sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pergunta de Leitora - Ajudando o Amigo


A pergunta é sobre um amigo virtual que quero ajudar. Um homem vítima de violência sexual aos 26 anos de idade, sendo ainda virgem, pode ter dúvida da sua orientação sexual? 5 anos depois casou ainda virgem por questões culturais e religiosas. Ele é muçulmano. 
Após alguns meses de casado despertou para a vontade de ser penetrado. Seria essa vontade indicativo de homossexualidade ou apenas fruto do desejo de explorar a região anal como zona erógena, descoberta por ele, embora de forma violenta e traumática?
Considerando que ele tem desejo por mulheres, seria ele bissexual?
De que forma ajudar, pois a pessoa está muito infeliz e totalmente confuso? O que dizer? Qual o melhor direcionamento, sem incentivar uma homossexualidade da qual não se tem certeza, nem demonstrar uma postura castradora caso seja essa a sua opção?

            O estupro é um ato de violência dos mais extremos e como tal gera profundas marcas, tanto físicas quanto psíquicas. A cicatriz aberta pelo estupro nunca se fecha totalmente fazendo com quem o sofreu reviva o sentimento de humilhação e desamparo daquele momento terrível. Não importa quem tenha sido vítima, seja mulher, criança ou até mesmo homem adulto, as conseqüências são devastadoras. Ajudar uma pessoa assim demanda muita delicadeza e compreensão.
            Seu amigo ter vontade de ser penetrado pode ser devido à identificação com a situação de humilhação e constrangimento. Funciona assim: por ele ter sido exposto a uma experiência de grande dor e se sentir humilhado por ela acredita que algo dentro de si foi machucado com tanta intensidade que acabou se perdendo. É como se ele não pudesse mais se sentir homem depois de sofrer esse abuso e só restasse continuar preso a uma situação que vem a confirmar seu estado de passividade e de submissão. Como disse, pode ser, no entanto não há como afirmar que seja assim.
            Nesse momento parece impossível saber da orientação sexual do seu amigo. A mente fica confusa e qualquer tentativa de definição é desastrosa, bem como imprudente. Caso ele se descubra homossexual vai precisar separar a homossexualidade do sentimento de humilhação e violência. Caso sua orientação seja heterossexual vai precisar se construir sexualmente de forma que a lembrança do abuso não o impeça de se sentir um homem potente. Enfim, haverá muito trabalho interno para esse seu amigo.
            Você pode estar presente para escutar o seu amigo e essa ajuda é de muita importância, mas ele precisa mais do que isso, ele necessita também da ajuda de algum profissional que possa escutá-lo, sem fazer julgamentos ou atribuir conclusões precipitadas, para ajudá-lo a digerir sobre os acontecimentos de sua vida. Um analista, nessas horas, se faz útil para ajudar a pensar verdadeiramente. Com ajuda profissional ele poderá sair mais rapidamente e com mais eficiência das brumas da confusão e sentimentos de dor para uma vida mais plena e possível. Esteja disponível para ouvi-lo e incentive-o a procurar se tratar.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A perspectiva dos momentos difíceis


            Há dois tipos de dificuldades; assim muita gente acredita. Não que haja realmente, como fato, dois tipos de dificuldades, afinal dificuldade é sempre dificuldade. O que muda então é a forma que as dificuldades são encaradas. Aí sim há duas formas de se lidar com elas. Uma delas vai tornar a dificuldade pior ainda e algo intransponível. Porém, também existe outra maneira que torna a dificuldade uma razão para lutar e tentar resolvê-la.
            Imaginemos alguém que passe por determinada dificuldade que lhe causa transtornos e certo sofrimento. Esse alguém tem duas possibilidades. Ou se entrega e desiste, perdendo completamente as esperanças ou passa a fazer da dificuldade um estímulo para lutar e consegue alimentar esperanças de poder sobreviver e se tornar mais forte com o que foi aprendido nessa batalha. Agindo da segunda maneira a vida se torna possível e tolerável enquanto agir através da perspectiva da primeira torna as possibilidades tão limitadas que só nos resta sofrer e se lamentar.
            Tal qual um náufrago que diante da imensidão assustadora do mar pode ou desistir de lutar, sem a menor possibilidade de resistência ou pode tentar nos limites de sua força continuar se mantendo vivo e esperar por alguma boa sorte ou oportunidade. Vemos, então, que ser capaz de manter as esperanças é algo de extrema importância para nosso bem estar. A vida sempre se encarrega de nos trazer dificuldades, mas não precisamos acreditar que é só o que a vida traz que importa, mas como reagimos também tem seu peso.
           Quando somos capazes de poder ver a dificuldade como um desafio podemos mudar muita coisa na vida. Afinal, desafios existem para nos estimular a continuar em frente e aprendermos. Entretanto, ver dada dificuldade como problema insolúvel nos faz vítimas e sem muitas chances de melhoras. Avaliar como agimos e lidamos com o que a vida dá é fundamental, pois há atitudes que favorecem viver bem enquanto outras favorecem o empobrecimento e o sofrimento.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pergunta de Leitor - Ceder ou controlar?


