sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Pergunta de Leitora - De perder a cabeça



Oi, pergunta breve! Oi Sylvio. Queria (preciso) te fazer umas perguntas porque estou realmente perdida.
Ser livre é lutar contra impulsos fortes que nos prejudicam, mesmo que visem o prazer à curto prazo?
Nós não somos nossos impulsos/desejos? Onde fica localizada nossa identidade? Está naquilo que a razão nos manda ser? Por exemplo, se temos em nós o desejo de morte... fica difícil pensar à longo
prazo, certo? As coisas se complicam em nossa mente e começamos a pensar como obesos ou drogados.
Isso é ruim, então o que falta para pessoas assim resolverem ir pelo caminho certo? Como ignorar o bem à curto prazo que alguma cosias ruins nos proporcionam? Se puder responder eu agradeço muito mesmo. Acabei trancando a faculdade no último ano por tudo isso. Essa luta entre razão e emoção, vida e morte, essa problemática da identidade.

            O titulo do seu email foi Oi, pergunta breve!  que está totalmente contraditório com o conteúdo que não tem nada de breve. Li e reli sua mensagem e confesso que fiquei sem entender qual a sua questão de fato e como você gostaria que eu a ajudasse. Acho que até mesmo a forma como você escreveu reflete a confusão que se encontra aí dentro de você.
            Parece-me que você se encontra em conflito. Agora sobre a natureza desse conflito não faço idéia. Arrisco a dizer que estar em conflito para você, nesse momento, é intolerável de aceitar. A impressão que fica é que o conflito está intenso e que você quer se livrar dele o mais rápido possível. Realmente estar em conflito não é agradável, mas ninguém se livra dele. Ele serve para ser elaborado.
            Ao nos dar conta dos nossos conflitos precisamos desenvolver uma mente que possa pensá-los. Esse pensar é tal qual um processo digestivo onde algo é digerido até poder servir de alguma forma. Em outras palavras, o pensar é transformar os seus pensamentos e na transformação haver o desenvolvimento. No decorrer desse processo você se modifica e tem a chance de entender coisas que antes estavam te perturbando.
            Não posso ser mais específico pois você foi vaga em falar de seus conflitos. Acredito, no entanto, que o que você quer é estar em análise e ter alguém a seu lado para lhe ajudar a dissipar muito da sua confusão. Já pensou em procurar um profissional que te escute? Você não precisa ficar perdida, basta escolher o caminho do autoconhecimento e se entregar a essa jornada. Assim, poderá saber mais da sua identidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Autoritarismo e Autoridade



            Apesar de parecer a mesma coisa autoritarismo e autoridade são bem diferentes. A primeira está a serviço da arrogância e do controle enquanto a segunda está a serviço da ordem e contenção. As vezes a linha que separa essas duas coisas é tão tênue que frequentemente uma pessoa passa de uma posição de autoridade para a de autoritarismo muito facilmente e sem perceber.
            Possuir autoridade é se dar o direito de algo, direito este conquistado através de um longo percurso no qual a aprendizagem está presente e por fim fazer bom uso do que foi aprendido. Já autoritarismo diz respeito a uma posição de prepotência. Usa do conhecimento que tem para fins de controle e de desprezo do outro.
            Uma autoridade pode ser representada por pais, professores, médicos e todos aqueles que de alguma forma querem o bem do outro. Servem como ponto de referência e ajudam a conter as emoções conflituosas que tanto pode deixar alguém perdido. Já um autoritário também pode ser encontrado em pais, professores, médicos e todos aqueles que de alguma forma não olham para o outro como humano, mas como objeto a ser controlado e até menosprezado. Não pode mais ser visto como ponto de referência porque usa da violência, seja ela física ou psicológica, para dominar e tirar a humanidade que está no outro.
            Quantos pais não agem assim e com isso deixam de ser aquelas pessoas com quem os filhos possam contar e passam a ser aquelas pessoas que os filhos passam a temer e evitar? E o que dizer de médicos autoritários que mais assustam seus pacientes do que os ajudam num momento difícil e delicado? Sem contar os professores que têm prazer em humilhar seus alunos em vez de colaborar para a aprendizagem deles.
            Há muitas pessoas fazendo uso do autoritarismo, que nada mais é do que uma manifestação da arrogância. Arrogância é patológica, pois implica se agarrar numa posição onde se acredita melhor que os outros e de que não há mais nada a ser aprendido. A arrogância engessa as pessoas deixando-as imóveis para aprender. Se humanizar tem a ver com aprender e com isso podemos ver que quem faz uso da arrogância se desumaniza em vez de se humanizar. E quem se desumaniza não consegue ver o humano em si próprio e nem no outro tratando tudo de forma rude e primitiva. O autoritarismo em vez de acender uma luz, aumenta a escuridão e o sofrimento.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Pergunta de Leitora - Um ato psicológico



