou religiosa e antigamente acreditava em deus e em sua misericórdia para conosco. Rezava com freqüência mas ultimamente acho que perdi completamente a fé. Não acredito em mais nada e estou passando a acreditar que os ateus estão certos em afirmar que nada existe. Mas é muito ruim me sentir assim. A minha pergunta é: será que é possível acreditar em algo que possa me deixar feliz? Será que é possível preencher esse vazio que me oprime com alguma coisa, mas que não me faça cair no engano de que deus vai cuidar de mim?

            Você tem um trabalho duro: cuidar de idosos em estado terminal. Convive com muitas dores, sofrimentos e sentimentos de dúvida em relação a vida. Provavelmente se encontra contaminada pelo desânimo e pela falta de esperança. Antes havia a idéia de deus para lhe trazer algum conforto, mas agora isso mudou e faz você se sentir perdida.
            Para complicar ainda mais a situação você sofre de solidão. Há poucos vínculos saudáveis e alegres que possam te animar e trazer vitalidade para viver. As suas ligações com as pessoas que necessitam de cuidados são tênues e pesadas. Não favorecem a alegria que tanto lhe falta, mas te convidam ao estado de luto permanente. Quando o luto persiste além da conta a vida perde o seu melhor.
            Só que nem tudo é tempo ruim. Parece que o sentimento de esperança enfraqueceu em você, mas não morreu. Tal como brasa que precisa de um sopro para acender, você precisa de algo para acreditar e poder se encantar e se animar. O que lhe falta acreditar é saber que a sua vida pode ser fonte de felicidade.
            Ninguém vai e ninguém pode tomar conta da sua vida. Essa é uma tarefa que só cabe a você. Afinal, só você pode saber do seu caminho e qual a melhor maneira de trilhá-lo. A vida, certamente, tem muitos sofrimentos, mas pode ser encantadora e surpreendente. Precisa se permitir ver a vida de outro ponto de vista. Não há só uma única perspectiva, mas várias. Encontrar e desenvolver a sua é o melhor caminho que poderá pegar. Em outras palavras, você precisa aprender que a vida traz outras possibilidades que não apenas o luto. Procure ajuda de um analista que saiba te escutar para você aprender a se ouvir e construir internamente algo mais saudável a que se apegar.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Hostilidade


“Se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos encontraríamos em cada vida tristeza e sofrimento suficientes para aplacar qualquer hostilidade.” (Henry Longfellow)
            É natural se aborrecer e se irritar com determinadas pessoas. Todo mundo passa por isso. Agora, quando a irritação em relação aos outros passa a cobrar um preço alto demais para a vida isso se torna um problema. Aí, corre-se o risco de ficar ressentido e isso não é benéfico para vida de ninguém. Não precisamos tolerar tudo dos outros, porém não se precisa ficar tão irritado com o outro a ponto disso atrapalhar viver bem.
            Quando ficamos hostis em relação aos outros é porque nos sentimos frustrados e sentimos raivas das pessoas que nos causaram frustrações. Tendemos a julgá-las e a acreditar que essas pessoas só vieram ao mundo com o objetivo de nos tirar do sério. Queremos nos livrar delas rapidamente e até desejamos, ocultamente é claro, que elas se dêem mal. Quando isso acontece ficamos com um leve sentimento de satisfação e depois de culpa. Nesses casos o que se precisa é saber lidar com essas pessoas inconvenientes de uma forma mais apropriada e sábia.
            Não temos controle sobre como os outros funcionam, mas podemos ter controle sobre como vamos funcionar em relação aos outros. A questão, então, passa a ser como nós vamos lidar com a situação de ter que se ver com uma pessoa chata. Mudando a questão muda-se completamente toda a abordagem que precisamos encontrar para resolver esse problema. E além disso, muda-se também o sentimento que podemos ter em relação aos outros. Seremos mais compassivos, porém lembrando que ser compassivo não significa ter que aceitar qualquer coisa.
           Quando se tem em mente que não estamos presos ao outro e que podemos encontrar maneiras de deixar claro que não queremos ser aborrecidos terminamos por ver o outro de outra perspectiva. Antes o outro era só chatice, mas agora se torna uma pessoa cheia de problemas, como qualquer um, e que tem grandes dificuldades em se desenvolver. Uma pessoa chata faz mal, principalmente, a si mesma e se encontra numa posição bem precária. Ver as coisas desta forma permite que deixemos a hostilidade de lado e assumamos outro posicionamento. Assim nos livramos do sentimento de raiva em relação ao outro e nos tornamos mais livres para encontrar outras maneiras de viver com pessoas que nos causam desagrado. A atitude dos outros não devem ter poderes sobre nós. Devemos e podemos sempre mudar tal situação. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pegunta de Leitor - Meu Reino Por Um Cavalo


