sábado, 2 de julho de 2011

Pergunta de Leitor - Egoísmo


Tenho 36 anos, sou casado e com um filho de 4 anos. Gosto da minha mulher, mas não a amo. Meu trabalho também não é importante. Ganho pouco e estou cada vez mais desinteressado da vida. Queria gostar de viver. Vejo tantas pessoas que gostam de viver e aproveitam a vida e eu nada. A verdade mesmo é que venho pensando muito em me matar. Afinal o que tenho na vida? Creio que até minha família ficaria melhor sem mim. Como ter gosto pela vida?

“Afinal o que tenho na minha vida?” Você reparou que nessa pergunta você parece esquecer que tem um filho de quatro anos? Será que ele não merece um pai? Ou você acredita que se matando vai deixá-lo feliz? Na verdade falando assim você acaba sendo um egoísta. Egoísta porque não leva em conta o bem estar do seu filho que é pequeno e dependente de você para começar a vida e egoísta com você mesmo ao ser tão ingrato com a sua condição de estar vivo.
            Ao que parece você está desanimado com a vida porque ela não saiu como você desejava. Bem, nesses casos é preciso então investigar o que você pode fazer para melhorá-la. Não tenha vergonha e nem medo para pedir ajuda para lidar com suas angústias. Você fala como se as coisas não pudessem mudar, como se fossem imutáveis. Viver assim é realmente desesperador.
            Agora mudança nenhuma na sua vida vai acontecer do nada. Muito vai depender do que você vai fazer ao responder à suas questões. Sei que é difícil passar por dificuldades, no entanto, ficar apegado ao sofrimento não vai melhorar nada. Se precisar mudar coisas na sua vida para sentir mais prazer nela então faça. Mas primeiro você precisa saber o que realmente quer. E não se esqueça de pensar na herança que vai deixar para o seu filho. Quer deixar a imagem de um pai que, mesmo com angústia, procura pela vida ou a imagem de um pai egoísta que abraça a loucura?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Os Perigos da Autopiedade


            A autopiedade é uma das piores coisas que podemos sentir. Ela nos enfraquece tornando-nos vítimas de um aprisionamento mental desesperador. Quando sentimos dó de nós mesmos acabamos por reclamar todo o tempo e nada fazemos para mudar nossa situação. Infelizmente é grande o numero de pessoas que se utilizam da autopiedade achando que com ela resolverão alguma coisa.
            É muito comum ouvir pessoas que reclamam de tudo e de todos em todo o momento. Tudo está errado para elas, tudo acontece com elas e elas acabam por se sentirem coitadas e vítimas. Na verdade quando essas pessoas reclamam sem parar estão presas a um ódio muito intenso que as levam a atacar sua própria mente e as impedem de começarem a ver as coisas por um prisma mais realista. Como a vida não é como elas gostariam que fossem elas passam a se lastimar em vez de refletir e mudar o modo como vem vivendo. Não adianta reclamar, a realidade de suas vidas não mudarão devido o tempo que se desperdiça se lastimando, mas pode mudar com o tempo usado e investido para se analisar. Afinal, problemas todos nós temos, o que não dá é ficar preso a eles para sempre.
            No momento da análise muitas desculpas antes usadas para justificar a autopiedade (não dá, é impossível, não consigo, não me deixam, só se eu fosse mais bonito, só se eu fosse rico, etc.) passam a ser questionadas, colocadas em dúvidas e assim podem ser abandonadas e adotados no lugar pensamentos muitos mais construtivos. Isso significa abandonar a pena de si mesmo e buscar novos significados. É deixar um possível passado desalentador e ir atrás de um futuro mais promissor. Enfim, é trocar um funcionamento onde tudo é ruim por outro que pode enriquecer. A psicanálise é de grande auxílio nesse processo. Ela ajuda a pessoa a investigar e a entender o porquê sua vida não vem sendo vivida com qualidade e a fortalecer a procura por uma vida mais digna.
            Quem estiver preso a autopiedade e estiver incomodado com isso procure ajuda. Não desperdice tempo, pois este passa muito rápido e jamais é recuperado. Use o incomodo para sair dessa posição tão desfavorável para buscar outra que lhe seja muito mais conveniente e benéfica. Nem tudo na vida é sorte, muito é fruto do trabalho que temos em melhorá-la ou piorá-la. Sartre costumava dizer que não importa tanto o que nos acontece, mas o que vamos fazer com o que nos acontece. Tudo depende do que vamos criar para nós mesmos.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Voz de Freud