Sempre sonhei em ter um filho. Desde pequena acalentei esse sonho. Hoje estou casada há quase seis anos e até agora não consegui engravidar. Já fui a vários médicos e meu marido também e segundo os exames não tem nada de errado conosco. Um médico até falou que eu posso não ter engravidado ainda por causas psicológicas. Não entendo. Eu quero tanto ter um filho então como seria por questões psicológicas? Será que estou me boicotando? E também morro de medo de engravidar e perder a criança, como já aconteceu com algumas amigas minhas. A gravidez é tão frágil e requer tanto cuidado. Quero tanto um filho que até dói. Meu marido está cansado dessa história de eu querer tanto algo que não poso ter. só sei que me sinto muito mal com tudo isso. Será que devo procurar ajudar psicológica para isso?

            Segundo seus exames não há nenhum impedimento para você engravidar, mesmo assim isso não acontece e gera angústias. Um médico sugere que isso pode estar acontecendo por questões psicológicas. Em princípio você estranha, mas depois pergunta se pode estar se boicotando. Talvez valha a pena pensar nesta pergunta com mais cuidado.
            Nós não somos apenas seres biológicos, mas também somos seres psicológicos. Nossas vidas não podem ser resumidas apenas em questões biológicas e físicas. Isso seria limitar muito quem realmente somos e um convite para permanecer na ignorância de vários assuntos sobre nós mesmos. Conhecer a própria mente fornece elementos para se entender melhor o que nos acontece e até saber se podemos mudar muitas coisas que nos aborrecem em nossas vidas.
            Não posso dizer se o fato de você não ter engravidado tenha algo relacionado à fatores psicológicos, mas posso dizer com certeza que você não perde nada em se conhecer melhor. Quando você se pergunta se há a possibilidade de um auto-boicote é importante você descobrir se é isso mesmo e porque se auto-boicotaria. Descobrindo esses por quês pode te ajudar a se livrar de muitas coisas, ou seja, se tornar livre.
            Quando você considera a gravidez algo tão frágil e que requer tanto cuidado será que você não está se colocando em dúvida quanto à sua capacidade de realizar isso? É apenas uma hipótese, pois para se saber mais é necessário mais informações. Ao falar com um analista que saiba te escutar você aprenderá a se ouvir e saberá mais de si e de seus motivos inconscientes. Conhecer sua dimensão psicológica é de extrema importância para você viver melhor como pessoa e até como possível futura mãe.  Até por que ser mãe não é só um ato biológico, mas acima de tudo um ato psicológico.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Crescer leva tempo



            Uma das maiores queixas de quem entra numa análise é que se trata, de certa forma, de um processo que exige um tempo. Querem ter suas angústias e problemas resolvidos o mais rápido possível. Aliás, quem não gostaria disso? Só que em análise as coisas não se dão assim e é necessária uma tolerância com a espera.
            Essa espera tem uma razão. É porque numa análise o que está em questão é a subjetividade e esta não se resolve num piscar de olhos ou da noite para o dia. Exige tempo para que seja construída, vivida e pensada. A subjetividade, essa coisa tão imaterial e amorfa, é justamente o que nos dá uma identidade. Que nos forma em quem somos. Muitas vezes nos tornamos pessoas que não estão bem, que sofremos e para se mudar isso é preciso se entender variáveis dessa mesma subjetividade que levaram a isso. Esse processo leva tempo e exige muita atenção.
            Computadores e máquinas podem ser programados. Humanos não. Eles precisam se fazer, aprender com as próprias experiências e com a vida. Nossas vidas são muito mais complexas do que máquinas e por isso mesmo exige também mais trabalho e investimento. Não ter paciência com o tempo que o caminho do autoconhecimento demanda é uma forma de se desumanizar, ou seja, de tirar a oportunidade de desenvolver o que pode haver de melhor dentro de si.
            Na estória infantil dos três porquinhos, o primeiro porquinho construiu uma casinha de palha, que não exigiu esforço e tempo nenhum, e não é a toa que essa mesma casinha foi embora com o sopro do lobo. Já o segundo levou um pouquinho mais de tempo e teve um pouquinho mais de trabalho ao levantar uma cabana de madeira. Por isso mesmo o lobo levou mais tempo para derrubá-la. Já o terceiro porquinho usou seu tempo para construir algo mais seguro e confiável, tanto que o lobo falhou em destruí-la. Até nessas estórias infantis podemos aprender que se queremos algo que seja de valor devemos investir nisso. Agora vamos imaginar que em vez de casinhas essa estória falasse de se construir uma mente. Qual mente você gostaria de construir? Qual delas você preferiria confiar?