Tenho 25 anos e tenho um irmão mais novo de 22 anos. No geral nos damos bem, mas ele tem mania de se fazer de vítima. Finge que está doente para os meus pais só para eles ficarem com pena dele e não exigir nada dele como exigem de mim. Quando falo para meus pais que isso é frescura do meu irmão eles acham que eu estou com ciúmes. Só que com isso meu irmão acaba levando uma vida bem melhor do que a minha e tem muito mais regalias. Dá vontade de fingir também só para ver se sou tratado melhor pelos meus pais. Até o carro que ele ganhou é mais novo e melhor que o meu e quando falei isso todos acham que estou chorando de barriga cheia. Como posso abrir os olhos dos meus pais?

            Como posso abrir os olhos dos meus pais? Talvez deseje abrir os olhos errados. Os olhos que têm que ser abertos são os seus e não os dos outros. Ao desejar abrir os olhos errados você perde tempo em abrir os seus e deixa de enxergar a realidade.
            Tanto você como seu irmão se portam de maneira mimada. Entram numa disputa por saber quem mais recebe regalias e quem mais recebe atenção. Porém, nessa disputa há uma perda de tempo de usarem as oportunidades para se desenvolverem, crescerem e se tornarem cada vez mais independentes e aprenderem a deixar de lado disputas inúteis. Nessa família parece que todos fecham os olhos.
            Abrir os olhos no seu caso significa mudar a sua posição. Sair da posição em que se encontra para outra onde possa priorizar o seu crescimento. Se seu irmão não quer crescer e prefere fingir para receber tudo fácil essa não precisa ser a sua direção. Poderá escolher outra mais sábia que te leve por outro caminho e que te traga conquistas verdadeiras e realizações.
            Ao querer se igualar ao seu irmão você deseja a posição de menino mimado e se ressente por não ter sucesso nisso. Mas o sucesso que pode realmente te satisfazer é o de amadurecer e procurar seguir em frente com sua vida o melhor que puder. Caso aceite a realidade que demanda que alguém cresça de fato terá muito a ganhar e nada a perder. Afinal, o que são algumas regalias perto de realizações verdadeiras? Skakespeare em uma de suas peças fez um rei louco que dizia:  Meu reino por um cavalo! Você acredita que tenha sido uma boa troca?

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sentimento de Solidão


            Vivemos numa época de rápidas conexões, mas nunca nos sentimos tão sós. Estamos rodeados por pessoas e mesmo assim nos sentimos solitários. Até mesmo quando nos encontramos com muitos amigos podemos carregar o sentimento de solidão e nos sentir mal. Afinal, de onde vem esse sentimento?
            Nos primeiros meses de vida vivemos uma relação com a mãe muito significativa. Quando tudo vai bem entre mãe e bebê o relacionamento é sentido por este último como algo mágico. A comunicação é pré-verbal e funciona através da intuição, ou seja, a mãe intui o que se passa com seu bebê e trata de cuidar de suas urgências e necessidades. Nesses momentos o bebê jamais se sente solitário e nem tem medo da solidão. No entanto, com o tempo o bebê percebe que sua mãe tem vida própria e que não pode ficar à sua disposição 24 horas por dia. É o primeiro contato com a solidão e é assustador. É preciso desenvolver habilidades para se comunicar com o mundo externo, pois nem sempre haverá uma mãe para traduzir e interpretar o seu desejo. A criança descobre que tem que crescer e crescer é solitário.
            Na vida adulta o sentimento de solidão está associado aos primeiros meses de vida. Queremos encontrar alguém ou algo que seja mágico e que nos traga uma sensação de completude. Buscamos cada vez mais ligações na intenção de encontrar a mágica perdida de antes. Só que isso não acontece e nem tem como acontecer. A vida do adulto exige que ele tolere a frustração de se contentar com ligações reais e possíveis e não mais esperar sobre o que não tem como existir. O sentimento de solidão existe quando esperamos por ligações mágicas.
            Provavelmente a origem e o sucesso das famosas redes sociais têm a ver com a exploração do sentimento de solidão. Em algum grau é até possível que elas consigam mitigar um pouco esse sentimento, mas nunca será completamente satisfatório. Sempre nos sentiremos sós. Esse sentimento só poderá ser mais ou menos resolvido a medida que usamos da comunicação verbal e aceitar todos os limites que ela implica, bem como tolerar relacionamentos reais e não mais se apegar ao impossível. Solidão sempre existirá, mas não precisa ser tão temida.