      A psicanálise, ciência fundada por Freud, já existe há mais de um século. Desde os seus primórdios ela encontrou uma resistência muito forte e foram inúmeras as pessoas que previam o seu fim. Até hoje sempre aparece alguém que vaticina o término dessa ciência que vem cada vez mais se fortalecendo e ajudando pessoas a enfrentar momentos de angústia e a viver melhor a vida.
      Freud sem dúvida nenhuma trouxe muitas mudanças ao mundo. Suas teorias mudaram como o homem se vê e age e abarcam vários ramos do saber humano: antropologia, cinema, literatura, medicina, filosofia, etc. 
      Aqui abaixo há um vídeo, raro, com a voz de Freud falando dele mesmo e da psicanálise para a BBC de Londres pouco antes dele morrer. Ele considera que conseguiu fazer sobreviver seu legado, mas que ainda há muito a ser feito. Mesmo para aqueles que não gostam dele ou de psicanálise vale a pena assistir já que se trata de um homem que mudou a humanidade.

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domingo, 19 de junho de 2011

Amor e Paixão


              Recentemente reli Os Maias de Eça de Queiroz. Me fez pensar bastante. A primeira vez que eu li era muito mais jovem e não tinha a cabeça que tenho agora. Com o tempo e as aprendizagens que se tem na vida nossos pensamentos mudam.  Relendo essa obra fiquei boquiaberto ao perceber quão fantástica é essa estória. Em minha opinião Eça de Queiroz se figura entre os grandes escritores do mundo.
            O enredo de Os Maias me fez refletir bastante sobre a diferença entre o amor e a paixão.  Muitas vezes esses dois sentimentos são confundidos como a mesma coisa, mas são de naturezas bem distintas. Enquanto a paixão é puro impulso e entrega o amor é bem mais inteligente e contido. É importante, contudo, que digo aqui daquela paixão avassaladora que nos domina completamente e nos tira o chão da realidade. Não me refiro àquela paixão que nos encanta e faz a vida valer a pena. A paixão que me refiro é aquela que cega e não mede conseqüências e que pode levar a tragédia.
            É justamente isso que acontece nessa obra portuguesa. A personagem Maria Monforte se entrega a todas a suas paixões e principalmente por causa delas muitas tragédias acontecem. Ela não levou em consideração que suas ações teriam uma repercussão tão funesta sobre as pessoas em sua volta. Ela simplesmente só quis saber de si e agiu como se não pudesse pensar.
            Penso que precisamos ter nossas paixões e trazer regalo à vida, mas tudo com consideração para sabermos se a entrega a essa paixão vale a pena. Enfim, é sermos verdadeiramente responsáveis pelo que fazemos. Se entregar apenas pela paixão em si é um gesto egoísta. É a mesma atitude que têm os radicais religiosos, políticos ou idealistas de qualquer matiz. Perde-se o respeito e a dignidade e nos leva a um caminho perigoso. Até porque a paixão avassaladora tem muito mais a ver com as ilusões do que com a realidade. Tem mais a ver com aquilo que imaginamos e nos apegamos em nossas mentes. Já o amor tem a ver com o cuidado e o bom pensar. Maria Monforte, de Eça de Queiroz, não amou e nem sabia o que era amar e por isso sofreu imensamente e levou filhos, familiares e amigos para o sofrimento. Um drogado, em certos aspectos, é tal qual um apaixonado. Não se desapega desse seu desejo pela droga mesmo que o leve para o fundo do poço.
            Quão diferente que é o amor verdadeiro. Esse raramente faz besteiras, pois põe a vida e a dignidade em primeiro lugar. Por ser tão mais inteligente não leva à tragédia. Por ser tão mais cuidadoso leva o bem estar do outro a serio. Lembrei-me agora do final do romance O Fantasma da Ópera de Gaston Leroux para representar o amor. O fantasma quase se entregou à paixão e com isso quase trouxe destruição à sua amada e ao seu rival, mas instantes antes disso acontecer ele pensou no bem estar físico e mental de sua amada e pôde renunciar a sua paixão mesmo que isso lhe causasse imensa dor. No fim o amor venceu e o tornou muito mais sábio e um ser humano melhor. Não era mais um fantasma.