Sou um homem muito bem casado. Estou junto com minha esposa há 23 anos. Amo muito a mulher com quem me casei só que ultimamente venho sentindo atração por outras mulheres. Mas só atração, nada de amor. Antes de minha mulher só tive relacionamentos sexuais com uma outra e queria ter mais experiência. Sei que isso pode ser encarado como sem vergonhice mas enfim acho que aqui posso dizer a verdade e me expor, sem que ninguém saiba da minha identidade. Não quero me separar e como disse e reitero amo minha mulher, mas quero ter outras vivências que aliás sempre tive vontade mas sempre controlei por medo e questão de educação. O que você diz disso?

            Você deseja ter experiências sexuais com outras mulheres e esse é um direito seu. No entanto, você quer que eu lhe diga algo sobre isso. Como se você esperasse que eu te desse carta branca para seguir em frente ou que te desse cartão vermelho para impedir seu desejo. Porém, essa é uma decisão que lhe cabe e a ninguém mais.
            É natural desejar sexualmente outras pessoas de fora do casamento, afinal o desejo está sempre em movimento e jamais fica fixo. Para algumas pessoas a monogamia é algo impossível devido a força do desejo. Para outras o desejo pode ser controlado e são capazes de viver relativamente em paz uma relação monogâmica. Até hoje você disse que manter a monogamia lhe foi possível, só que agora se coloca em dúvida.
            Talvez você possa aprender mais sobre você mesmo nesse momento se perguntando por que isso está acontecendo agora. Pode analisar o que está acontecendo em sua vida agora para querer ceder ao desejo de ter outras experiências. Ao saber responder qual a sua situação poderá tomar uma decisão que lhe seja mais favorável e não se enganará.
            A questão aqui não se trata de trair ou não. Isso parece ser de somenos. Porém, o que está em jogo é o que fazer com o seu desejo. Ceder a ele ou mantê-lo sob controle? Qualquer que seja a sua decisão sobre isso haverá conseqüências, mas só você pode decidir que preço quer pagar.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Inevitável

            As pessoas quando questionadas quais os maiores medos respondem com freqüência que têm medo da morte. Algo que é inevitável e que se tem certeza passa a ser visto com temor. A morte é certa e dela ninguém escapa, sabemos todos que ela chega, mas mesmo assim ela é sentida como algo terrível e que é um erro grosseiro da natureza permitir que assim seja. Nosso sentimento de onipotência é tão grande que queremos até decidir pela natureza.
            Se a morte é algo tão certo por que então há esse pavor tão grande por ela? Provavelmente porque quem mais tem medo dela tem um desejo de viver bem que nunca se realizou. É notório que entre as pessoas que vivem bem, ou seja, que aproveitam a vida e a vivem com alegria e prazer aceitam melhor e com mais serenidade quando a morte chega. Não se sentem em dívida em relação à vida, pois sabem que aproveitaram suas possibilidades e que deram o melhor de si. Ficam tranqüilos perante à morte já que compreendem que seu tempo acabou, mas sabem que ficarão na memória dos familiares e daqueles a quem tocou no decorrer de suas vidas. Celebraram a vida e podem seguir sem mágoas e ressentimentos.
            Já aqueles que temem a morte com angústia são os que mais se sentem em dívida por não terem aproveitado bem a vida. Por não terem vivenciado suas possibilidades e potencialidades sentem que há ainda muito por viver. Se protegeram tanto, mas de uma maneira confusa e desorganizada, que o único resultado foi não terem vivido muitas experiências importantes. A morte passa a ser encarada como uma ceifadora sem coração que está arrancando as possibilidades que jamais foram realizadas. Nesses casos a morte está associada a um grande sentimento de perda, praticamente um roubo.
            A melhor maneira de se precaver da morte é vivendo bem. Não há outra maneira tão eficaz. Quando passamos a valorizar e apreciar o que vivemos criamos condições de não mais temer o inevitável. Quando prestamos atenção à vida a morte passa a ser encarada como algo natural e não como uma inimiga. Viver feliz é o melhor seguro contra os medos, inclusive o da morte.